Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel> Assista à entrevista exclusiva de Martha Medeiros ao SaraivaConteúdoMartha Medeiros é bastante conhecida pelos livros
de ficção que, freqüentemente, ganham adaptações para o cinema e o teatro. Ela
também é reconhecida pelas crônicas que publica na
Revista de Domingo do jornal
O
Globo. A cada texto veiculado, sua caixa e-mails lota com dezenas e dezenas
de mensagens dos leitores, um contato instantâneo de elogios e críticas.
“Antigamente eram as cartas. Hoje em dia não tem
isso, o escritor está completamente na berlinda. Eu acho muito bom. É um espaço
e, como existe um certo anonimato, distanciamento, o leitor se sente muito à
vontade de dizer o que pensa. Ele vai lá, mete o dedo na ferida, se não gostou
ele diz”
O que muita gente desconhece é que Martha Medeiros iniciou
sua carreira literária através da poesia, com o livro Strip-tease – um título bastante significativo para uma autora que
acredita que a escrita é uma forma intensa de exposição.
“Eu pelo menos tenho uma relação de intimidade com
o que produzo. Escrever é um ato de exposição, de falta de pudor até, a gente
se coloca muito. Não tem como se afastar muito do que a gente fez”, afirma
Martha, que publicou o primeiro livro, em 1985, pela coleção Cantadas
Literárias, da Brasiliense, do editor Caio Graco Prado:
“Nesta coleção estavam Ana
Cristina César, Leminski, Cacaso, Chacal...
Era uma turma da pesada, eu tive a sorte de ter meu livro editado por essa
coleção. Em seguida com o primeiro, vem o segundo, o terceiro... Daí as portas
se abrem com mais facilidade. Mas eu achei que ia ser pra sempre assim: a poesia
como uma espécie de hobby e a
propaganda – trabalhei anos como publicitária – a minha profissão. Foi uma
surpresa que eu começasse a escrever crônica, depois ficção, e que acontecesse
tudo isso”, confessa a autora de Divã (Objetiva, 2002),
livro recentemente adaptado para teatro e cinema tendo Lilia Cabral como
protagonista.
Antes de tudo isso, quem muito divulgou o nome de
Martha Medeiros pelo circuito poético do Rio de Janeiro foi a poeta e atriz
Elisa Lucinda. As duas, além de compartilhar
a paixão pela poesia, conquistaram uma legião de fãs, em sua maioria o público
feminino.
A amizade entre as duas é tão grande, que
recentemente Martha desembarcou no Rio de Janeiro, mais precisamente em
Botafogo, para assistir a um sarau com os poemas dela, organizado por Elisa com
os alunos da Escola Lucinda de Poesia Viva, na Casa Poema. Na platéia muitas
mulheres aficionadas por poesia, entre elas a atriz Regina Duarte e cantora Beth Carvalho.
Na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, Martha Medeiros relembra o início da trajetória de
escritora, conta sobre a relação com os leitores e a internet, e compartilha as
referências literárias e musicais que fizeram (e ainda fazem) sua cabeça. Além
de confidenciar que se surpreende com a trajetória de escritora, iniciada após
abandonar o trabalho no mercado publicitário.
Você
declarou que a poeta Elisa Lucinda foi a primeira pessoa a receber seu trabalho
no Rio de Janeiro. Como vocês se conheceram?
Martha Medeiros. Comecei em Porto Alegre, onde minha carreira se estruturou.
A Elisa [Lucinda] descobriu os meus poemas e começou a me procurar, me
telefonar: "Vamos fazer um recital dos seus poemas?" Eu já conhecia a
Elisa, naturalmente, através do trabalho dela. Mas não a conhecia pessoalmente.
Então, ela disse: "Agora chega de papo! Agora vem mesmo." Foi então
que vim para o Rio, fazia um tempão que não vinha. Ela foi me buscar no
aeroporto, me levou para a casa dela, depois fizemos o recital. Daí iniciou
essa amizade. Muito bacana porque a Elisa é esse furacão, tem essa vitalidade
toda. E passa isso para os convidados dela, para os alunos. Assim começou uma
corrente poética. O pessoal não conhecia assim a Martha Medeiros. Quem é,
afinal? Caiu de pára-quedas. E a Elisa me proporcionou que meu nome começasse a
rodar num círculo seleto de pessoas que gostavam de poesia.
O que
chegou primeiro: a prosa ou a poesia?
Medeiros. Primeiro veio a poesia. Achei que ia parar na
poesia, inclusive. Nunca achei que tivesse talento para prosa. Meu primeiro
livro de poesia saiu por aquela coleção, Cantadas Literárias, do Caio Graco
Prado, na Brasiliense. Nossa, achei um luxo.
Foi nessa
coleção que o Caio Fernando Abreu lançou o primeiro livro...
Medeiros. Nesta coleção estava Ana
Cristina César, Leminski, Cacaso, Chacal...
Era uma turma da pesada, eu tive a sorte de ter meu livro editado por essa
coleção. Em seguida com o primeiro, vem o segundo, o terceiro... Daí as portas
se abrem com mais facilidade. Mas eu achei que ia ser pra sempre assim: a poesia
como uma espécie de hobby e a
propaganda – trabalhei anos como publicitária – a minha profissão. Não imaginei
que ia ter esses desdobramentos todos. Foi uma surpresa que eu começasse a
escrever crônica, depois ficção, e que acontecesse tudo isso.
Você
sente mais prazer em trabalhar com um determinado gênero?
Medeiros. Prazer eu tenho em escrever, ponto. Gosto de
todos. Mas eu admito que a ficção é mais desafiadora para mim, justamente
porque é o que tenho menos experiência. É interessante criar um personagem, me
dá uma certa liberdade de experimentar mais emoções que não vivi, coisas novas.
Apesar de que sou muito umbilical, escrevo muito sobre meu universo. Mas ainda
assim a ficção me desafia. Porque eu não sei escrever ficção! Essa que é a
verdade. Não sei nem se a gente sabe escrever. Ou se eu sei escrever crônica ou
poesia, ao menos tenho mais familiaridade. Com ficção ainda não, mesmo com o Divã (Objetiva, 2002) sendo o sucesso que foi e tudo... Ainda é uma coisa meio
surpreendente para mim. Como leitora, gosto mais de ficção do que de poesia e
de crônica. Então é interessante desenvolver mais esse lado. Mas prazer eu
sinto com todos os gêneros.
Você tem
muitos livros publicados. Há a preferência por algum?
Medeiros. Cada livro tem sua história. Eu gosto muito de Selma e Sinatra (Objetiva, 2005), por exemplo. É o livro
que teve menos repercussão. Tenho 18 livros publicados, e o Selma
e Sinatra foi o único que escrevi pensando que poderia
dar uma boa peça de teatro. Eu fiz de uma maneira que tivesse muitos diálogos,
são duas mulheres. E não muda de cenário, que é o quarto de uma delas. A história
de uma jornalista escrevendo a biografia de uma cantora. Achei que poderia
render, mas não teve tanta repercussão. Hoje, passado toda a história do Divã,
algumas pessoas estão descobrindo Selma
e Sinatra. Já têm pessoas me procurando para, quem sabe, encená-lo. Gosto
muito daquele jogo de diálogos, mas não dá para dizer que é o meu preferido.
Ele não tem a ver com um momento da minha vida. O Divã tem a ver com minha vida, sabe? Com um momento específico, apesar de não ser
biográfico, totalmente biográfico. Mas a personagem tem elementos da minha vida
pessoal, da maneira como vejo o mundo. Então, claro, tudo isso fica meio filho,
uma relação realmente muito íntima com o que a gente produz. Eu pelo menos tenho
uma relação de intimidade com o que produzo. Então, é difícil selecionar. Agora
tem aqueles que são... O primeiro livro, Strip-tease,
de poesia, por ser a estréia, tenho um carinho especial. Trem-bala (L&PM, 1999), de crônicas, foi um salto na minha carreira. Então,
coloco este livro em outro patamar. Mas eu gosto de todos porque eles me
traduzem de certa forma. Escrever é um ato de exposição, de falta de pudor até,
a gente se coloca muito. Não tem como se
afastar muito do que a gente fez.
Você é de
Porto Alegre, uma cidade com fortes manifestações literárias. Que autores você
apontaria como influência?
Medeiros. Há um mercado que se auto-sustenta [em Porto Alegre]. Não só
em literatura, mas em música e teatro, quem quiser pode viver de arte no Rio
Grande do Sul. Claro, não vai virar uma celebridade. Mas vai conseguir viver do
seu trabalho, o que é muito honroso num país como o nosso, com todas as
dificuldades que tem. Li muito desde pequena. Começando por Monteiro
Lobato, passei pela fase do [Jerome
Davi] Salinger, O
apanhador no campo de centeio (Editora do Autor)... Todos aqueles ritos
de passagem literários. A música popular brasileira tem uma influência grande
na minha literatura...
Por
exemplo?
Medeiros. Caetano, Chico, Rita
Lee. Lembro que eu ficava fascinada com as letras das músicas. Ouvi os
discos, na época ainda LP, com os encartes juntos, acompanhando. Eu tive uma
criação muito musical, muito forte por parte do meu pai. Novos
Baianos, me veio agora na cabeça, faz tempo pra caramba... Acho que todo
tipo de arte me alimenta de alguma maneira. Os filmes do Woody
Allen, por exemplo, são uma fortíssima referência no que faço. Ele lida com
essa complexidade humana com humor, sem se levar tão a sério. Tem um tipo de
condução de texto cinematográfico que, de certa forma, eu bebo ali um pouquinho
também. Luis
Fernando Verissimo, o papa da crônica, está ali ao lado. Agora, eu não saberia
especificar exatamente. Acho que sofro a influência de tudo que leio, de tudo
que ouço... Depois existe um filtro, não é?
Você
escreve crônicas na Revista de Domingo,
do jornal O Globo. Como ficou sua
relação com o leitor a partir dessa experiência?
Medeiros. Antigamente eram as cartas. Hoje em dia não tem
isso, o escritor está completamente na berlinda. Eu acho muito bom. É um espaço
e, como existe um certo anonimato, distanciamento, o leitor se sente muito a
vontade de dizer o que pensa. Ele vai lá, mete o dedo na ferida, se não gostou,
ele diz. E porque não gostou: "Martha você foi tendenciosa nisso. Não
pegou certo aspecto da questão". Eles têm razão, o espaço é limitado,
então não tem como aprofundar, sempre a gente vai privilegiar um ângulo da questão
e um outro vai ficar de fora. Não é um tratado, é só uma opinião. E muito
carinho e muitos elogios, o ego vai às alturas, é muito legal. Claro que não
tenho como criar um relacionamento com aquele leitor porque são muitos e-mails
e a fila anda. Mas, pelo menos, acusar o recebimento, agradecer acho que é o
mínimo que se deve fazer. Dar um retorno: "Recebi. Li. Obrigada".
Antigamente, e esse antigamente me inclui, não tinha internet quando comecei a
escrever, a gente jogava o livro no mercado e não sabia o que acontecia. Não
sabia se estavam gostando ou não. Eventualmente, encontrava alguém na rua que
havia lido... Os amigos que sempre gostam. Esse retorno imediato de pessoas que
nunca vi na vida é sensacional. Um reflexo imediato. Vejo como um grande carinho
e incentivo.
O que
você lê de poesia?
Medeiros. Sabe que não li muito poesia. Poesia nunca foi o
meu gênero preferido. Isso foi engraçado porque eu acabei me manifestando
através dela. Eu li muito [Mário]
Quintana, meu conterrâneo. Fernando
Pessoa e Drummond.
E depois li muito essa poesia contemporânea: Leminski, Ana
Cristina César... O pessoal que comecei junto. Sem querer me comparar, eu
ali era uma intrometida. Paulo
Leminski eu acho fabuloso.
No dia 07
de junho de 2009 completou-se 20 anos da morte de Leminski...
Medeiros. Pois é. Cheguei a conhecê-lo num evento literário,
foi uma honra. Alice
Ruiz, viúva dele, cheguei a conviver com ela também, considero uma grande poetisa.
Mas eu não estou autorizada a falar muito em poesia porque é o gênero que leio
menos. Fabrício
Carpinejar, outro escritor lá do Sul, que é bacanérrimo.
Há uma
produção muito intensa no Sul...
Medeiros.Está todo mundo escrevendo. Mas ninguém
pode dizer que todo mundo escreve, que todo mundo atua, que todo mundo toca
guitarra. Mas escrever todo mundo sabe, ponto. Todos que foram alfabetizados
sabem escrever. Quando alguém quer se manifestar artisticamente acaba tendo uma
tendência pela facilidade da coisa: não precisa de um palco, não precisa de uma
platéia... Põe um blog no ar e vira escritor. Tem de separar o joio do trigo,
naturalmente. Tem uma produção enorme de pessoas. E dentro dessa enxurrada de
gente escreve, é claro que se destacam uns mais do que outros. Mas é muito
difícil acompanhar tudo. Uso o computador para escrever e para pesquisar alguma
outra coisa que me interessa, muito especificamente. Por exemplo: Orkut, Facebook, Twitter, MSN... Não uso
nada disso, não entro em
nada. Sou totalmente “jurássica”, mas faço questão porque
quero ser assim. Porque senão eu não vou ter mais tempo para nada. Eu ainda
quero ter meu tempo para caminhar, ouvir música, ler livros, [curtir] minhas
filhas, ir ao cinema, encontrar amigos, namorar... O que é a vida. Porque daqui
a pouco a vida está toda concentrada dentro do computador, sabe? Parece que a
vida de todo mundo só existe se tiver um computador na frente. O que é tentador
mesmo porque está ligado ao mundo inteiro, se sente pertencendo ao mundo. Só
que ainda prefiro pertencer ao mundo em uma esfera mais íntima, que é onde eu acho que a vida acontece pra valer.
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