Por Bruno Dorigatti
Arte de Chris Ware
A certa altura, o jovem James, com quase nove anos, vaticina
em seu colchão, embaixo da mesa, enquanto seu pai faz sexo com uma mulher ao
lado: “Por que me dei ao trabalho de viver?”. O trágico na
vida dos Corrigan, porém, estava longe de acabar àquela altura. As situações
trágicas, solitárias, covardes, tristes, tristes, tristes iriam chegar até a
sua vida adulta e aos seus descendentes. Jimmy
Corrigan, o menino mais esperto do mundo é a graphic novel de Chris Ware que traz a vidinha triste e dura da
família, mas foca sobretudo no neto de James acima citado, adulto, e que vive
no final do século XX. Lançada originalmente em 2000 nos Estados Unidos, ela
saiu de forma seriada na revista que o então jovem quadrinista manteve entre
1995 e 2000, a Acme Novelty Library.
Foi com a Acme que Ware se
notabilizou no meio, sendo convidado por Art Spiegelman, autor de Maus (Companhia das Letras, 2005), para
trabalhar na sua consagrada revista Raw.
E foi com Jimmy Corrigan que ele revolucionou as histórias em quadrinhos, fazendo, para
muitos, a coisa mais importante nessa forma de arte criada no século passado.
Aprimorando e sofisticando o romance gráfico criado pelo mestre Will Eisner,
Ware faz um belíssimo – e nada simples – trabalho gráfico, que mistura e
homenageia o design e a publicidade do início do século XX. A narrativa, que
pode se mostrar intrincada no começo da leitura, flui que é uma maravilha logo
que se consegue penetrar no universo e nos códigos que o quadrinista se utiliza
para narrar a história de três gerações dos Corrigan em Chicago, Estados Unidos,
cheia de flashbacks que vão e vêm ao
longo da árvore genealógica da família, focando sobretudo na história de seu
avô ainda criança, quando vivenciou a Feira Mundial de Chicago, em 1893, e no
tempo atual, com o solitário Jimmy, seu emprego ordinário, a mãe controladora
de forma até obsessiva, e suas distrações, como registrar o som dos passarinhos
em um gravador portátil para ouvir em casa. A narrativa mistura ainda sonhos,
devaneios, e imaginações oníricas dos personagens. Muitas vezes, é preciso que
estes sonhos, pesadelos e devaneios cessem para compreendermos do que se trata.
Um caminho nada simples e fácil de atravessar, ao longo de suas 388 páginas,
finalmente lançadas por aqui no final de 2009 pelo Quadrinhos da Cia., novo
selo de HQs da Companhia das Letras. Mas que compensa, enche os olhos e pede
por uma segunda leitura, muito mais proveitosa.
O argumento poderia ser resumido brevemente assim: o
solitário Jimmy, por volta dos 40 anos, recebe uma carta do pai que nunca viu
convidando-o para conhecê-lo em uma cidade no interior do estado de Michigan. O
encontro, como era de se esperar, surte um efeito contrário daquele velho
clichê da aproximação entre entes próximos de sangue, e o resultado é
constrangimento, equívocos e deslizes que tornam impossível uma aproximação
terna e afetiva. Não há desejo e boa intenção que resolva a falta de sintonia,
o deslocamento que essas relações errantes causaram ao longo dos anos.
Jimmy Corrigan, o
romance gráfico, é triste, mas cheio de ternura e raiva, desprezo e vigor
gráfico. Fala de fracassos, de incompreensões, porém, tem seus momentos de
sutileza, tolerância, beleza plástica e lirismo. Os sentimentos que saem das
páginas estão longe de passar pela pena ou sentimento de comiseração mesquinha.
A compaixão que nos invade não tem nada de superior, como se assistíssemos de
fora. Na tragédia humana, estamos todos na primeira fila, e é difícil, para não
dizer impossível, não se identificar com ao menos uma das situações pela qual
passam os Corrigan. Demasiado humano, como diz o chavão.
Chris Ware, por sinal, passou por algo semelhante enquanto
desenvolvia sua história por volta dos 30 anos de idade. O pai que não conhecia
o procurou, talvez motivado pela fama suscitada pela história com fortes tintas
autobiográficas. O encontro foi um fracasso. Daí a ter definido ou redefinido a
narrativa de Jimmy, é algo difícil de afirmar categoricamente. Como afirma Leon
Tolstoi na frase que abre o clássico Anna
Karenina: “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são
infelizes cada uma à sua maneira”.
Premiada desde que foi publicado como romance gráfico, com o American
Book Award e com o The Guardian Prize 2001, Jimmy Corrigan indiscutivelmente levou os quadrinhos para outro patamar, como já haviam feito
antes Will Eisner, Robert Crumb e Art Spiegelman, cada um a sua maneira. E
agora acessível em português. Resta torcer para que outras traduções pintem por
aqui, com menos demora.
> Confira The Acme Novelty Archive, site não-oficial dos trabalhos de Chris Ware
> Chris Ware na Saraiva.com.br
> Assista à uma animação de Chris Ware, Quimby The Mouse
> Veja a capa e duas páginas de Jimmy Corrigan

