Por Zaqueu Fogaça
Os olhos do ocidente sempre brilharam intensamente perante a arte russa, seja por seu cinema vanguardista, pela vitalidade do seu teatro, por seu refinamento musical e, sobretudo, pela grandiosidade de sua literatura, que ao longo da história tem conquistado e surpreendido os leitores ao redor do mundo.
Quando os autores russos foram “descobertos” no início do século XX, em especial Dostoiévski e Tolstói, o Brasil ainda não dispunha de editores, tradutores e críticos que dessem conta de uma antologia sobre a extensa e complexa prosa russa, que só chegou aos leitores brasileiros por intermédio de outras traduções: francesas e americanas.
Passado aquele primeiro momento de frisson pelos autores recém-descobertos, a mesma euforia ressurge novamente nesta última década por conta de ótimas traduções que, diferentemente de outrora, são vertidas diretamente do russo, preservando assim a riqueza estilística e a atmosfera da escrita original.
O bom momento que a literatura russa tem passado por aqui evidencia o quanto os leitores brasileiros ainda têm para descobrir sobre uma das mais expressivas criações literárias mundiais.
E foi pensando justamente nesse universo de obras e autores completamente desconhecidos entre os leitores brasileiros, que a Editora 34 lançou no final de novembro do ano passado
A Nova Antologia do Conto Russo.
Organizada pelo professor da Universidade de São Paulo Bruno Barretto Gomide, a obra apresenta um panorama híbrido e maciço da criação literária do país.
Ela reúne quarenta contos de quarenta autores para despertar no leitor um novo olhar sobre a prosa russa, apresentando-lhe novos escritores, mas também mostrar uma nova face de autores cultuados como Dostoiévski, Tolstói, Turguêniev, Górki, Gógol, entre outros. Desses autores, a obra buscou privilegiar os contos menos conhecidos ou jamais publicados em língua portuguesa.
O rico panorama apresentado pela obra expressa com intensidade o olhar afiado de cada autor ao tratar de temas distintos, mas igualmente importantes.
Na escrita de Leskov e Schedrin, nota-se a escolha por temas diabólicos; em Oliécha, Katáiev e Zóschenko, a narrativa situa-se ao redor de um espaço físico e suas carências, temas frequentes na primeira literatura soviética; já em Riémizov e Paustóvski, a narrativa envereda-se pelo caminho memorialístico da guerra; enquanto em Chalámov encontramos o desejo por retratar poetas e seus tristes finais.
Velhas (e boas) antologias russas
No decorrer da história, não foram poucas as antologias dedicadas à rica criação literária russa e soviética; porém, foram raras as que conseguiram romper o pragmatismo dinâmico e superficial que contamina a antologia para expressar com precisão a riqueza estilística e a densidade narrativa características da extensa ficção russa, tal como conhecemos em
Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski, e
Guerra e Paz, de Tolstói.
Desde o início da década de 1940, o Brasil empenhou-se na produção de dezenas de antologias dedicadas à engenhosa literatura russa, mas foram poucas as obras que conseguiram se desprender do panorama rasteiro e embaralhado de obras e autores para atingir o nível exigido pela qualidade e diversidade dos prosadores russos.
Entre tantas antologias, uma imediatamente entrou para a história não somente por sua qualidade, mas principalmente pela equipe de escritores à frente da empreitada, foi o primeiro volume da coleção “Contos do Mundo”, da Editora Leitura, que foi dedicado aos contistas russos, “antigos e modernos”.
A obra contou com a coordenação de Rubem Braga, revisão de Graciliano Ramos, além de tradutores como Carlos Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, entre outros autores importantes da literatura brasileira.
Outra compilação que marcou época foi preparada pela Editora Lux no início dos anos 1960. A Antologia do Conto Russo, da Lux, trazia a intervenção crítica de Otto Maria Carpeaux – um dos principais divulgadores da literatura estrangeira no Brasil – e a participação de Boris Schnaiderman, um exímio conhecedor da literatura russa.
Ilustração para O Idiota
Essas participações foram determinantes para garantir à obra a qualidade da tradução e o equilíbrio de autores russos e soviéticos, tornando-se uma leitura introdutória e fundamental para conhecer os meandros da literatura russa.
Uma terceira antologia, tão importante quanto as anteriores citadas, foi dedicada exclusivamente à criação poética russa. Trata-se da compilação
Poesia Russa Moderna, obra lançada pela Editora Perspectiva sob a coordenação de Boris Schnaiderman e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos.
Diferentemente das anteriores, a obra é mais arrojada, não preza somente por uma boa seleção de autores, mas, sobretudo, por uma análise crítica dos principais expoentes do gênero, como Maiakóvski, Ana Akhmátova, Khlébnikov, Pasternak, entre outros. A qualidade da tradução dessa obra tornou-se uma referência mundial.
Sob o holofote do conhecimento
O livro promete surpreender o leitor, apresentando-lhe um panorama seleto de autores essenciais da prosa russa que ainda permaneciam imersos na penumbra do mercado editorial brasileiro, uma vez que nunca tiveram uma tradução em português de suas obras.
É o caso desses cinco autores a seguir, importantes para a cultura russa:
Nikolai Karamzin
Nikolai Mikháilovitch Karamzin (1766-1826) foi a figura cultural russa mais destacada na virada do século XVIII para o XIX.
Em meio a uma produção alentada, que inclui poesia, traduções e relatos de viagem, da lavra de Karamzin saíram os dois primeiros best sellers em prosa do país: uma fundamental história da Rússia (História do Estado Russo, publicada entre 1818 e 1826) e Pobre Liza, de 1792.
Ambos enraizaram-se profundamente na imaginação russa e foram citados de inúmeras maneiras nas décadas seguintes (
Gente Pobre, romance de estreia de Dostoievski, faz referência direta a ele). Seguindo a praxe do sentimentalismo europeu, os leitores realizaram peregrinações ao mosteiro Símonov, em Moscou, para ver o local onde a protagonista se afoga.
Vladímir Odóievski
O príncipe Vladímir Fiódorovitch Odóievski (1803-1869) participou de diversos grupos literários importantes da primeira metade do século XIX na Rússia, como a Sociedade Livre dos Amantes das Letras Russas, a sociedade dos Amantes da Sabedoria (os Liubomúdri), o periódico Mnemozina, o círculo de leituras capitaneado por Simiôn Ráitch.
Posteriormente, tangenciou o movimento eslavófilo. Odóievski foi um dos principais difusores da filosofia idealista e da literatura alemã na Rússia (Novalis, Hoffmann, entre outros), tendo inclusive contatos pessoais com Schelling. Como destaque o conto A Sílfide – (1837)
Valentin Katáiev
Valentin Pietróvitch Katáiev (1897-1986) atravessou o século XX e oscilou: começou com narrativas marcadas pelo humor e pelas imagens brilhantes características do grupo de Odessa (O Vadio Eduard, de 1925, é fruto desse período), passou pelo realismo socialista, e, nas suas décadas finais, voltou a experimentar com novas modalidades de escrita, sobretudo as memorialísticas.
Andrei Platónov
Nascido em Vorônej, numa família operária, Andrei Platónovitch Platónov trabalhou em ferrovias, lutou na guerra civil e formou-se em engenharia elétrica (trens, a guerra e a eletricidade seriam temas frequentes da sua ficção e de sua visão de mundo).
Considerado um dos maiores prosadores russos do século XX, Platónov escreveu artigos críticos, poesia, contos e romances, sendo que esses dois últimos gêneros ocupam o primeiro plano de sua criação. Sua particularidade para criar estranhamento e distorções do russo padrão faz com que seja um dos autores mais difíceis de serem traduzidos.Destaque para o conto Makar, O Duvidador - (1929).
Varlam Chalámov
Varlam Tíkhonovitch Chalámov (1907-1982) passou mais de dez anos preso no arquipélago Gulag.
Do terrível complexo de campos do nordeste russo, ele extraiu material para seus contos, que, literariamente, são muito mais impactantes do que os textos de Soljenítzin (importantes, porém desiguais do ponto de vista estético) sobre a mesma questão.Destaque para o conto Xerez - (1958)