Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel
> Assista à entrevista exclusiva de Marina Colasanti ao SaraivaConteúdo
"Marina
não queria ser escritora, Marina queria ser artista plástica; era o meu projeto
de vida. Eu nunca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevesse
quando era criança, fazia poema – mas isso todo mundo faz", declara a escritora
e jornalista ítalo-brasileira, que nasceu na Eritréia – então colônia italiana
no norte da África, que se tornou uma província da Etiópia nos anos 1960 até
conseguir a independência, em 1993 – e imigrou para o Brasil ainda criança com
surgimento da II Guerra Mundial.
Como artista
plástica, estudou Belas-Artes e vem realizando desde a década de 1950
exposições, individuais ou coletivas. A arte plástica foi primordial para construção
da trajetória da escritora, que até hoje ilustra as capas dos livros que
escreve, e, na adolescência, viveu no mítico casarão do Parque Lage, no bairro
do Jardim Botânico, Rio de Janeiro, que na época pertencia a sua tia, a famosa
cantora lírica Laura Besonini.
No entanto,
Marina considera o trabalho com as tintas muito diferente do trabalho com as
palavras. "Eu acho que é diferente, muito diferente da escrita. Primeiro
porque tem o prazer físico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar eu trabalho
com óleo. Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você quer
exatamente, aqui, ali, acolá..."
A escritora,
que conta hoje com mais de 40 obras publicadas – entre crônicas, contos, poesia
e literatura infanto-juvenil – também distingue o processo de criação para cada
gênero que exerce na escrita. "O processo de criação é diferente para cada
produto, chamemos produto ao invés de gênero. É diferente o processo de
criação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada."
E o que está
fazendo a escritora que lançou seu primeiro livro, Eu
sozinha, em 1968? "Agora estou fazendo um livro estupendo.
Sabe o que é um livro estupendo? É um livro de poesia para crianças, são
poesias alucinadinhas, muito curtas: ‘Nem de brincadeira fale a queima-roupa
com a passadeira’, ‘Alguém me responda quem colocou na piscina essa anaconda’.
São 80 poeminhas assim. O título é Classificados
e nem tanto", confidencia sem modéstia, e com a certeza que não vai
ilustrar o livro que sai pela Record. "Eu sempre soube que eu não iria ilustrar
esse livro. Fiquei procurando na minha cabeça quem poderia ser. Já no meio
livro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo.”
Você escreve romance, contos, literatura
infanto-juvenil, poesia e crônicas. Como é o trabalho com diferentes gêneros?
Marina
Colasanti. Eu tenho um projeto. Como diz a Luana Piovani, a fila anda. Eu
tenho uma fila de projetos que vou completando, realizando, numa ordem que
pré-estabeleço. Eu não pipoco pra cá e pra lá. Não estou aqui, saio e pinto um
conto infantil, chego em casa e pinto um poema... Não é assim.
O processo de criação é diferente?
Colasanti. O processo de criação
é diferente para cada produto, chamemos produto invés de gênero. É diferente o
processo de criação, sobretudo em relação à poesia e aos contos de fada. Porque
os contos de fada não são um gênero infanto-juvenil, há um equívoco
generalizado em volta disso. O que faz com que um conto seja um conto de fada é
exatamente a sua possibilidade múltipla, infinitas leituras, servindo,
portanto, para qualquer idade. Esse é um dos elementos que constituem o conto
de fada. O conto de fada e a poesia são gêneros que têm outro tipo de
exigência, são bastante próximos, mas ainda assim diferem do resto da produção.
Porque trabalho também com ensaio, trabalhei muitos anos com comportamento,
trabalho com crônica... Se você vai fazer crônica, um pé tem que estar na
realidade, um pé tem que estar no cotidiano, ele está dentro de um veículo de
imprensa. Então, é uma coisa que você tem que manter um link com o que está acontecendo
porque você trabalha com o que está no ar.
A produção de crônicas em jornais influenciou em
seu trabalho literário?
Colasanti. É o contrário. Ou
seja, a minha escrita literária surge da crônica. Eu era cronista do Jornal do Brasil e não era escritora. A
partir da crônica, ou seja, do meu envolvimento com uma escrita que, embora
seja jornalística, é literária – e percebendo que meu interesse era mais
intenso para o lado literário – comecei a escrever o meu primeiro livro. A
partir daí, eu sempre trabalhei a crônica como uma questão muito literária. Mas
não foi o contrário, não sou uma escritora que foi chamada para escrever
crônicas...
Compreendo. Mas pergunto se a produção em jornal
de alguma forma influencia na produção de textos literários.
Colasanti. Não influencia em
nada. Ela constitui um tipo de escrita, de que eu gosto muito, que funciona
sozinha. A crônica funciona com a crônica. Mas ela não influencia...
De maneira nenhuma?
Colasanti. De maneira nenhuma.
Você também é artista plástica. Fale um pouco
sobre esse trabalho.
Colasanti. É muito bom. Eu
lamento ter parado de fazer isso, por falta de mercado. Porque eu gostava...
Durante um tempo interessante eu trabalhei com as duas atividades juntas, eu
tinha um marchand – que vendia para mim, eu não tinha com o que me preocupar.
Eu não posso incluir na minha vida sair com quadro debaixo do braço para
galeria, fazer essa parte. Isso não cabe na minha vida, não cabe no meu
temperamento. Mas pintar é muito bom. É muito desafiante no meio do quadro ter
certeza que perdi o quadro: “Perdi esse quadro! Perdi, perdi...” E aí você vai,
no detalhe, na construção. É um trabalho de construção. Dá aquela pinceladinha
ali e pronto: salvei o quadro. Recuperei, vou recuperar ele todo... Tem um
momento de parar, você diz: “Agora está bom!” Está bom no sentido de “é hora de
parar”, não que esteja. Não sou Michelangelo. Mas é muito bom para alma, para o
corpo e a alma.
É muito diferente do prazer da escrita?
Colasanti. Eu acho que é
diferente da escrita, muito diferente da escrita. Primeiro porque tem o prazer
físico, sensual, que não tem na escrita. Para pintar eu trabalho com óleo.
Fazer um empasto da tinta, casar a construção da cor que você quer exatamente –
aqui, ali, acolá... Eu trabalho com terras, minha paleta é franciscana. Eu
trabalho com terras, um azul e um verde; e acabou... Vermelho, só vermelho de
Veneza, não trabalho com tintas químicas. Nada. Então, é uma coisa milimétrica,
sabe? Tem uma alquimia que se dá muito bem com minha personalidade. Sou uma
pessoa que gosta de cozinhar, que gosta de costurar... Eu gosto dessa coisa de
pegar pequenos elementos que não são nada. Uma cebola sozinha não é nada, né?
Aí você junta o alecrim... Uma terra de Siena sozinha não é nada. Você junta um
vermelho de Veneza, uma terra verde... Pega cores simples e transforma numa
transcendente. É muito bom.
Você ainda faz a ilustração dos seus livros?
Colasanti. As capas dos meus
livro na editora Record o [Victor] Burton criou um tipo de capa, um projeto
fixo, que é feito a partir de quadros meus, que foram fotografados. É uma
linha. Os livros infantis, só eu ilustro. Há exceções, uma delas foi um livro
ilustrado pelas irmãs Drummond. Elas me pediram um conto, escolheram um conto
para fazer um livro. As irmãs Drummond bordam as ilustrações, são bordados que
depois são fotografados. É tão próxima da minha sensibilidade, do que gosto de
fazer, achei ótimo. O livro ficou deslumbrante. E os originais são deliciosos.
O livro ficou lindo! Agora estou fazendo um livro estupendo. Sabe o que é um
livro estupendo? É um livro de poesia para crianças, são poesias alucinadinhas,
muito curtas: “Nem de brincadeira fale a queima-roupa com a passadeira”, “Alguém
me responda quem colocou na piscina essa anaconda”. São 80 poeminhas assim. O
título é Classificados e nem tanto.
Por que tem também “Procura-se e Vende-se”.
Eu sempre soube
que eu não iria ilustrar esse livro. Porque eu não tenho um traço irreverente,
não está em mim fazer um traço irreverente. Se eu fosse forçar a minha mão para
fazer um traço irreverente ficaria uma porcaria, fake. Fiquei procurando na minha cabeça que poderia ser. á no meio
livro eu tinha certeza quem seria meu ilustrador ideal. É Rubem Grillo. O Rubem
é o maior gravador em madeira no Brasil, ele é um gênio da xilogravura. Sempre
amei a gravura dele. Eu não sabia se ele ia querer fazer. Falei com ele: “Olha,
Rubem, você pensa, vou mandar o texto. Não precisa gravar nada, a gente faz uma
seleção suas gravuras para você não ter trabalho”. E ele gravou tudo! Fez mais de cem gravuras,
cada poema uma gravura, interagiu com a tipografia... O título ele gravou letra
por letra no sentimento a imprimerie –
que é a alma da gravura em madeira, da xilogravura. Fez um trabalho tão
deslumbrante. Esse livro vai ser estupendo. E não é por mim, mas pela junção
que permite um objeto livro perfeito, sabe? De junção de uma coisa com a outra.
É tão raro isso. Mesmo quando ilustro não tenho esse resultado. Certamente não
tenho porque não sou tão boa quanto o Rubem Grillo.
Como é avaliar a sua trajetória de escritora?
Colasanti. Marina não queria ser
escritora, Marina queria ser artista plástica – era o meu projeto de vida. Eu
nunca pensei que eu fosse ser escritora. Embora eu escrevesse quando era
criança, fazia poema – mas isso todo mundo faz. Eu não tinha um projeto de
escrita, eu tinha um projeto de arte visual. Tanto que fiz Belas-Artes. Como
era linda aquela faculdade, que agora é a Funarte. Era um deleite, o centro da
cidade era muito bonito. Depois trabalhei no Jornal do Brasil, um prédio histórico que foi derrubado...
A partir do
momento que comecei a escrever eu quis ser escritora. Eu não jogo para a
arquibancada. Por isso vou lhe dar a resposta que você me perguntou. É muito
elegante a pessoa dizer que tem dúvidas e questionamentos sobre sua obra... Eu
adoro. Eu gosto muito do percurso que eu fiz, consigo me surpreender com esse
percurso. De repente eu pego um texto: “Que é isso, Marina, de onde você tirou
essa história?” Consigo me comover. Leio, às vezes, contos meus e me arrepio
inteira. Não acredito em escritor que diz nunca se reler. Não é verdade. Por
uma razão muito simples, você é obrigado a se reler. Porque, de repente, alguém
pede um texto, você tem que reeditar uma coisa, fazer uma coletânea...
Portanto, selecionar o seu trabalho. Eu gosto do que releio. Veja bem, não
estou dizendo que acho que o que eu faço o “Nobel da escrita”. O que eu quero
dizer é que aquilo que eu fiz continua em sintonia comigo. O início é gêmeo, no
sentido da mesma genética, do “quase final”. Porque com 71 anos eu posso dizer “quase
final”. Tudo sai da mesma matriz e é visível isso.
Gosto que seja
assim porque é um atestado de sinceridade, que nenhuma crítica, que nenhuma
análise poderia me dar melhor. É essa genética mantida que me diz da
sinceridade do meu trabalho – isso para mim é muito importante. E, além do
mais, como faço um trabalho aparentemente fragmentado, porque me divido em
muitos gêneros, a coesão é muito importante para mim. Eu só estou fazendo um
trabalho fragmentado para os outros, para mim estou fazendo um trabalho só. É
importante que ele seja coeso, não só do princípio até agora como o conjunto.
Quero que qualquer gênero possa encaixar com cada peça de qualquer outro
gênero. Isso é importante porque sei o que estou fazendo com o todo. Quero que
fique isso no final, um painel muito harmonioso.
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