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28
Dez
Daniela Mercury lança registro ao vivo do show 'Canibália' em CD e DVD
Divulgação
Por Mauro Ferreira, do Blog Notas Musicais
 
Com distribuição da Som Livre, o CD e o DVD Canibália - Ritmos do Brasil - Ao Vivo na Praia de Copacabana, de Daniela Mercury, já estão nas lojas. A convite da cantora, escrevi o texto-release, no jargão jornalístico - distribuído aos formadores de opinião juntamente com o CD/DVD gravados ao vivo na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro (RJ), no Réveillon 2011.
 
Leia o texto:
 
A apoteose de uma voz nacional nas areias de Copacabana
 
No DVD Canibália, gravado ao vivo em show no Rio de Janeiro, Daniela Mercury irmana os ritmos do Brasil sob a ótica carnavalizante do afeto e da miscigenação
 
No olhar, Daniela Mercury deixa transparecer a emoção e a alegria de ver a multidão cantando sozinha os versos de "O Canto da Cidade" (Daniela Mercury e Tote Gira), faixa-título do álbum de 1992 que sedimentou a explosão da cantora baiana em território nacional. Faz 20 anos que Daniela Mercury é a cor e o canto do Brasil. E a multidão que entoa "O Canto da Cidade" – no número apoteótico que encerra o show gravado ao vivo no Réveillon carioca de 2011, nas areias da praia de Copacabana - é de proporções igualmente nacionais. São mais de um milhão de pessoas – vindas de toda parte do Brasil e do mundo – que consagram a mais importante cantora baiana de música afro-brasileira, a música rotulada de axé music. Mas Daniela não está sozinha no palco miscigenado. Estão lá também a baiana Banda Didá, o grupo carioca Afro Lata, o amazonense Boi Bumbá Garantido e os ritmistas e passistas da escola de samba carioca Unidos da Tijuca – símbolos da integração rítmica nacional proposta pelo show. O número é um dos mais emblemáticos do DVD Canibália – Ritmos do Brasil – Ao Vivo na Praia de Copacabana, superprodução das empresas Páginas do Mar / Canto da Cidade, realizada pelo Canal Brasil sob a coordenação da própria Daniela Mercury e viabilizada pelos patrocínios da Vivo e do Governo do Estado do Rio de Janeiro.
 
No DVD Canibália, Daniela Mercury irmana e integra os ritmos do Brasil sob a ótica carnavalizante do afeto e da miscigenação antropofágica. É sintomático que "Swing da Cor" (Luciano Gomes) – o samba-reggae que catapultou a cantora ao estrelato nacional ao estourar em 1991, um ano após ser lançado em disco – seja introduzido no show com citação de "Tropicália" (Caetano Veloso), o hino-manifesto do movimento arquitetado por Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1967. Assim como também é sintomático que Daniela faça um dueto virtual com Carmen Miranda (1909 – 1955), ícone dos Carnavais brasileiros dos anos 30 aos 50, no samba "O Que É que a Bahiana Tem" (Dorival Caymmi), grafado com o ‘h’ do título original. A folia popular que gera o projeto multimídia Canibália, iniciado com CD lançado em 2009.
 
A baiana Daniela Mercury tem e sempre teve ambição artística. Captado em DVD sob a direção de Paulo Fontenelle, do Canal Brasil, o show desenvolve e amplia o conceito do álbum de estúdio Canibália, editado em 2009. “O DVD firma o projeto Canibália, um manifesto de união e afetos”, conceitua a cantora em depoimento do making of exibido nos extras do DVD (nos quais é possível também ver "Como Nossos Pais", a música de Belchior que Daniela canta deste o início da turnê). A direção do show é dividida pela artista com Vavá Botelho, fundador do Balé Folclórico da Bahia. Vavá é presença fundamental porque o show é também um espetáculo de dança. Bailarina pela própria natureza, Daniela Mercury enfatiza a dança neste show que propõe a integração de diversas formas de arte. Música e dança se entrelaçam num balé mulato que celebra a negritude e expõe telas de pintores como Cândido Portinari (1903 – 1962) e Carybe (1911 – 1997) no cenário idealizado por Gringo Cardia, além de imagem do fotógrafo Mário Cravo Neto (1947 – 2009), a quem Daniela dedica o DVD. A dedicatória é extensiva a Neguinho do Samba (1955 – 2009) – baiano que sintetizou a batida do samba-reggae, exportada pelo Brasil para o mundo – e a Ramiro Musotto (1963 – 2009), percussionista que sempre expôs em seu trabalho o conceito de miscigenação.
 
Não por acaso, aliás, o roteiro do show Canibália abra com tema instrumental de Musotto, Mbira, parceria do percussionista com Santiago Vazquez. O tema evoca ao mesmo tempo a cultura africana e a indígena, bases da mestiçagem nacional que pauta o espetáculo. Já neste primeiro número os tambores ressoam no passo das coreografias de Daniela e da trupe de bailarinos, presenças iluminadas em cena. Na sequência, o pot-pourri "Benção do Sambacelebra" a cadência bonita da terra, aglutinando "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), "O Samba da Minha Terra" (Dorival Caymmi) e o "Samba da Bênção" (Vinicius de Moraes e Baden Powell). Benção pedida no pot-pourri seguinte, "Preta", a Dona Ivone Lara, nobre dama do samba carioca que completou 90 anos em 2011. Integrando os sambas do Rio e da Bahia, Daniela Mercury junta "Eu Sou Preto" (J. Velloso e Mariene de Castro) e "Sorriso Negro" (Adilson Barbado, Jair Carvalho e Jorge Portella), faixa-título do álbum lançado por Ivone em 1981, aditivada com toque de rap, símbolo forte da atual cultura negra musical.
 
Propagadora orgulhosa do samba-reggae de sua terra, a cantora saúda Neguinho do Samba ao convocar a baiana Banda Didá para embasar com o toque feminino de sua percussão os sucessos "O Mais Belo dos Belos" (Valter Farias, Guiguio e Adaílton Poesia), "Por Amor ao Ilê" (Guiguio) e "Ilê Pérola Negra" (Miltão, Rene Veneno e Guiguio). A saudação a Neguinho feita nestes temas que reverenciam o Ilê Aiyê – um dos mais tradicionais blocos afros da Bahia – se torna essencial porque o som criado por Neguinho está enraizado no trabalho de Daniela e de grande parte da música produzida na Bahia. O mestre do samba criou células rítmicas que são uma das identidades mais fortes e perenes da música do Brasil, inclusive face aos olhos externos.
 
Em vez de delimitar fronteiras, o show Canibália – Ritmos do Brasil as demole em nome da integração rítmica (inter)nacional. O reggae Sol do Sul (Daniela Mercury e Gabriel Povoas) aquece a ideia de uma América Latina irmanada por seus afetos, ritmos e calores. Minas com Bahia (Chico Amaral) propõe a integração do universo montanhoso das Geraes com o litoral de Salvador e arredores. Neste número, sem perder o profissionalismo, a cantora deixa entrever o orgulho da mãe coruja que recebe no palco seu filho Gabriel Povoas. Codiretor do show, Povoas toca violão e faz dueto vocal com Daniela em número marcado também pela afetividade.
 
Faixa-título do terceiro álbum de Daniela, "Música de Rua" (Daniela Mercury e Pierre Onasis) se integra perfeitamente ao conceito de celebração do show, apresentado ao ar livre, de graça, para milhões. E vem das ruas de Vigário Geral – outrora símbolo da violência de um Rio de Janeiro que se torna mais pacificado a cada dia – a batida percussiva do grupo Afro Lata, arregimentado por Daniela para embasar com seu baticum o pot-pourri que junta "O Reggae e o Mar" (Daniela Mercury e Rey Zulu) e "Batuque" (Rey Zulu e Genivaldo Evangelista).
 
Pausa harmoniosa na efervescência rítmica que pauta o show, a balada Iluminado – da lavra do compositor mineiro Vander Lee – é a reafirmação da proposta de comunhão de afetos que rege Canibália em todos os sentidos. Afeto que Daniela estende aos ritmistas e passistas da tradicional escola de samba carioca Unidos da Tijuca, recrutados para turbinar "Quero Ver o Mundo Sambar" (Daniela Mercury) e "Vide Gal" (Carlinhos Brown), o samba em que o baiano Brown – um tribalista tropicalista – saúda as belezas naturais do Rio de Janeiro e que, por isso mesmo, ganha citação da marcha "Cidade Maravilhosa" (André Filho). Na sequência, em sintonia com o subtítulo Ritmos do Brasil do show, Daniela integra a Nação Amazonense em sua festa nacional, trazendo componentes do grupo Boi Bumbá Garantido, de cujo repertório canta – na companhia de vocalistas do Garantido – os temas "Paixão de Coração" (Demétrius Haidos e Geandro Pantoja) e o sucesso "Vermelho" (Chico da Silva), acompanhado em empolgante coro pela multidão. É o som do boi com um toque do samba da terra. E o samba da terra – como toda a música do planeta, aliás – vem da África, cujas divindades (em especial, Yansá) são saudadas em "Oyá por Nós", parceria de Daniela Mercury com Margareth Menezes, voz-irmã do afro-pop-brasileiro que Daniela Mercury propagou em escala nacional há 20 anos.
 
Em síntese, Canibália – Ritmos do Brasil representa a apoteose de cantora e compositora que sempre faz ferver o caldeirão do axé sem jamais nivelar o gênero por baixo. A baiana pensa alto. A realização da superprodução eternizada neste DVD simboliza a coroação de seu pensamento aglutinador. Ao irmanar os cantos e os batuques de várias cidades, Daniela Mercury se consagra como uma voz da integração rítmica nacional com a liberdade antropofágica já permitida pelo título do show. Urdido com suingue tropical, o balé mulato é Arte que extrapola a função de entretenimento ao irmanar ritmos e afetos.

Mauro Ferreira
 
Comentários (1)
Reisi Barros - 24/01
A cada álbum lançado, a nossa musa, Daniela Mercury surpreende mais e mais. Ela é simplesmente fantástica. Toda vez que assisto ao DVD, sinto ainda mais orgulho se der baiana. Parabéns Daniela!
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