Por Bruno Dorigatti
Foto de Divulgação
O bibliófilo, advogado e empresário José Ephim Mindlin faleceu ontem,
domingo, 28 de fevereiro, aos 95 anos em São Paulo, e deixa um legado, um
acervo e um exemplo que talvez nunca mais se repita neste país. Pode descansar
tranquilo agora ao lado de sua amada de toda uma vida, Guita, que havia partido
em 2006. Mas fica, sobretudo, a experiência de uma paixão dedicada aos livros e
tudo aquilo que eles ensinam, revelam e acrescentam à experiência humana.
Mindlin sempre
afirmou que a “manifestação do
acaso geriu os acontecimentos ao longo da vida, sem que tivesse ambicionado ou
procurado”. Modéstia, talvez exagerada, do advogado e empresário que começou no
jornalismo com menos de 16 anos, na redação de O Estado de S. Paulo,
tornando-se o redator mais moço da história do jornal, onde aprendeu a escrever
com clareza e simplicidade e onde também foi conhecendo e se tornando amigo de
alguns importantes nomes da nossa intelectualidade do século XX que por ali
transitavam no período. Casou-se com Guita em 1938 e, o que já se anunciava
como uma árvore frondosa por este período, a biblioteca do casal, logo seria
classificada como uma verdadeira floresta, que passou dos 80 anos de
existência.
Ex-proprietário da Metal Leve. Mindlin freqüentou as aulas na Faculdade
de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, mas aproveitava mesmo era para
ler literatura no fundo da sala, enquanto o professor se demorava nas leituras
dos textos jurídicos, que o então estudante deixava para fazer em casa. “Como
Montaigne, eu tentava uma, duas vezes, senão desistia do texto. Não faço nada
sem alegria. Nos cinco anos de faculdade, li literatura de ficção e biografias.
Aprendi muito mais de literatura do que de direito”, brincou. “Não faço nada
sem alegria”, aliás é a frase que tomou emprestada do francês para o seu
ex-libris.
Mindlin e Guita doaram há cinco anos parte de sua frondosa biblioteca à
Universidade de São Paulo (USP), que está construindo um prédio exclusivamente
para armazenar a coleção chamada Brasiliana, formada pela metade do seu acervo
(cujo total chega aos 60 mil livros) com obras raras, muitos cujos exemplares
são únicos, sobre História do Brasil e literatura brasileira. “A Universidade
de São Paulo está construindo o prédio para recebê-la, e sua perenidade está
assegurada. Vislumbro um crescimento destas fontes para os estudos
brasileiros”, afirmou em agosto de 2007, quando foi homenageado com o título de
Doutor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo (RS), na 12. Jornada
Literária de Passo Fundo. Com a voz embargada e bastante emocionado, concluiu:
“Quando se diz que a comoção dificulta a fala, hoje senti na pele”, disse um
dos mais importantes cidadãos brasileiros, cujo respeito, carinho e amor pelos
livros e tudo o que representam não teve similar até hoje. E dificilmente terá.
Enquanto a Brasiliana não ganha definitivamente a sua sede fixa, outra
iniciativa do projeto segue a todo vapor: a digitalização deste incrível
acervo, que conta com obras raras dos primeiros navegadores a aportar no que
viria a ser conhecido como Brasil, primeiras edições de Machado de Assis, José
de Alencar, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, entre tantos outros, além de manuscritos
de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, para ficarmos com dois dos maiores
escritores brasileiros de meados do século XX.
A seguir,
trechos da entrevista coletiva concedida por Mindlin quando de sua passagem
pela 12. Jornada
Literária de Passo Fundo, em agosto de 2007.
Como
começou essa história de paixão pelos livros?
José Mindlin. Começou
desde a infância, porque eu tive a sorte de crescer num ambiente cultural. Meus
pais gostavam de arte, de leitura, de modo que isso foi acontecendo
insensivelmente. Agora, aos 12 anos, comecei a ler livros chamados “sérios”,
como as obras de Alexandre Heculano, por exemplo. E era muito amigo do meu
irmão, quatro anos mais velho que eu, e então quando ele lia um livro aos 16
anos, eu lia aos 12. E aos 13, comecei a freqüentar os sebos de São Paulo. Aí
não acabou mais.
Depois, ia
ao Rio de Janeiro com certa freqüência, freqüentava os sebos lá, e onde quer
que eu fosse, aqui ou fora do Brasil, sempre procurava nas páginas amarelas
quais eram as livrarias de livros antigos e os sebos. Com isso, a biblioteca
foi crescendo. Mas ela não foi planejada, fui comprando livros que queria ler.
Quando lia um livro de uma autor que tivesse me agradado muito, procurava os
outros livros deste autor. Depois procurava livros sobre esses autores. E a
gente sempre tinha, e até hoje tem, a ilusão de que vou conseguir ler todos os
livros que compro. Mas é uma ilusão, a gente compra muito mais livros do que
consegue ler. Isso acontece comigo e com todos os meus conhecidos, mas, enfim,
outros vão ler esses livros que eu não li. De modo que o importante é conservar
os livros.
O senhor tem também manuscritos de importantes romances da literatura brasileira, como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Poderia falar um pouco sobre eles?
Mindlin.Aí, quando você
começa a estar realmente envolvido com a biblioteca, não há limite para o que
se procura e aquilo que a gente encontra. Nos sebos e nas livrarias antiquárias
mais especializadas, procuramos aquilo que gostaríamos de ter, mas também
descobrimos uma porção de coisas que nem imaginávamos. Chamo isso de
garimpagem. Em matéria de livros antigos, a gente tem grandes surpresas. E o
importante é, primeiro, comhecer, saber o que a gente procura. Não adianta ir
comprando livros a esmo. Se você fizer isso, vai ter uma acumulação de livros,
mas não vai ter uma biblioteca. A biblioteca tem que ter alguns temas
específicos, como literatura, viagens, arte, crítica literária, poesia.
Agora,
acontece assim mesmo de eu encontrar um livro que me atrai muito e que não tem
nenhuma relação com as vertentes. Aí eu também compro, porque o livro é que é
feito para a gente e não a gente feito para o livro. E brinco sempre que a
nossa biblioteca é indisciplinada porque, quando acontece de encontrar um livro
que não está nas vertentes, ou eu simplesmente compro assim mesmo, ou crio uma
nova vertente. [risos] E com isso, a biblioteca foi crescendo em completa,
neste ano [2007], 80 anos de formação. A maior parte deste tempo, em conjunto
com minha mulher, Guita Mindlin, que faleceu no ano passado [2006]. Mas foi uma
grande companheira e também gostava muito de ler, e de livros. De modo que a gente,
muitas vezes, encontrava livros que estavam caros, e iriam, de certo modo,
comprometer o orçamento mensal, mas a gente sempre acabava comprando, e abria
mão de outras coisas. Os livros foram sempre um interesse central de nossa
vida.
E também
toda a parte cultural relacionada, com leitura etc. Por exemplo, a gente tinha
uma grande preocupação com os problemas sociais. No Brasil, há muita
desigualdade que precisa ser eliminada. E um caminho de inclusão social muito
importante é a leitura. A pessoa que lê se integra num ambiente mais amplo,
passa a conhecer os bastidores da sociedade, as realidades políticas. E passa a
reivnidcar também essas mudanças que a gente acha que são importantes. Na hora
em que o Brasil tiver a população lendo, será um país diferente.
Isso
lembra Paulo Freire.
Mindlin.Paulo Freire foi um
grande amigo meu. Fez um grande trabalho, foi um educador de verdade. Agora,
falar em educação como sendo a maior prioridade brasileira – e sempre tenho
defendido essa idéia – sem o livro, não faz sentido. Você nao obtém a educação
sem o livro. De modo que acaba sendo o livro a grande prioridade brasileira.
Com o livro, a criança, o jovem ou o adulto estabelece uma relação pessoal. O
livro fica sendo um amigo da gente, e um amigo que não cria caso. Pode ficar
cinco anos numa prateleira, sem a gente mexer, e quando a gente pega ele está a
disposição, nào reclama. Às vezes, existem ciumeiras dos livros. É uma coisa
engraçada, porque não é algo fisicamente defensável, mas quando fiz uma
exposição no Museu Segall, tive que escolher apenas 100 obras, e foi muito
difícil, pois muitos livros que não estavam neste conjunto mereciam estar. E os
próprios livros, acho que todos eles achavam que deviam estar na exposição. Aí
prometia a eles que estariam nas próximas exposições.
Minha
relação com os livros da biblioteca sempre foi amigável. Porque me coloco na
posição do livro, vejo o que eu sentiria se estivesse na prateleira e o dono da
biblioteca passasse por mim sem me olhar, me pegar. Acharia muito ruim. Então a
gente tem esse cuidado.
Porque os livros têm certa personalidade...
Mindlin.Eu sou cético, mas
às vezes a gente acha que há alguma coisa sobrenatural. Porque a gente procura
o livro e o livro procura a gente. Isso é uma coisa curiosa. Estou dando uma
explicação que, cientificamente, não é defensável. Mas, um livro que eu, por
exemplo, deixei de comprar e depois me arrependi, mas ele já tinha sido
vendido, de modo que tive que me resignar. Mas aí passam anos e eu encontro, em
outra livraria, aquele mesmo exemplar que tinha deixado de comprar. Isso é
estranho, né?
Poderia falar sobre os leilões
internacionais de relíquias literárias e se há algum objeto de desejo que o
senhor gostaria de adquirir para a sua biblioteca.
Mindlin. Bom, sempre existem objetos de
desejos, mas eu também não sou escravo dos livros. De modo que seu eu procuro
um livro,ele está a venda em um leilão e não consigo comprar, eu não perco o
sono por conta disso. Sempre acho “bom, nao foi desta vez, mas em outra
consigo”. A gente tem que ter conhecimento, perseverança e paciência. E confiar
na sorte, porque a sorte existe. Eu tenho histórias sem fim das garimpagens. E
acho até que a garimpagem dá mais prazer do que ter o livro.
Conte alguma história para a gente.
Mindlin.A história da
primeira edição d’ O guarani [de José de Alencar] é interessante. Desta
primeira edição, só se conheciam, 20, 30 anos atrás, dois exemplares. Apesar de
ter sido um dos livros mais lidos do século XIX, desaparecerem os exemplares. A
moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo também. A moreninha e O guarani devem ter sido os livros mais lidos no século XIX. Mas a primeira
edição desapareceu. Durante muitos anos, de A moreninha só se conhecia
um exemplar, que pertencia a um grande colecionador do Rio, João Marinho de
Azevedo, um homem mais velho, que eu respeitava muito. Ele morreu em 1958. Anos
mais tarde, a família me fez presente do exemplar de A moreninha, o
único existente no Brasil. Nem a Biblioteca Nacional (BN) tinha essa primeira
edição. Dez anos depois de receber este exemplar de presente, apareceu no Rio
outro exemplar. Pensei até que fosse lenda, mas exisitiu mesmo e foi comprado
por um bibliófilo de Brasília, Décio Drummond. De O guarani, foi
oferecido um exemplar aos bibliófilos do Rio e eles não compraram, creio que
acharam caro. E eu não soube disso enquanto o vendedor ainda estava no Rio. E
quando soube, procurei encontrar este vendedor, um grego, mas não deixava o
endereço dele, só do Banco Morgan, em Paris. Escrevi, mas nao tive resposta. E
fiquei cismado, “quero ver se consigo este exemplar”.
Um dia,
recebo um catálogo de Londres, com o exemplar da primeira edição d`O guarani.
Mandei um telegrama para um livreiro que conhecia, pedindo para ele comprar. E
estava querendo tanto o livro, que telefonei a ele perguntando quanto que ele
achava que O guarani alcançaria no leilão. E ele me disse: “Ah, acho que
vai ser umas 20 libras”, o que seria um preço ridículo. Mas disse a ele que se
tivesse brasileiros assistindo ao leilão, provavelmente iria a muito mais. Mas
queria que comprasse mesmo assim. No dia do leilão, telefono outra vez para
saber por quanto ele tinha comprado. E ele me disse: “Olha, eu não comprei,
porque quando chegou a 60 libras – e eu tinha falado para você 20 –, achei que
ficaria muito aborrecido”. “Aborrecido eu estou agora”, eu disse. [risos] Mas,
paciência. Aí soube que era o exemplar do grego, que pôs no leilão, e como não
houve lance maior que 60 libras, ele retirou o livro do leilão. Porque o livro
valia, sei lá, 2 mil libras, algo assim.
Depois,
houve um leilão de livros raros sobre o Brasil, em Paris, que havia me
interessado. E quando falo em sorte, acaso... recebo um convite das Air France
para um vôo inaugural non-stop Buenos Aires-Paris. Sopa no mel, né? Fui a Paris
e lá encontrei o dono da Livraria Kosmos, de São Paulo e do Rio, muito amigo
meu. E ele me disse: “Tenho uma surpresa para você: o grego está em Paris e O guarani está comigo. Peguei para ele não fazer negócio com outra pessoa,
então você se entenda com ele, não quero comissão, nem nada”. Eu me entendi com
o grego, foi uma verdadeira epopéia, uma discussão de preços, mas acabei
comprando e fiquei carregando o livro como se fosse no colo.
Quanto
custou esta primeira edição de O guarani ?
Mindlin.Não costumo falar
quanto pago, porque nunca vejo a coisa sob o aspecto material, mas lá eu fiz
uma extravagância, paguei 4 mil dólares. Agora, 4 mil dólares a gente recupera.
E o livro a gente não encontra mais. [risos] Então fiquei, como disse, com o
livro no colo, carregando o tempo todo a pasta onde ele estava. Peguei o avião
da Air France de volta, e ele parava no Rio, onde descemos para pegar outro
para São Paulo. Eu dormi na viagem, estava muito cansado, só abri a pasta no
avião do Rio para São Paulo, e o livro não estava. Devo ter aberto a pasta meio
dormindo e o livro deve ter escorregado. Deixei meu nome e telefone na Air
France, informando o local onde estava sentado. Cheguei em casa, perguntei a
Guita: “Sabe o que eu comprei?” E ela: “Não”. “ O guarani.” “Ah, que
coisa formidável!” “É, mas já perdi...”[risos] E estava resignado. Mas três
dias depois a Air France me telefona dizendo que o livro havia sido encontrado
em Buenos Aires, na limpeza do avião. Então foi o destino, e o livro voltou
para mim.
Qual jovem autor que surpreendeu o senhor nos últimos tempos?
Mindlin.Olha, nos últimos
tempos, eu tenho tido pouco contato, porque eu tenho uma grande prevenção com
os chamados best-sellers. Porque fico na dúvida se estã se vendendo
muito porque é muito bom, ou vendendo muito por causa de técnicas de mercado.
Então prefiro deixar assentar a poeira, passar um, dois anos. Se depois de dois
anos o livro ainda está fazendo sucesso, aí chego a conclusão que tem mesmo
qualidades e vou lê-lo. Sobre os autores novos, estou com um problema, o
departamento de nomes próprios da minha cabeça está avariado. [risos] Não
consegui mecânico que consertasse, e só vou lembrar destes nomes quando
tivermos saído daqui.
O que
fica de uma experiência como a do senhor?
Mindlin.Eu sempre vivi
nesse meio [de livros e escritores], tanto na Faculdade de Direito, como antes,
quando eu trabalhava no Estadão. Fui o redator mais jovem do Estadão,
entrei em maio de 1930 e em setembro fiz 16 anos. Então fui, realmente, o
redator mais moço. E n’ O Estado havia escritores como Oscar Pedroso
Horta, Mauricio Goullart, Antônio de Alcântara Machado, autor de Laranja da
China, ele freqüentava o jornal. Ficamos amigos, ele morreu muito moço, com
34 anos. Mas assim sempre freqüentando livrarias, e lá também ficava conhecendo
escritores, amigos de meus filhos também freqüentavam a nossa casa.
O que
tenho deliberadamente é procurado inocular, na infância e na juventude, o vírus
do amor à infância e ao livro. E ele é incurável, quem é inoculado vai gostar
de livros para o resto da vida.