Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel > Veja a entrevista exclusiva ao
SaraivaConteúdo:
Carreira | Samba Paulinho Bicolor vai digitalizar todas as fitas cassetes que Beth Carvalho já recebeu um dia, com composições e canções de sambistas. Estima-se que sejam milhares, já que Beth, desde 1965, quando gravou seu primeiro compacto e começou a despontar como a grande intérprete que é, vem recebendo e guardando os cassetes. Deve ter muita coisa da turma do Cacique de Ramos, por exemplo, que ela ajudou a revelar, como Zeca Pagodinho, Almir Guineto, Sombra, Sombrinha, Arlindo Cruz, Luis Carlos da Vila e Jorge Aragão.
Sem falar no primoroso trabalho que foi tirar do ostracismo e gravar gente do naipe de Nelson Cavaquinho ou Cartola. Com o primeiro, foi buscá-lo para gravar "Folhas secas", em 1972. Já com o segundo, descobriu "As rosas não falam", em 1975. Só isto bastaria para que se nome figurasse entre as nossas grandes damas do samba. Mas ela fez mais, muito mais.
Antes, gravou
Canto por um novo dia (1973),
Pra seu governo (1974) e
Pandeiro e viola (1975), "trilogia seminal na qual a intérprete já expressou sua opção definitiva pelo samba. Mas foi a partir de seu ingresso na RCA que seus discos popularizaram sua voz em todo o Brasil e sedimentaram sua carreira", afirma
Mauro Ferreira no blog aqui do SaraivaConteúdo.
Ele se refere aos álbuns Mundo melhor (1976), com a gravação de Cartola, de "As rosas não falam", Pé no chão (1978), onde apresentou a turma do Cacique de Ramos e conta com a gravação original de "Vou festejar", Beth Carvalho no pagode (1979), com "Coisinha do pai", e o excelente Beth Carvalho na fonte (1981), de título auto-explicativo e com grandes sambas como "Escasseia", de Zé do Maranhão, Beto Sem Braço e Aluísio Machado, "Morrendo de saudades", de Nei Lopes e Wilson Moreira, "Dança da solidão", de Paulinho da Viola, e "Deus me fez assim", de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito.
Ela seguiria a década de 1980 gravando um álbum por ano, ritmo que diminuiu um pouco na década seguinte. Seu último disco de inéditas foi em 1996, com Brasileira da gema. Desde então lançou discos ao vivo, coletâneas como Pagode de mesa, homenagens a Nelson Cavaquinho e Cartola, Ao vivo no Theatro Municipal, e Beth Carvalho canta o samba da Bahia, este lançado em 2008.
Seu aguardado disco de inéditas vai ser gravado em agosto e da digitalização mencionada na abertura do texto estão aparecendo pérolas para este novo trabalho. "Estou enlouquecida, tem mais de mil músicas para eu gravar. Devo cometer vários pecados nessa escolha, porque vou ter que cortar coisas maravilhosas. E ainda tem gente que diz que não tem repertório, acho uma loucura isso. Meu deus, eu tenho excesso de repertório", afirma Beth nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.
Sobre o que o samba representa, ela não tem dúvidas: "Ele é o grande poder transformador. Porque ele é revolucionário, democrata - você sentou numa mesa de pagode, se igualou a todo mundo, acabou. O samba chamado tradicional é um tipo de melodia, um tipo de poesia e uma levada, uma forma de tocar. É uma forma popular de falar, mas tem uma poesia densa também, tem sofrimento, tem botequim".
E a respeito desse samba mais comportado, arrumadinho, que anda por aí? "Tem algumas músicas que são ditas que são samba, mas não sinto o botequim nelas, o sofrimento, o subúrbio, a favela. Precisa disso, na minha modesta opinião, sinceramente. Porque não é nem meu mundo, mas eu absorvi isso. Eu sempre disse: 'Gente, eu sou da zona sul, de Ipanema'. Nunca morei na zona norte, no subúrbio, mas eu incorporei. Não é que o menino de zona sul não possa fazer samba, mas ele tem que freqüentar o botequim, tem que ir no subúrbio, tem que conversar com o Zeca Pagodinho, com o Marquinhos Diniz, com o Luis Grande, tem que ter malandragem, no bom sentido."