Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel
> Assista à entrevista exclusiva de Elisa Lucinda ao SaraivaConteúdo
Pode-se dizer que
Elisa Lucinda é uma militante. Sim, uma militante poética. Conhecida pelo
trabalho que desenvolve na Escola Lucinda de Poesia Viva, Elisa comemorou, no
dia 1º de agosto, um ano da Casa Poema – sede de sua escola, em Botafogo, no
Rio de Janeiro, que está se transformando num centro cultural.
“Investi todo o
dinheiro que eu tinha, que não era muito, estava guardando para comprar a minha
casa. Investi aqui nesta casa, viajei. Quando eu vi, a gente saiu do
escritório. Saímos do ‘centro culturalzinho’ lá, escola, para chegar aqui,
virar um centro cultural. Sem que tivesse havido uma programação para isso, não
sentei e fiz as contas para saber quanto gastaria... Não. Fui toda, com uma
equipe apaixonada também. Assim nasceu esse sonho. Quando eu estava reformando
a casa, as pessoas passavam e falavam assim: ‘Vem cá, parece um sonho isso!’.
Eu dizia: ‘É um sonho’.”
Na festa, ou
melhor, no recital comemorativo, a homenageada foi a poetisa gaúcha Martha
Medeiros, mais conhecida pelos livros de ficção e crônicas publicadas em jornais. Durante
o evento, os alunos e professores da casa disseram os poemas, com naturalidade,
sem performance e chatice freqüente em
saraus do gênero. Na platéia: Martha Medeiros, Beth Carvalho e Regina Duarte.
E porque falar
poesia? “Eu considero a poesia remédio”, afirma Elisa, para logo em seguida
declamar “Ex-voto”, um poema de Adélia Prado, e continuar a defesa da tradição de
falar poemas: “A poesia devia estar na sala de aula, nossa poesia é uma só”.
Em 2008, você inaugurou a Casa Poema, sede da Escola
Lucinda de Poesia Viva. Fale sobre a escola.
Elisa Lucinda. A Escola Lucinda de Poesia Viva é uma
escola que ensina a falar poesia sem ser chato, de um jeito coloquial. Traz à
poesia o que acho que ela perdeu: o seu poder de comunicação oral. Perdeu por
quê? Por vários motivos, um deles porque ficou muito démodé essa formalidade de dizer poema declamando e ninguém
entendendo nada. Eu já tinha essa escola que funcionava iten... Como é que é?
Itinerantemente. [risos] A palavra não queria vir não. Funcionava na minha
casa, primeiro na minha casa, por muitos anos: oito anos. Depois comecei a ter
lugares, até alugar uma sala num centro cultural em Botafogo. Um dia eu “enchi”
de ter escritório em casa, queria reunir isso tudo. Eu não queria mais assinar
cheque de calcinha e sutiã – que é o que acontece! [risos] Você está em casa e
as pessoas batem na porta: “Elisa, assina aqui”. Você de toalha e assina. A casa
foi virando uma produtora. E, também, eu queria anunciar a escola, poder ter
essa liberdade. Achamos essa casa, reformei, me comportei como uma
milionária... Fiquei maluca! Gastei... Investi todo o dinheiro que eu tinha,
que não era muito, mas estava guardando para comprar a minha casa. Investi aqui
nesta casa, viajei. Quando eu vi, a gente saiu do escritório. Saímos do “centro
culturalzinho” lá, para chegar aqui, virar um centro cultural. Sem que tivesse
havido uma programação para isso, não sentei e fiz as contas para saber quanto
gastaria... Fui toda, com uma equipe apaixonada também. Assim nasceu esse
sonho. Quando eu estava reformando a casa, as pessoas passavam e falavam assim:
“Vem cá, parece um sonho isso!”. Eu dizia: “É um sonho”. Em um ano, é uma casa
que ainda não tem patrocinador, tudo que a gente ganha se coloca aqui na Casa
Poema. É uma casa em que você pode almoçar... Tem aula para criança, para gente
grande, se prepara recitais.
Por que ensinar a falar poesia?
Lucinda. Eu considero a poesia remédio. Tem um poema
da Adélia Prado... Posso falar? Aliás, o nome do poema é “Ex-voto”. Ex-voto é
aquele objeto que as pessoas deixam nas salas de milagres, nos conventos: “Se
eu ficar boa desse braço, eu levo um braço de gesso e coloco nos pé de Nossa
Senhora Aparecida”. Então, ela fez esse poema chamado “Ex-voto”, que para mim é
definitivo. Diz assim:
Na tarde clara de
um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos
urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar
a cabeça e me por nua no centro da minha vida
E uivar até me
secarem os ossos
Que queres que eu
faça Deus?
Quando parei de
chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Você é muito
sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo
porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo
Respira fundo,
insistiu!
Joga água fria no
rosto, vamos dar uma volta, é psicológico
Que ex-voto leva
à Aparecida se não tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga
devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as
orações católicas.
Eu nunca ia ser
budista!
Por medo de não
sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo
alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?
Minas tem coisas
terríveis.
A serra da
piedade me transtorna.
Em meio a tanta
rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador
do mundo.
O menino não
consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que
seria um seio, agora às moscas.
Meu coração é bom
mas não aceita que o seja.
O homem me
presenteia.
Porque tanto
recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?
Palavras não, eu
disse. Eu só aceito chorar!
Porque então
limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito
nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que
é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e
rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.
Me imploram amor
Deus e o mundo.
Sou pois mais
rica que os dois.
Só eu posso dizer
a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer
a ele: Sois belo, belo, sois belo.
Quase entendo a
razão da minha falta de ar
Ao escolher
palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.
A uns, Deus os
quer doentes, a outros quer escrevendo.
Eu acho esse
poema chiquérrimo. [risos] E eu demorei muito a estudar, a aprender ele. Por
que eu tinha dificuldade de decorar? Eu não entendia. Eu tenho muita facilidade
de decorar. Eu começa e deixava pra lá... Eu descobri: eu não estava à altura
dele. Um dia eu estava com um sentimento tão triste, doía tanto a minha alma
aqui dentro. E era domingo. Mas eu nem me lembrei disso, que o poema começa
assim. Falei: Vou decorar aquele poema da Adélia hoje. Peguei o poema e começa:
“Numa tarde clara de um domingo quente”. Era domingo! Decorei o poema em cinco
minutos, nunca mais esqueci. Eu atingi na minha vida pessoal o estágio daquele
poema, daquele processo humano que o poeta traduziu ali. Então, por isso,
ensinar poesia. Porque ela faz uma falta enorme na vida das pessoas. Eu tive um
namorado que escreveu poema para dizer que minha mãe morreu. Custei a entender,
era uma metáfora, eu não queria aceitar. Só quero dizer que poema uma tem força
na vida de uma pessoa, ele é de uma utilidade... Ele é remédio! E oficialmente
está muito fora da nossa comunicação. Sou uma lutadora dessa onda. Eu brigo
valentemente, sempre digo isso, para que a poesia pertença aos cômodos de uma
casa, aos interiores de uma família, à construção de uma relação, à grade
curricular... Esse nome é feio: “grade curricular”. Não está vendo que essa
escola está errada!? Não está errado isso? “Grade curricular”? Tem que ter
outro nome: um conjunto de coisas que vão abrir caminho. A poesia devia estar
na sala de aula, nossa poesia é uma só. Eu tenho consciência de que é um
trabalho de muito poder, um poder revolucionário. A poesia bem falada, por
professores ou por quem quer que seja, gera novos leitores e novos autores. Você
sai inspirado, com vontade de pegar aquele livro de poesia que está jogado na
sua estante. Eu acho que pode até reverter o quadro.
Além de poeta, você é atriz. Como lidar com essas
personas quando a sociedade quer escolher um determinado rótulo?
Lucinda. Eu acho que quem pior lida com isso é a
imprensa. E as outras pessoas que se deitam para me analisar de uma maneira
rápida. Quem se dedica com um olhar mais transversal consegue sacar isso. Por
exemplo: para o caderno de poesia eu sou atriz, para o caderno de cultura eu
sou poetisa. Você sabe, estou falando dos jornais. Sempre vai ter um rótulo.
Para mim, eu existo assim.
[O poeta Mano
Melo entra no estúdio, cumprimenta Elisa sem perceber que ela está numa
entrevista]
Hoje, por
exemplo, enquanto eu fazia uma crônica, eu pensava no meu filho, na minha vida
amorosa... Eu sou concomitante. A natureza é múltipla, ela acontece ao mesmo
tempo. Sou muito identificada com essa natureza, em mim acontecem habitações.
Na hora que estou transando, não deixo de ser poeta. [risos] Muito pelo
contrário. E quando estou escrevendo também não esqueci que sou uma mulher,
amante. Eu nem me preocupo com isso, não me preocupo não. [risos] Eu vou
vivendo, sabe? Eu vou para o dentista de bicicleta. Aproveito e decoro uma
canção, nesse trajeto da minha casa até o Leblon. Pode ser que eu use essa
canção à noite, no espetáculo, para o pessoal adivinhar o autor e ganhar a
bolsa do Gilson Martins. Só para te dizer que isso tudo é misturado.
Assim como a poeta Viviane Mosé, você é natural do
Espírito Santo. Como é essa relação com sua cidade de origem?
Lucinda. É uma relação de paixão, de filha. Eu
adoro ter uma casa em Itaúnas, no Espírito Santo. Eu freqüento a terra, tudo
para mim é terra. Tudo eu quero levar um pouquinho lá pra casa, sabe? Eu estou
escrevendo para o Correio Braziliense,
mas eu quero publicar em Vitória, sem que precisem me pagar. Eu cheguei aqui
[no Rio de Janeiro] cheia de algumas sementes que puderam crescer. Eu sou do
Espírito Santo e o Rio de Janeiro é a minha cidade madrinha.
Quando vai sair seu livro Crônicas do jornal de amanhã?
Lucinda. Eu tô pirada! Hoje mesmo peguei nele.
Ele não saiu, mas vai sair. Vai continuar Crônicas
do jornal de amanhã. Mas acho que vou misturar com as crônicas que estou
escrevendo para o Correio. Porque
estou adorando esse dever de casa, desocupa muito o meu coração que não pára.
Tem uma música que o Pedro Luís gravou que é assim: “Meu coração é uma máquina
de escrever / É só você bater pra entrar na minha história”. Eu gosto de pensar
escrevendo. O Stefan [o cinegrafista] foi a primeira pessoa que me deu um
laptop numa época em que todo mundo só tinha “computadorzão”, troglodita. Fui
uma pessoa que queimou etapas. Aquilo foi uma grande revolução na minha vida.
Hoje eu gostaria de uma coisinha que eu pensasse e já pudesse imprimir. Não
queria relação direta com o cérebro dos outros para não dar confusão de
privacidade...
Como você entende a relação da literatura com a
internet?
Lucinda. Acho ótimo. Nós estamos num ótimo momento
no mundo. Antigamente tinha produtos que só tendo grana para consumir. A
internet fura isso. Não preciso comprar a obra, pelo menos tenho os lampejos.
Acho que ela dá uma democratizada, inclusive na música. Não sei como é que vai
legislar isso. Eu não me importo a mínima nessa briga de direito autoral, sabe?
Eu não. O que eu libero na internet, se reverte em vendas para mim. As pessoas
acessam lá, ficam me procurando, chegam numa livraria, me reconhecem e compram.
Quem vai levar o computador pra cama o tempo inteiro? O livro nunca vai sair de
moda. Não tem que desligar...
Não gasta energia.
Lucinda. Não gasta energia, imagina... [risos]
O que é necessário para ser poeta?
Lucinda. [silêncio] Pergunta difícil. Não sei,
não. Eu sei que não se escolhe ser poeta. Não é opção. É dom, mas está ali. Maria Rezende foi
um caso desses. Ela nunca me falou que escrevia poesia, nem ela sabia que
escrevia poesia. Um dia, a gente viajando, ela falou: “Posso mostrar uma coisa
no meu caderninho?” Respondi: “Pode. De quem é?” “Meu”. “Desde quando?” “Não tô
entendendo, está acontecendo isso.” Poesia é um viés de olhar. Por exemplo, no
aeroporto, chegou uma criança e perguntou: “Moça, tem desse vestido pra gente
pequena?” Uma menina linda. Eu tenho oito vestidos desse aqui. Mando fazer
muito quando eu gosto muito. Achei a bordadeira, fiz um de cada cor. No
aeroporto em Goiânia, eu queria ser mágica, fazer um vestido para ela. Eu
fiquei com os olhos cheios de lágrima porque achei um poema aquela cena. É uma
cena que no meu coração ficou marcada. Isso poderia passar despercebido por
qualquer pessoa que não fosse poeta. Não estou dizendo que sou especial, não.
Estou dizendo que você fica com essa lente, um aproveitamento da vida muito
interessante. Sabe aquele lixo do baralho quando a gente joga buraco? Eu
acho... Pérolas.
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