Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel
> Assista à entrevista exclusiva com Nelson Motta no SaraivaConteúdo
“Seu Nelson Motta deu a nota que hoje o som é rock and roll” João Nogueira
Jornalista, produtor, escritor,
compositor, apresentado de programa de rádio, colunista na TV. Nelson Motta
está háalgumas décadas no cenário cultural brasileiro, sempre presenciando ou
participando ativamente de momentos importantes desde a segunda metade do século
passado. Esteve nas rodas de violão onde a bossa nova era gestada, no hoje
clássico apartamento de Nara e Danuza Leão, produziu Elis Regina, foi grande
amigo de Tim Maia, criou As Frenéticas, descobriu Marisa Monte cantando em um
barzinho em Roma, produziu Fernanda Takai, figura que compara a Nara Leão,
mantém o programa radiofônico “Sintonia Fina”, transmitido em oito estados país
afora. Escreveu e escreve colunas para diversos jornais do país, além dos quatorze
livros publicados, entre contos, romances, crônicas, um sobre o seu time, o
Fluminense, além das memórias musicais, em
Noites
tropicais e da
biografia do irascível Tim Maia, talvez seu melhor trabalho.
Goste-se ou não dele, é fato a sua importância na nossa história musical, tanto
que o grande sambista João Nogueira cita Nelson de maneira bem humorada em “Baile no Elite”, música que homenageia a Gafieira Elite, no centro do Rio
de Janeiro, local por onde passou boa parte da história do samba e da gafieira
cariocas.
No final de 2009, Nelson Motta
lançou novo livro. Força estranha (Suma
das Letras/Objetiva) reúne dez histórias, aparentemente desconexas, mas que nas duas
últimas é possível estabelecer a relação entre elas. O título é inspirado na
canção homônima de Caetano Veloso, imortalizada por Gal Costa e Roberto
Carlos. “As oito primeiras histórias se passam em
lugares diferentes, com personagens e épocas diferentes. Aparentemente, não tem
nada a ver uma com a outra. Porém, na nona história se vê que alguns
personagens têm alguma ligação muito próxima entre eles. E, finalmente, na
última história, se revela o mistério de como todas aquelas histórias,
personagens e locais diferentes estão ligadas, e como tudo aquilo é uma coisa
só”, afirma Motta nessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. Segundo o escritor, “as forças que movem a vida são
muito mais estranhas do que parecem”, e este é o mote dos personagens do livro,
em que cada história se desenrola em cenários e épocas diferentes, como a
orla da Zona Sul do Rio de Janeiro, entre as décadas de 1960 e de 1980, os
terreiros de Salvador, a paradisíaca Boipeba, os quartinhos freqüentados pelos
poderosos em Brasília, Buenos Aires na época da ditadura militar, além de Nova
York, Espanha e a swinging London dos anos 1960.
“Fiquei contente com essa
virada que consegui dar. Foi estranho o jeito que escrevi esse livro, porque
depois do Tim Maia, queria fazer uma ficção, mas como inventar um personagem
melhor que Tim Maia? Mais divertido, mais louco, um personagem maior que o Tim
em todos os sentidos. Impossível”, admite.
Foi aí que partiu para outro
formato, com personagens menores, mas em número maior. “Fiquei um ano sem
escrever nada, foi uma tela em branco total, porque estava com o Tim Maia
encostado em mim, não é mole, 140 quilos. Não conseguia. Em primeiro de janeiro
[de 2009] fui para Salvador, meu segundo lar. Lá rolam forças estranhas, todos
os meus livros escrevo uma boa parte lá. Vou inclusive começar meu próximo livro
lá. E tive um surto de escrita, comecei a escrever tudo o que não havia
conseguido no ano inteiro e fiz muito rapidamente, em um mês e meio escrevi 300
páginas, umas 20 histórias. Depois selecionei as melhores, e foi um trabalho
braçal de edição, finalização, que levou mais, três quatro meses. Gosto de
ficar bordando o texto. Drummond dizia que ‘escrever é cortar palavras’. Eu
sempre me lembro do poeta nessas horas”, conta Motta.
Sobre o pânico da tela em branco,
o escritor afirma que não é uma regra, mas acontece: “Alguns livros foram bem
sofridos e outros, puro prazer. A biografia de Tim Maia, por exemplo, Vale tudo (Objetiva) foi muito
trabalhoso, um livro de 400 páginas, mas foi tão prazeroso escrever, ria tanto
escrevendo sozinho, que teria feito de graça. Agora, esse novo, Força estranha, é a primeira experiência
nesse formato mais compacto. São dez histórias de, mais ou menos, 15 páginas
cada. É mais uma sintonia com textos de internet, coisas mais curtas, mas
histórias completas. Eu não queira fazer um livro de contos só, queria algo a
mais”.
Quem comparece no livro é o
escritor Marçal Aquino, um dos grandes de sua geração, e que atua também como
roteiristas nos filmes de Beto Brant, como Os
matadores, Ação entre amigos e O
invasor. “Talvez seja o meu escritor favorito dessa geração brasileira. Amo
todos os livros dele, especialmente Cabeça
a prêmio, Famílias terrivelmente
felizes, Faroeste. Então eu cito o Marçal nessa última história, ‘Conversas
roubadas’, onde dois escritores em um bar estão ouvindo a conversa na mesa ao
lado e vão roubar aquelas histórias para seus livros. E o Marçal faz isso,
entra em ônibus, fica ouvindo as histórias. Ele adora sala de espera, e não
resiste a uma briga de casal. Se a briga for boa, ele vai atrás na rua.
Homenageei o Marçal nessa história dos ladrões de conversa”, revela Motta.
Sobre as forças estranhas que
seguem o escritor e nomeiam o livro, é algo em que ele crê, mais do que na inspiração.
“Nunca me preocupei quem é que está me dando um recado, uma mãozinha, não me
interesssa, desde que venha, é bem vindo. Muitas vezes tenho essa sensação de
que não estou fazendo aquilo sozinho.” Quando escrevia a biografia de Tim Maia aconteceu
uma situação engraçada. “Tinha acabado de escrever o livro, aqui mesmo, nessa
varanda da minha casa [em Ipanema, no Rio de Janeiro], estava mexendo na
revisão final, quando entrou um passarinho, gordo, desse tamanho. Já achei
estranho, ele mal andava aí na varanda. Fiquei apavorado, tenho gatos em casa,
são vegetarianos, mas... Aí voou e ficou pendurado em cima do quadro, veio,
andou por aqui, abri a porta e ele foi embora. Interpretei como uma aprovação
em pessoa do Tim Maia ao livro”, acredita ele. Aprovado pelo próprio
biografado, era tudo que ele podia querer. E desse livro, mesmo Tim Maia
gostaria, já que Motta vai a fundo nos casos e causos deste que foi um dos
grandes músicos brasileiros, talvez o melhor que conseguiu fazer aqui a soul
music com balanço nativo.
> Leia uma história de Força
estranha, “O pulo
da gata”
> Confira o site oficial de Nelson Motta, “Sintonia Fina”
> Assista à sua
coluna musical no Jornal da Globo
>
Nelson Motta na Saraiva.com.br
> Assista à entrevista exclusiva com Nelson Motta no SaraivaConteúdo