José Mindlin, 1914-2010   

Por Bruno Dorigatti
Foto de Divulgação



O bibliófilo, advogado e empresário José Ephim Mindlin faleceu ontem, domingo, 28 de fevereiro, aos 95 anos em São Paulo, e deixa um legado, um acervo e um exemplo que talvez nunca mais se repita neste país. Pode descansar tranquilo agora ao lado de sua amada de toda uma vida, Guita, que havia partido em 2006. Mas fica, sobretudo, a experiência de uma paixão dedicada aos livros e tudo aquilo que eles ensinam, revelam e acrescentam à experiência humana.

Mindlin sempre afirmou que a “manifestação do acaso geriu os acontecimentos ao longo da vida, sem que tivesse ambicionado ou procurado”. Modéstia, talvez exagerada, do advogado e empresário que começou no jornalismo com menos de 16 anos, na redação de O Estado de S. Paulo, tornando-se o redator mais moço da história do jornal, onde aprendeu a escrever com clareza e simplicidade e onde também foi conhecendo e se tornando amigo de alguns importantes nomes da nossa intelectualidade do século XX que por ali transitavam no período. Casou-se com Guita em 1938 e, o que já se anunciava como uma árvore frondosa por este período, a biblioteca do casal, logo seria classificada como uma verdadeira floresta, que passou dos 80 anos de existência. 

Ex-proprietário da Metal Leve. Mindlin freqüentou as aulas na Faculdade de Direito no Largo São Francisco, em São Paulo, mas aproveitava mesmo era para ler literatura no fundo da sala, enquanto o professor se demorava nas leituras dos textos jurídicos, que o então estudante deixava para fazer em casa. “Como Montaigne, eu tentava uma, duas vezes, senão desistia do texto. Não faço nada sem alegria. Nos cinco anos de faculdade, li literatura de ficção e biografias. Aprendi muito mais de literatura do que de direito”, brincou. “Não faço nada sem alegria”, aliás é a frase que tomou emprestada do francês para o seu ex-libris. 

Mindlin e Guita doaram há cinco anos parte de sua frondosa biblioteca à Universidade de São Paulo (USP), que está construindo um prédio exclusivamente para armazenar a coleção chamada Brasiliana, formada pela metade do seu acervo (cujo total chega aos 60 mil livros) com obras raras, muitos cujos exemplares são únicos, sobre História do Brasil e literatura brasileira. “A Universidade de São Paulo está construindo o prédio para recebê-la, e sua perenidade está assegurada. Vislumbro um crescimento destas fontes para os estudos brasileiros”, afirmou em agosto de 2007, quando foi homenageado com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Passo Fundo (RS), na 12. Jornada Literária de Passo Fundo. Com a voz embargada e bastante emocionado, concluiu: “Quando se diz que a comoção dificulta a fala, hoje senti na pele”, disse um dos mais importantes cidadãos brasileiros, cujo respeito, carinho e amor pelos livros e tudo o que representam não teve similar até hoje. E dificilmente terá. Enquanto a Brasiliana não ganha definitivamente a sua sede fixa, outra iniciativa do projeto segue a todo vapor: a digitalização deste incrível acervo, que conta com obras raras dos primeiros navegadores a aportar no que viria a ser conhecido como Brasil, primeiras edições de Machado de Assis, José de Alencar, Cruz e Sousa, Olavo Bilac, entre tantos outros, além de manuscritos de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos, para ficarmos com dois dos maiores escritores brasileiros de meados do século XX. 

A seguir, trechos da entrevista coletiva concedida por Mindlin quando de sua passagem pela 12. Jornada Literária de Passo Fundo, em agosto de 2007.

 

Como começou essa história de paixão pelos livros?

José Mindlin.
Começou desde a infância, porque eu tive a sorte de crescer num ambiente cultural. Meus pais gostavam de arte, de leitura, de modo que isso foi acontecendo insensivelmente. Agora, aos 12 anos, comecei a ler livros chamados “sérios”, como as obras de Alexandre Heculano, por exemplo. E era muito amigo do meu irmão, quatro anos mais velho que eu, e então quando ele lia um livro aos 16 anos, eu lia aos 12. E aos 13, comecei a freqüentar os sebos de São Paulo. Aí não acabou mais. 

Depois, ia ao Rio de Janeiro com certa freqüência, freqüentava os sebos lá, e onde quer que eu fosse, aqui ou fora do Brasil, sempre procurava nas páginas amarelas quais eram as livrarias de livros antigos e os sebos. Com isso, a biblioteca foi crescendo. Mas ela não foi planejada, fui comprando livros que queria ler. Quando lia um livro de uma autor que tivesse me agradado muito, procurava os outros livros deste autor. Depois procurava livros sobre esses autores. E a gente sempre tinha, e até hoje tem, a ilusão de que vou conseguir ler todos os livros que compro. Mas é uma ilusão, a gente compra muito mais livros do que consegue ler. Isso acontece comigo e com todos os meus conhecidos, mas, enfim, outros vão ler esses livros que eu não li. De modo que o importante é conservar os livros.

O senhor tem também manuscritos de importantes romances da literatura brasileira, como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos. Poderia falar um pouco sobre eles?

Mindlin.Aí, quando você começa a estar realmente envolvido com a biblioteca, não há limite para o que se procura e aquilo que a gente encontra. Nos sebos e nas livrarias antiquárias mais especializadas, procuramos aquilo que gostaríamos de ter, mas também descobrimos uma porção de coisas que nem imaginávamos. Chamo isso de garimpagem. Em matéria de livros antigos, a gente tem grandes surpresas. E o importante é, primeiro, comhecer, saber o que a gente procura. Não adianta ir comprando livros a esmo. Se você fizer isso, vai ter uma acumulação de livros, mas não vai ter uma biblioteca. A biblioteca tem que ter alguns temas específicos, como literatura, viagens, arte, crítica literária, poesia. 

Agora, acontece assim mesmo de eu encontrar um livro que me atrai muito e que não tem nenhuma relação com as vertentes. Aí eu também compro, porque o livro é que é feito para a gente e não a gente feito para o livro. E brinco sempre que a nossa biblioteca é indisciplinada porque, quando acontece de encontrar um livro que não está nas vertentes, ou eu simplesmente compro assim mesmo, ou crio uma nova vertente. [risos] E com isso, a biblioteca foi crescendo em completa, neste ano [2007], 80 anos de formação. A maior parte deste tempo, em conjunto com minha mulher, Guita Mindlin, que faleceu no ano passado [2006]. Mas foi uma grande companheira e também gostava muito de ler, e de livros. De modo que a gente, muitas vezes, encontrava livros que estavam caros, e iriam, de certo modo, comprometer o orçamento mensal, mas a gente sempre acabava comprando, e abria mão de outras coisas. Os livros foram sempre um interesse central de nossa vida. 

E também toda a parte cultural relacionada, com leitura etc. Por exemplo, a gente tinha uma grande preocupação com os problemas sociais. No Brasil, há muita desigualdade que precisa ser eliminada. E um caminho de inclusão social muito importante é a leitura. A pessoa que lê se integra num ambiente mais amplo, passa a conhecer os bastidores da sociedade, as realidades políticas. E passa a reivnidcar também essas mudanças que a gente acha que são importantes. Na hora em que o Brasil tiver a população lendo, será um país diferente. 

Isso lembra Paulo Freire. 

Mindlin.Paulo Freire foi um grande amigo meu. Fez um grande trabalho, foi um educador de verdade. Agora, falar em educação como sendo a maior prioridade brasileira – e sempre tenho defendido essa idéia – sem o livro, não faz sentido. Você nao obtém a educação sem o livro. De modo que acaba sendo o livro a grande prioridade brasileira. Com o livro, a criança, o jovem ou o adulto estabelece uma relação pessoal. O livro fica sendo um amigo da gente, e um amigo que não cria caso. Pode ficar cinco anos numa prateleira, sem a gente mexer, e quando a gente pega ele está a disposição, nào reclama. Às vezes, existem ciumeiras dos livros. É uma coisa engraçada, porque não é algo fisicamente defensável, mas quando fiz uma exposição no Museu Segall, tive que escolher apenas 100 obras, e foi muito difícil, pois muitos livros que não estavam neste conjunto mereciam estar. E os próprios livros, acho que todos eles achavam que deviam estar na exposição. Aí prometia a eles que estariam nas próximas exposições. 

Minha relação com os livros da biblioteca sempre foi amigável. Porque me coloco na posição do livro, vejo o que eu sentiria se estivesse na prateleira e o dono da biblioteca passasse por mim sem me olhar, me pegar. Acharia muito ruim. Então a gente tem esse cuidado. 

Porque os livros têm certa personalidade...

Mindlin.Eu sou cético, mas às vezes a gente acha que há alguma coisa sobrenatural. Porque a gente procura o livro e o livro procura a gente. Isso é uma coisa curiosa. Estou dando uma explicação que, cientificamente, não é defensável. Mas, um livro que eu, por exemplo, deixei de comprar e depois me arrependi, mas ele já tinha sido vendido, de modo que tive que me resignar. Mas aí passam anos e eu encontro, em outra livraria, aquele mesmo exemplar que tinha deixado de comprar. Isso é estranho, né? 

Poderia falar sobre os leilões internacionais de relíquias literárias e se há algum objeto de desejo que o senhor gostaria de adquirir para a sua biblioteca. 

Mindlin. Bom, sempre existem objetos de desejos, mas eu também não sou escravo dos livros. De modo que seu eu procuro um livro,ele está a venda em um leilão e não consigo comprar, eu não perco o sono por conta disso. Sempre acho “bom, nao foi desta vez, mas em outra consigo”. A gente tem que ter conhecimento, perseverança e paciência. E confiar na sorte, porque a sorte existe. Eu tenho histórias sem fim das garimpagens. E acho até que a garimpagem dá mais prazer do que ter o livro. 

Conte alguma história para a gente. 

Mindlin.A história da primeira edição d’ O guarani [de José de Alencar] é interessante. Desta primeira edição, só se conheciam, 20, 30 anos atrás, dois exemplares. Apesar de ter sido um dos livros mais lidos do século XIX, desaparecerem os exemplares. A moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo também. A moreninha O guarani devem ter sido os livros mais lidos no século XIX. Mas a primeira edição desapareceu. Durante muitos anos, de A moreninha só se conhecia um exemplar, que pertencia a um grande colecionador do Rio, João Marinho de Azevedo, um homem mais velho, que eu respeitava muito. Ele morreu em 1958. Anos mais tarde, a família me fez presente do exemplar de A moreninha, o único existente no Brasil. Nem a Biblioteca Nacional (BN) tinha essa primeira edição. Dez anos depois de receber este exemplar de presente, apareceu no Rio outro exemplar. Pensei até que fosse lenda, mas exisitiu mesmo e foi comprado por um bibliófilo de Brasília, Décio Drummond. De O guarani, foi oferecido um exemplar aos bibliófilos do Rio e eles não compraram, creio que acharam caro. E eu não soube disso enquanto o vendedor ainda estava no Rio. E quando soube, procurei encontrar este vendedor, um grego, mas não deixava o endereço dele, só do Banco Morgan, em Paris. Escrevi, mas nao tive resposta. E fiquei cismado, “quero ver se consigo este exemplar”. 

Um dia, recebo um catálogo de Londres, com o exemplar da primeira edição d`O guarani. Mandei um telegrama para um livreiro que conhecia, pedindo para ele comprar. E estava querendo tanto o livro, que telefonei a ele perguntando quanto que ele achava que O guarani alcançaria no leilão. E ele me disse: “Ah, acho que vai ser umas 20 libras”, o que seria um preço ridículo. Mas disse a ele que se tivesse brasileiros assistindo ao leilão, provavelmente iria a muito mais. Mas queria que comprasse mesmo assim. No dia do leilão, telefono outra vez para saber por quanto ele tinha comprado. E ele me disse: “Olha, eu não comprei, porque quando chegou a 60 libras – e eu tinha falado para você 20 –, achei que ficaria muito aborrecido”. “Aborrecido eu estou agora”, eu disse. [risos] Mas, paciência. Aí soube que era o exemplar do grego, que pôs no leilão, e como não houve lance maior que 60 libras, ele retirou o livro do leilão. Porque o livro valia, sei lá, 2 mil libras, algo assim. 

Depois, houve um leilão de livros raros sobre o Brasil, em Paris, que havia me interessado. E quando falo em sorte, acaso... recebo um convite das Air France para um vôo inaugural non-stop Buenos Aires-Paris. Sopa no mel, né? Fui a Paris e lá encontrei o dono da Livraria Kosmos, de São Paulo e do Rio, muito amigo meu. E ele me disse: “Tenho uma surpresa para você: o grego está em Paris e O guarani está comigo. Peguei para ele não fazer negócio com outra pessoa, então você se entenda com ele, não quero comissão, nem nada”. Eu me entendi com o grego, foi uma verdadeira epopéia, uma discussão de preços, mas acabei comprando e fiquei carregando o livro como se fosse no colo. 

Quanto custou esta primeira edição de O guarani ? 

Mindlin.Não costumo falar quanto pago, porque nunca vejo a coisa sob o aspecto material, mas lá eu fiz uma extravagância, paguei 4 mil dólares. Agora, 4 mil dólares a gente recupera. E o livro a gente não encontra mais. [risos] Então fiquei, como disse, com o livro no colo, carregando o tempo todo a pasta onde ele estava. Peguei o avião da Air France de volta, e ele parava no Rio, onde descemos para pegar outro para São Paulo. Eu dormi na viagem, estava muito cansado, só abri a pasta no avião do Rio para São Paulo, e o livro não estava. Devo ter aberto a pasta meio dormindo e o livro deve ter escorregado. Deixei meu nome e telefone na Air France, informando o local onde estava sentado. Cheguei em casa, perguntei a Guita: “Sabe o que eu comprei?” E ela: “Não”. “ O guarani.” “Ah, que coisa formidável!” “É, mas já perdi...”[risos] E estava resignado. Mas três dias depois a Air France me telefona dizendo que o livro havia sido encontrado em Buenos Aires, na limpeza do avião. Então foi o destino, e o livro voltou para mim.

Qual jovem autor que surpreendeu o senhor nos últimos tempos?

Mindlin.Olha, nos últimos tempos, eu tenho tido pouco contato, porque eu tenho uma grande prevenção com os chamados best-sellers. Porque fico na dúvida se estã se vendendo muito porque é muito bom, ou vendendo muito por causa de técnicas de mercado. Então prefiro deixar assentar a poeira, passar um, dois anos. Se depois de dois anos o livro ainda está fazendo sucesso, aí chego a conclusão que tem mesmo qualidades e vou lê-lo. Sobre os autores novos, estou com um problema, o departamento de nomes próprios da minha cabeça está avariado. [risos] Não consegui mecânico que consertasse, e só vou lembrar destes nomes quando tivermos saído daqui. 

O que fica de uma experiência como a do senhor? 

Mindlin.Eu sempre vivi nesse meio [de livros e escritores], tanto na Faculdade de Direito, como antes, quando eu trabalhava no Estadão. Fui o redator mais jovem do Estadão, entrei em maio de 1930 e em setembro fiz 16 anos. Então fui, realmente, o redator mais moço. E n’ O Estado havia escritores como Oscar Pedroso Horta, Mauricio Goullart, Antônio de Alcântara Machado, autor de Laranja da China, ele freqüentava o jornal. Ficamos amigos, ele morreu muito moço, com 34 anos. Mas assim sempre freqüentando livrarias, e lá também ficava conhecendo escritores, amigos de meus filhos também freqüentavam a nossa casa. 

O que tenho deliberadamente é procurado inocular, na infância e na juventude, o vírus do amor à infância e ao livro. E ele é incurável, quem é inoculado vai gostar de livros para o resto da vida.