Por Joana CoccarelliDe uma elegância ímpar as páginas dedicadas a Yoko Ono no capítulo dezenove de
John Lennon (Companhia das Letras, 2009), a mais recente biografia do mito escrita pelo britânico Philip Norman. Buscando esclarecer ainda melhor a essência de Lennon, Norman precisou fazer justiça à comumente considerada ardilosa Yoko, freqüentemente apontada como o pivô da separação da maior banda de rock da história. Que engano. É curioso que os beatlemaníacos não conheçam os principais motivos que levaram à desintegração dos Fab Four, disparada com a trágica morte de Brian Epstein; agravada com a saída temporária de Ringo Starr ao final das gravações do White Album; a insatisfação de George Harrison com sua posição secundária na banda; e a progressiva individualização das composições, que levou ao isolamento dos músicos entre si.
O estigma de Yoko é muito mais abrangente do que a real antipatia de Paul, George e Ringo por sua permanente presença no estúdio, reflexo de um relacionamento de co-dependência com Lennon (que assim permaneceu até o último dia). É preciso entender melhor o lugar e o tempo em que os holofotes se voltaram para ela. Em primeiro lugar, sendo japonesa, era automaticamente tratada como persona non grata: na América e Europa, em específico na Inglaterra, o ódio contra o Japão era lugar comum desde o final da Segunda Guerra. Além disso, a opinião pública simplesmente não conseguia compreender como John poderia se divorciar de sua primeira mulher, Cynthia – alta, loura, bonita, querida por todos – para ficar com uma asiática baixinha, descabelada, de modos estranhos, sempre em trajes negros. Ele tinha que estar louco.
Mas o fato é que a genialidade de Lennon teria se limitado ao âmbito da música se Yoko não tivesse surgido. Ela não era um caça-níqueis, uma vez que sua própria família – dona do poderoso banco Yokohama – possuía uma fortuna incomparavelmente maior do que a de qualquer astro de rock. Descendia de imperadores e desde muito pequena teve uma rigorosa formação artística, a exemplo de diversos de seus familiares. Até os 19 anos alternou endereços entre o Oriente e o Ocidente. No final dos anos 50, decidiu estudar Belas Artes em Nova York; no início dos 1960, já brilhava intensamente no círculo vanguardista antiarte Fluxus, ombro a ombro com gênios como John Cage, Joseph Beys e Nam June Paik.
A paixão de Yoko pelo happening – performance, evento ou situação de cunho artístico que freqüentemente envolve a interação com o público – explica alguns marcos da vida de John Lennon, desde seu casamento dentro de um embrulho branco, o bagism; o bed-in pela paz na Holanda e Canadá, quando o casal recebeu jornalistas de toda parte para advogar em favor da paz; os cartazes “War is Over (IF You Want It)” espalhados em outdoors pelos Estados Unidos; até músicas que simplesmente não existiriam sem influência de Ono, tais como “Mother”, “Watching the Weels”, “Woman” e “Imagine”.
Imaginação, aliás, era do que brincava Yoko quando seus irmãos não estavam por perto durante a infância. Coincidência ou não, foi de forma semelhante que soube, desde o primeiro encontro com John, que ambos tinham muito o que viver juntos. Em
John Lennon ela fala sobre a primeira vez em que se encontraram. Yoko arrumava algumas de suas peças na galeria Indica, em Londres, para um vernissage, quando Lennon surgiu com John Dunbar, o dono do lugar. Ele viu um pedaço de madeira com pregos ao lado e um cartão com os dizeres, “pregue um prego”. Lennon prossegue:
Eu perguntei: “posso pregar um prego?”. Ela [Yoko] disse que não porque a mostra só abriria mesmo no dia seguinte. Então Dunbar diz: “Deixa ele colocar um prego”. Era como se dissesse: “É um milionário. Talvez até compre a peça”. Mas ela está mais interessada em ver tudo em ordem e bonitinho para a abertura da exposição... Depois de debaterem um pouco ela disse: “Está bem, você pode pregar um prego por cinco xelins”, e então o sabichão aqui diz: “Escute, vou lhe dar cinco xelins imaginários e pregar um prego imaginário”.
Também na vida doméstica Yoko ejetou Lennon para décadas adiante. Com Sean, o filho que tiveram juntos, Lennon se livrou do padrão do pai ausente que tivera – e repetira com Julian, seu primogênito com Cynthia – para ser a figura principal dos primeiros anos de vida do caçula, a ponto de deixar a música em segundo plano.
Desde o assassinato de Lennon, em 1980, Yoko nunca mais se casou. Mas continua mais ativa do que nunca, tanto no âmbito das artes visuais e música quanto na militância pela paz e na manutenção da memória do marido. Um de seus últimos movimentos foi a exposição dos desenhos dele, culminando com uma exibição no hotel Hilton de Amsterdam, onde foi realizado o primeiro bed-in do casal. Quando age pela paz – como arranjar para que um sino de igreja seja tocado numa determinada cidade do mundo, ou criar uma camiseta beneficente para aidéticos – nunca assina sozinha, pois acredita que não está. Aonde quer que rabisque o próprio nome, haverá o de John na frente.
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