E já se vão 15 anos, desde que Pernambuco, mais
especificamente Recife e Olinda, começou a mudar o eixo da música e da cultura brasileira.
Desde então, ano após ano, surgem no estado algumas das melhores bandas e músicos que o
país tem visto, como Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Eddie, DJ Dolores, Cordel do Fogo Encantado, Junio Barreto, Otto, Erasto Vasconcellos, Comadre Fulozinha, Mombojó, Academia da Berlinda, Del Rey, além de nomes mais recentes como Karina Buhr, Lulina, Isaar, o pianista Vitor Araújo e A Banda de Joseph Tourton.
O começo – aqueles que curtem música sabem – se deu entre a
Soparia de Rogê, a Oficina Mecânica, a Galeria Joana d´Arc, Adilia´s Place, entre outras bodegas do Recife antigo, e teve em Chico Science e Fred 04 seus
primeiros articuladores. Chico se foi de maneira trágica, em 1997, deixou
apenas dois álbuns com a Nação Zumbi – Da lama ao caos (1994) e Afrociberdelia (1996) –, mas
ajudou a modificar a cultura pop no Brasil, o que não é pouco, sobretudo se
levarmos em conta o cenário de marasmo que começou a década de 1990,
ressaqueada com o chamado BRock. Novos tempos estavam começando, sendo abertos
com a hoje clássica metáfora da parabólica enfiada na lama, prenúncio ainda que
não intencional da sociedade conectada em rede em que hoje vivemos. O resto é
história, e Chico, infelizmente, não está aí para contá-la à sua maneira e, sobretudo,
vivenciá-la e curti-la com todo seu potencial.
“Inquietude é uma palavra que define bem o Chico. Ele era
substanciado naturalmente”, diz sua irmã Goretti, alguns anos mais velha que
ele, e com quem o mangueboy dividia o apartamento quando ocorreu o fatídico
acidente de carro durante o carnaval de 1997. Ela ajudou na curadoria coletiva
da Ocupação Chico Science,
em cartaz no Itaú Cultural até 4 de abril. Criada com o objetivo de fomentar o
diálogo de artistas com os lugares, as obras, os objetos e as pessoas que a
influenciaram, a Ocupação já homenageou os artistas Abraham Palatnik e Nelson
Leirner, além do dramaturgo Zé Celso Martinez Correa e o poeta Paulo Leminski. O próximo a ganhar o espaço térreo do Itaú Cultural é o cineasta Rogério Sganzerla.
A intenção foi trazer algo que não fosse óbvio quando se
fala em Chico Science e no movimento mangue, importantes oxigenadores da cena
cultural pernambucana e brasileira. “Pesquisamos em dois arquivos importantes,
o da família e de Paulo André [produtor da banda e idealizador do Abril Pro
Rock, festival que este ano chega a sua 18. edição]. Paulo tinha obsessão por
guardar tudo”, conta Ana de Fátima Sousa, gerente de comunicação do Itaú
Cultural. Pernambucana e jornalista, ela também pesquisa e registra a cena
mangue desde a sua origem. Para a curadoria coletiva, Ana e Edson Natale,
gerente do Núcleo de Música do Itaú Cultural, convidaram, além da irmã de Chico e de Paulo André, Rogê,
amigo da turma da cena mangue, Jorge du Peixe, DJ Dolores e Morales,
respectivamente Helder Aragão e o roteirista Hilton Lacerda, responsáveis pela
história em quadrinhos que aparece no álbum Da lama ao caos, além de dirigirem os primeiros clipes da cena mangue.
A Ocupação reúne material inédito e precioso. Cadernos e agendas com idéias, notas, letras
de música, esboços, textos confessionais, como imaginava as suas músicas, pessoas
com quem queria trabalhar, como Siba e os Beastie Boys, a sua onda mais bossa
nova, que estava curtindo bastante na época em que partiu. “Chico ouvia Billie
Holiday pela manhã. Estava começando a dedilhar o violão. E muito interessado
em bossa nova, ouvindo os discos dos irmãos mais velhos, de Elis Regina, entre
outros. Estava mais preocupado com a voz, tinha parado de fumar, começado a
correr, muito feliz com a namorada”, recorda Goretti, que hoje mora no Rio de
Janeiro. Por essa época, compôs sua última música, gravada por Lenine em seu trabalho mais recente, Labiata. "Samba e leveza" diz assim em seu começo: "Foi na leveza/ Só sentimento/ E me entregou suas palavras/ Como quem dava um pedaço/ Delicadeza foi/ Disse ao meu coração/ E ela me deu a intenção/ Do samba que eu não fiz".
Além dos cadernos, chapéus, dezenas de óculos, roupas, CDs,
fitas cassete personalizadas, fotos, muitas fotos, algumas delas inéditas, de
fotógrafos que registravam a cena, como Fred Jordão [algumas ilustram essa página], cartazes de dezenas de
shows realizados pela banda, trechos de shows históricos, como a apresentação
no primeiro Abril Pro Rock, em 1993, o documentário sobre a primeira turnê no
exterior, em 1995.
Outra figura importante para o mangue bit, Josué de
Castro, comparece com trechos de seus livros. Médico, cientista social, escritor e professor, Castro foi um dos grandes
pensadores brasileiros do século passado, um tanto esquecido hoje em dia. Sua Geografia da fome (Civilização Brasileira, 2001), de 1946, é um estudo preciso das carências alimentares
que grassaram (e ainda grassam...) o país, sobretudo em suas regiões mais pobres, em especial no Norte
e Nordeste. Já a novela Homens e caranguejos (Civilização Brasileira, 2001),
de 1967, serviu de mote para a estética e idéias de Chico e Fred 04. O povo que
vive nos mangues, em cima e em torno deles, e dele tira seu sustento e
alimento dos caranguejos, acaba por se mimetizar com os crustáceos. Escreveu
Josué: “[...] a lama misturada com urina, excremento e outros resíduos que a
maré traz, quando ainda não é caranguejo, vai ser. O caranguejo nasce nela e
vive nela. E o homem que aí vive se alimenta dessa lama em forma do caranguejo”.
É o homem caranguejo, e Science inclusive cita o médico nominalmente na música
que intitula seu primeiro trabalho, “Da lama ao caos”: “Oh Josué, eu
nunca vi tamanha desgraça / Quanto mais
miséria tem, mais urubu ameaça”.
O espaço no térreo do prédio do Itaú Cultural, nem tão
grande assim, conseguiu reunir e condensar boa parte dessa história tão
importante para a cultura brasileira recente. Até uma réplica do famoso Landau
de Chico adentrou a instituição, e seu porta-malas serve de tela para a
exibição constante do material audiovisual, em um espaço que homenageia a
Soparia de Rogê. Além disso, há uma pequena mostra de artistas visuais
contemporâneos e influenciados pela cena mangue. Por fim, como já havia feito
nas demais ocupações, o IC disponibiliza em seu site muito material
audiovisual, com a íntegra de entrevistas e depoimentos da família, dos amigos
e o pessoal das bandas, recolhidos especialmente para a exposição, além de
exibir material raro, como o acima mencionado show no Abril Pro Rock.
Filmes, documentários, bate-papo
No final de março e começo de abril, também serão exibidos
filmes, documentários e clipes produzidos em Pernambuco de meados dos anos 1990
para cá, e que, de certa maneira, integram a cena mangue, já que feitos por
comparsas, além de contarem com os seus principais nomes nas trilhas sonoras. A
mostra Mangue no Cinema exibe, entre outros filmes, Baile perfumado, de Paulo Caldas e Lírio Ferreira, que cria um making of das filmagens realizadas por
Benjamin Abrahão com o bando de Lampião em plena caatinga nordestina, e é um dos
mais instigantes retratos do cangaço no cinema nacional, importante ponto de
convergência entre o cinema pernambucano e o movimento mangue. O longa de
estréia de Cláudio Assis, Amarelo manga,
é outro filme presente na mostra, que tem ainda: A perna
cabiluda, curta documental, feito em 1997 por Marcelo Gomes, Beto Normal,
Gil Vicente e João Vieira de Melo Veira Júnior e com a participação de Chico
Science, Fred Zeroquatro e Danuza Leão; Um
passo à frente e você não está mais no mesmo lugar, documentário de Cláudio
Assis; o longa documental de Paulo Caldas e Marcelo Luna, O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas, que aborda as
vidas de Helinho, justiceiro, 21 anos, conhecido como ”pequeno príncipe” e acusado
de matar 65 bandidos de bairros da periferia recifense, e Garnizé, músico, 26
anos, componente da banda de rap Faces do Subúrbio, militante político e líder
comunitário em Camaragide, usa a cultura para enfrentar a difícil sobrevivência
na periferia; e Josué de Castro – Cidadão
do mundo, de Silvio Tendler, aborda a vida do geógrafo, autor de referência para o mangue bit. Além disso, shows do Mundo Livre S/A e
convidados, Karina Buhr, integrante do Comadre Fulozinha, e o coletivo Instituto
completam a programação (Confira no site da instituição).
Ao reavivar, depois de 13 anos, a memória, a história, o
trabalho, os desejos e gostos do irmão, Goretti pensa em continuar, de alguma
maneira, com esse esforço. “Temos que levar isso adiante, fazer com que outras
pessoas possam conhecer mais sobre Chico e seu trabalho. Seria muito egoísmo
trancar e guardar isso após o fim da exposição”, disse ela. Seus pais estão de
mudança e na casa nova em Recife terá um quarto maior para guardar a
memorabilia de Francisco de Assis França. Mas Chico merece o mundo. Por ora, a
exibição da Ocupação Chico Science não tem perspectiva de acontecer em outro
lugar. Mas deveria. Talvez assim cumpra o papel de recordar a importância de
Chico Science e, mais, fazer com que seu legado tenha a importância que merece.
> Confira a Ocupação Chico Science
> Veja também os sites dedicados ao músico: Memorial Chico Science, espaço criado pela Prefeitura de Recife; e o site especial do Jornal do Comércio
> Nação Zumbi, site oficial e MySpace
> Mundo Livre S/A, site oficial e MySpace
> Assista no Porta Curtas à três dos filmes presentes na Mostra Mangue no Cinema
# A perna cabiluda
# O mundo é uma cabeça
# Maracatu, maracatus
> Chico Science & Nação Zumbi na Saraiva.com.br
> Nação Zumbi na Saraiva.com.br
> Mundo Livre S/A na Saraiva.com.br
> Abaixo, duas páginas da agenda de Chico Science quando gravava seu segundo álbum, Afrociberdelia



> Um pouco mais de Chico Science em ação
> Abaixo, Chico no Abril Pro Rock de 1994 (Foto de Fred Jordão); sem data, mas que remete aos tempos pré-Nação Zumbi (em foto de Maria F. Moreno); no estúdio, em 1993 (Fred Jordão); e novamente em 1993, no estúdio, para o primeiro disco, Da lama ao caos (Fred Jordão)



