Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel
> Assista à entrevista exclusiva com Affonso Romano de Sant'anna ao SaraivaConteúdo
Para o poeta Affonso Romano de
Sant’Anna, “a morte é uma construção que se faz em vida”. A sua produção
poética e crítica – se encontram nos caminhos diversos de sua trajetória – fazem
parte dessa tentativa de registrar as idiossincrasias da experiência humana.
“A literatura, por exemplo, a
poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria
narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir
aquele vazio. A impressão que o escritor tem – não sou só eu, qualquer
escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem – quando produz
uma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor,
só existe quando for transformada em palavras”.
Um dos intelectuais mais atuantes
do Brasil, Romano de Sant’Anna se relaciona com o tempo buscando imprimir sua
visão de mundo através de versos e textos ensaísticos, num constante estímulo
ao pensamento crítico. Confessando que estava cansado de “ler de joelhos”, o
poeta sai à procura de um diálogo, em pé, com autores que pensam a sociedade atual.
“Na universidade se lê tudo de
joelho o tempo todo: Benjamin, Nietzsche... Fica repetindo aquelas coisas que o
professor... O professor está de joelho também lá... Eu resolvi ler essas
pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que
ter uma redação própria”, afirma o autor de O
enigma vazio (Rocco, 2008), entre outros títulos de ensaios, crônicas e
poesias.
Diante de uma intensa relação com
o tempo, Affonso Romano de Sant’Anna relembra o início de sua carreira, quando
resolveu sair de Belo Horizonte, aos 17 anos, acompanhado do irmão mais velho,
e levar alguns versos para avaliação do poeta Manuel Bandeira, no Rio de
Janeiro.
“Entrei lá e entreguei para ele os
poemas. Ele dizendo, de uma maneira muito seca, que não gostei até: “Olha, se
eu não gostar eu digo, hein...”, relata o poeta que foi considerado pelo
crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no que se
refere ao desenvolvimento de uma “linhagem poética”.
A memória, cada vez mais presente
em sua vida, nos faz compreender que “cair no tempo é parar de deslizar na
superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria noção
de tempo”, como declara o poeta.
Quando
jovem você reuniu seus versos e levou ao poeta Manuel Bandeira. Como foi essa
história?
Affonso Romano de Sant’Anna. Isso era
muito aquela ansiedade do jovem escritor – ele precisa de um aval, precisa de
contato com um grande escritor, que diga de alguma maneira, uma palavra sobre
seus escritos. Então, naquela coisa provinciana, meio adolescente, até uma
certa meiguice, eu sai de Juiz de Fora e fui ao Rio de Janeiro. Tive um
encontro com Drummond também, que até fiz uma crônica sobre isso, na mesma
ocasião. E com o Bandeira, foi uma coisa muito meiga ir ao apartamento dele, o
“poetão” estava lá de robe, fazendo um café num canto, conversando com uma
pessoa. Fui com meu irmão mais velho, que era uma espécie guardião...
Você tinha 17 anos?
Romano de Sant’Anna. Tinha 17
anos, com a audácia dos 17 anos. Entrei lá e entreguei para ele os poemas. Ele
dizendo, de uma maneira muito seca, que eu não gostei: “Olha, se eu não gostar
eu digo, hein...” Eu pensei comigo, na minha vaidade de adolescente: “Claro que
ele vai gostar, vai cair de quatro”. Na verdade, passado alguns dias, eu achei
que ele tinha se esquecido de me responder. Daqui a pouco, chegou uma carta,
uma letra bonitinha e bem feita, envelope de seda... Eu abri, levei para quarto
para ler aquela coisa, o nome dele como remetente. Papel de seda. Começava
assim: “Achei muito ruins os teus versos”. [risos] Foi muito engraçado porque
ele dizia “gostei de uns poemas assim e tal”, e copiou com a mão uns versos que
ele tinha gostado. Que era até de um poema que depois reaproveitei e publiquei
mais tarde, um poema que tinha tudo a ver com a circunstância. Imagina. O poema
se chamava “Poema aos poemas que ainda não foram escritos”. Aquela coisa, você com
17 anos, imaginando quando tiver 50, 60, 70 anos quanto teria escrito...
Naquele tempo eu escrevia muito.
Qual foi a importância dessa crítica do
Bandeira?
Romano de Sant’Anna. Foi
fundamental. Porque eu já era o maior poeta da minha casa. Eu já era o maior
poeta da minha rua. Eu já era o maior poeta do meu bairro. Eu já era o jovem
talento da minha cidade. Então, eu precisava que alguém me dissesse a verdade.
Não bastava essa coisa afetiva ou familiar, dos amigos... E um poeta te dizer:
“Olha você vai ter que aprender, rapaz. Algumas coisas têm que ser devagar. Tem
talento e tal, mas vamos lá...” Eu gostei muito, não fiquei chateado, achei
aquilo um grande estímulo.
Você sempre quis ser poeta?
Romano
de Sant’Anna. Eu comecei meio sem saber o que eu estava fazendo,
escrevendo umas coisas... E como eu tive a coragem também de publicar meus
textos em jornal, aos 16/17 anos, fui abrindo caminho...
Como você lida com a relação da memória em sua
produção poética?
Romano de Sant’Anna. A memória está
se tornando mais presente de uns tempos para cá. Porque você quando se é jovem
está envolvido com o presente e pelo futuro, o passado é uma aquisição, o
passado é uma conquista. Eu costumo dizer, quem tem até 25 anos vive no espaço.
Você começa a viver no tempo depois dos 30. Cair no tempo é parar de deslizar
na superfície das coisas e mergulhar dentro de você, a descoberta da própria
noção de tempo. Enquanto o indivíduo não descobre que ele é um ser temporal,
portanto sujeito à morte, e que as coisas são precárias, ele não está vivendo,
está deslizando por aí. A literatura, no meu caso, é um aprofundamento dessa
questão do tempo, uma bifurcação que eu me encontro com o amor e a morte.
Como
lidar com o amor, a morte e o passar do tempo?
Romano
de Sant’Anna. É uma relação progressiva nos dois sentidos. Eu
acho que você tem que construir a sua morte, não pode deixar para pensar na
morte depois de morto. A morte é uma construção que se faz em vida, a morte faz
parte da vida. A menos, que você morra num desastre, num acidente, com uma
doença de repente... Mas mesmo assim é uma construção, no sentido que você está
roubando a destruição com uma certa construção. A literatura, por exemplo, a
poesia, para mim, é a construção que você deixa sobre a destruição. É a própria
narração da destruição, mas, dialeticamente, construindo algo que vai cobrir
aquele vazio. A impressão que o escritor tem – não sou só eu, qualquer
escritor, qualquer artista que produz um som, produz uma imagem – quando produz
uma coisa ele preenche o vazio, ocupou o espaço. A vida, no caso do escritor,
só existe quando for transformada em palavras. O que você não registrou existe
imponderavelmente, egoisticamente, na sua cabeça, na sua memória. O que você
registrou é a sua vida concreta e pública. E literatura é isso, sua expressão
verbal tornada de utilidade pública.
Além
da produção poética, sua produção crítica é bastante intensa. Há alguma divisão
nesses trabalhos?
Romano
de Sant’Anna. É meio misturado, sabia? Na minha poesia, por
exemplo, tem uma face muito crítica, ela é até ensaística. Eu me lembro de um
livro que publiquei nos anos 60 para 70, um livro chamado Poesia sobre poesia, onde os poemas são ensaios, comentários sobre
produção patética da poesia do meu tempo. Então, essa vizinhança existe. Por
exemplo, tenho ensaios sobre a interpretação da obra da Clarice onde eu usei
uma estratégia, que acho muito sedutora e resultou muito bem, comecei a
escrever usando a linguagem, parafraseando um dos contos dela. A maneira mais
correta, digamos, de entrar na obra do autor, dentro da linguagem dele. Isso eu
tenho feito de diversas maneiras no ensaio.
Com
o Drummond, por exemplo...
Romano
de Sant’Anna. O Drummond tem muito disso, mas tem uns ensaios,
sobre Jorge Amado e outros, em que adotei essa estratégia intencionalmente. E
têm outros ensaios que são mais clássicos. Nesse último livro, O
enigma vazio (Rocco, 2008), que é um comentário crítico sobre o mal
entendido da arte contemporânea, eu entrei nos textos de Octavio Paz, Roland
Barthes, Jacques Derrida, Focault, Lacan... Habitar esses textos para ver as
contradições desses textos. Eu sempre digo: Trata-se de não ler esses autores
de joelho. Eu cansei de ler autores de joelho.
Você
já leu muitos autores de joelho?
Romano
de Sant’Anna. Na universidade se lê tudo de joelho o tempo todo:
[Walter] Benjamin, Nietzsche... Fica repetindo aquelas coisas que o
professor... O professor está de joelho também lá... Eu resolvi ler essas
pessoas em pé, o que realmente acho. A vida é uma assinatura pessoal, tem que
ter uma redação própria.
Há
quem utilize a vida como resultado final de um livro, sem trabalhar a
linguagem...
Romano
de Sant’Anna. Nós vemos isso na Flip. Para falar a verdade, essa
coisa do Mário
Bellatin, dessa outra Sophie Calle, e
vários personagens que perambulam pela Flip, pertence a um gênero, que foi
criado pela pós-modernidade, onde não se sabe mais o que é literatura e o que é
espetáculo. É um gênero, se deve analisar isso, produto da época. É bom pensar
criticamente sobre isso, se você tirar a parte biográfica, espetacular, fica o
texto. Será que o texto resiste? Ele tem autonomia para resistir? Você pega o
Bellatin, que estava com uma falsa mão: um gancho, um falo, ou um
vibrador... Isso é a notícia. As pessoas
vão assistir porque ele fez uma performance de tal ordem, a biografia. As
pessoas vão atrás do supérfluo para chegar à literatura. Alguém hoje me
perguntava: “Você acha que quando Fernando Pessoa escrevia plantava bananeiras,
botava roupas, fazia muito barulho? Não. Ele escrevia em silêncio. Drummond
escrevia em silêncio. Quando eu digo que essas manifestações são uma questão de
época, não estou censurando, não. Estou tentando colocar isso no devido lugar.
Um dos problemas da chamada sociedade atual e contemporânea é que as pessoas
não têm mais discernimento de estabelecer categorias. Não significa que as
coisas tenham lugar fixo, mas as coisas pertencem a tempos e espaços diversos.
As coisas não se equivalem: A não é igual a B, uma banana não é uma laranja...
Há que estabelecer categorias para entender o sistema. Uma das coisas mais
simbólicas da nossa época diz respeito à famosa Teoria do Caos. A física
descobriu nos anos 70 que o caos não era caótico, o caos tinha uma estrutura.
Um cidadão determinado chegou a fazer uma equação do caos, o caos pode ser
resumido a uma fórmula. Ao se perceber que o caos tem uma estrutura, um certo
sentido, você começa a ver as coisas com mais clareza. O analista, o teórico, o
artista é o indivíduo que tenta entender o caos. Alguns tentam ordenar o caos.
O artista, eu enquanto poeta, ordeno o caos metaforicamente, através de
metáforas. O cientista através de fórmulas. O analista através do texto e do
contexto. O nosso desafio é enfrentar os enigmas, por isso eu fiz esse livro, O
enigma vazio (Rocco, 2008). Há enigmas que são cheios, o enigma de
Édipo era um enigma cheio. Estava lá a Esfinge na entrada da cidade, o Édipo
chegou, como chegaram outras pessoas, a Esfinge fazia uma pergunta. Quem sabia
responder a Esfinge deixava passar, quem não sabia a Esfinge comia. Mas o enigma
tinha um significado. Hoje, em nossa sociedade, têm uns enigmas que não
significam nada. Ou seja, são falsos enigmas, pseudo-enigmas.
Por
exemplo?
Romano
de Sant’Anna. Por exemplo: a nossa sociedade cultua muito a
aparência, a imagem. E a maioria das pessoas é conduzida pela aparência, pela
imagem. O que seria “conteúdo”, interior, estrutura, passa a não ter nenhuma
importância. Não significa que a aparência não tenha nenhuma importância. Mas
já diziam os filósofos, na esteira de Heidegger, por exemplo, que o princípio
mínimo de sabedoria é você entender o jogo entre a aparência e essência. Todas
as coisas que existem aparentam, tem aparência. Mas as coisas são mais do que a
simples aparência que elas têm. A sociedade que nós temos hoje está levando as
pessoas ficarem presas no aspecto, no sentido “aspectual” da coisa. Elas se
sentem confusas, lêem jornais e não entendem o que está acontecendo. É uma
tempestade de informações. Ou seja, ler o mundo não é uma tarefa fácil, não.
O
que você diria para um jovem de 17 anos que o procurasse com o original de um
livro? O que precisa para ser um autor?
Romano
de Sant’Anna. Você sabe que isso até acontece? Volta e meia
aparece um com alguma crônica que escrevi. “Olha eu li essa sua crônica...”
Eles pensam que sou o Manuel Bandeira e tentam reproduzir o ritual. [risos] Eu
diria uma coisa muito simples: Primeiro, se você quer ser escritor, tem que
ler. Se você não for leitor não pode ser escritor. A relação leitor/escritor é
uma relação auto-acumulativa. Borges é um exemplo disso: escritor/leitor.
Machado era um escritor/leitor. Depois, o jovem tem colocar na cabeça o
seguinte: essa é uma relação em longo prazo. Nem todo mundo nasce pronto. Nem
todo mundo é Rimbaud, faz o essencial. A corrida em longo prazo. Eu tive vários
colegas que começaram comigo na literatura e tinham um talento incrível, mas
não deram em nada. Entra outro problema: você tem que se estruturar também
psicologicamente. O Allen Ginsberg tem aquele célebre poema: “Eu vi os melhores
poetas da minha geração se perderem” [“Eu vi os expoentes de minha geração
destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus...”]. É necessário
até um certo discernimento entre esse negócio da aparência e da essência. A
sociedade te chama para um brilho fácil. Se eu quiser tirar a roupa, em Paraty,
vai fazer mais sucesso do que publicar um livro.
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