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Paulo Scott, o amor como escolha19. 03. 2010
 

Por Ramon Mello
Foto de Tomás Rangel



> Assista à entrevista exclusiva de Paulo Scott ao SaraivaConteúdo  

Muito se fala que a escrita do poeta Paulo Scott é marcada pela violência, que suas palavras são cruéis. Alguns leitores têm medo de suas histórias, ao ler os títulos de seus livros: Senhor Escuridão (Bertrand Brasil), Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros (Sulina), A timidez do monstro (Editora Objetiva)... Mas pouco se diz do amor, segundo o próprio autor, elemento primordial para sua criação.

"Na verdade, a marca mais forte em minha prosa é o amor, a necessidade de estabelecer relações. Paradoxalmente, nas narrativas que incluem personagens que vivem no limite, ao estabelecer esse contato é que se descobre a essência mais óbvia da natureza do ser humano. Nada se justifica sem relacionamentos, sem alguém com que você possa atribuir suas conquistas, expectativas; dividir é fundamental.", afirma Scott.

Gaúcho radicado no Rio de Janeiro, o autor de Ainda orangotangos (Bertrand Brasil), livro adaptado para o cinema por Gustavo Spolidoro [veja o trailer ao final], busca o movimento para atuar no universo literário sem isolar das relações afetivas que o cercam. Vivendo no Rio de Janeiro, São Paulo ou Sidney, sua Porto Alegre está sempre marcando presença na narrativa.

"Talvez, o meu afastamento de Porto Alegre seja a minha grande declaração de amor pela cidade. Inevitavelmente, seus bairros, o Centro, ainda funcionam como grande cenário [de minhas histórias]. Mesmo esse romance que estou terminando, que se passa em Sidney, como não desconsiderar toda influência? A leitura do frio, da desconfiança, o jeito mais duro do gaúcho, de Porto Alegre especificamente. Isso não desaparece da minha leitura, da minha interpretação e das proposições que estabeleço enquanto escritor", diz.

Paulo Scott, que acaba de ganhar a bolsa de criação literária da Petrobrás para escrever o livro Habitante irreal, atualmente finaliza o romance Ítaca, do projeto Amores Expressos. Nesta conversa, Scott fala de seu amor, felicidade e paixão, a literatura.



 

Gaúcho radicado no Rio de Janeiro. Como você se relaciona com as cidades, e elas, com seus textos?

Paulo Scott – Talvez, o meu afastamento de Porto Alegre seja a minha grande declaração de amor pela cidade. Inevitavelmente, seus bairros, o Centro, ainda funcionam como grande cenário [de minhas histórias]. Mesmo esse romance que estou terminando, que se passa em Sidney, como não desconsiderar toda influência? A leitura do frio, da desconfiança, o jeito mais duro do gaúcho, de Porto Alegre especificamente. Isso não desaparece da minha leitura, da minha interpretação e das proposições que estabeleço enquanto escritor. O fato de ter dito, há muito tempo, que, depois dos 40 anos, eu não continuaria em Porto Alegre faz parte desse processo. Então, eu poderia ir tranqüilamente para Paris, Santiago, Buenos Aires, ou Sidney que não faria muita diferença dentro dessa intenção. Eu sei que São Paulo, que tem sido a grande opção de vários brasileiros, teria sido talvez uma escolha mais fácil. Porque há efetivamente um mercado maior, nos jornais, nas revistas, os trabalhos como roteiristas... Talvez não coloque o profissional tão em evidência como no Rio, mas há uma quantidade maior de trabalho. O problema é que São Paulo seria um upgrade de Porto Alegre, que não faria muito sentido. O João Paulo Cuenca tem certa razão quando brinca com a relação dos gaúchos e paulistas. Viver no Rio de Janeiro, fora essa coisa do paraíso, tem um grande desafio porque não é uma cidade para amadores. O Rio de Janeiro é uma cidade muito difícil de se estabelecer, de se manter. Viver no Rio é um desafio muito maior do que viver em São Paulo. Se for para falar do Brasil, há dificuldade do gaúcho de entender a dinâmica, a identidade brasileira. Nós somos muito mais próximos dos argentinos, dos uruguaios... Parece que o Rio de Janeiro é o grande porto, que reúne, sintetiza, potencializa todas as manifestações brasileiras. Acho muito bom estar no Rio de Janeiro.

Recentemente, você participou do projeto Amores Expressos. Como foi a experiência de ir para Sidney escrever uma história de amor?

Scott – Escrevi a maior parte desse romance aqui no Rio de Janeiro. A grande influência dessa cidade é que, como Sidney, o Rio é uma cidade ensolarada. As pessoas são, de fato, felizes. Não foi à toa que a [revista] Forbes, recentemente, elegeu o Rio a cidade mais feliz do mundo. E Sidney a segunda cidade mais feliz do mundo. O contexto mais brutal que participaria da história talvez tenha se atenuado em função do Rio de Janeiro.

O romance já tem nome?

Scott – Esse romance tem o nome temporário de Ítaca, uma rua que leva a um parque muito bacana, chamado Bier Park, que é onde o casal [de protagonistas] se conhece. Ali se estabelece um laço quase perpétuo entre os dois. O personagem masculino sofre o acidente e isso faz com que a relação, que antes era muito insipiente, se transforme numa relação densa, profunda, cheia de necessidades. Seria a personagem feminina ajudando-o a voltar para casa. Ele sofre um aneurisma cerebral e não há outra pessoa que possa auxiliá-lo nessa recuperação, que geralmente dura uns dois anos. São essas duas partes, eles se conhecendo e, depois, o amor que vem da necessidade e do fato de um se solidarizar com o outro. Tenho a convicção que o amor é uma escolha, acima de tudo. Principalmente hoje, para nós dos centros urbanos, com toda a cultura que temos acesso, basicamente podemos ter relação com quem quisermos. O amor acaba sendo uma escolha. É um pouco disso que eu falo.

Você tem livros de contos e romances, mas estreou como poeta...

Scott –Eu me considero fundamentalmente um poeta. Eu era uma criança extremamente esquisita, tímida, fascinada pelo vocabulário, o diálogo dos adultos, leitora. Essa insatisfação me empurrou para os livros. Como um bom leitor, pelos 12 anos, comecei a escrever poemas.

Há uma identificação maior com a poesia ou com a prosa?

Scott –Tenho um livro de poesia pronto há um ano, embora três editoras no Brasil tenham me convidado para publicá-lo. Eu sinto uma insegurança muito grande com esse livro, se estaria pronto ou não.  A timidez do monstro e Senhor Escuridão são livros de poesia bastante difíceis, acho que consigo avançar com uma marca própria, dar uma colaboração para esse gênero dentro da língua portuguesa. A minha grande preocupação no próximo livro de poemas é não ter uma espécie de eco desse lugar que de uma forma intuitiva acabei consolidando. Fiquei, durante alguns meses, muito inseguro com relação a esse livro. Depois que decidi tê-lo como pronto, talvez o grande passo fosse passar a disponibilizar de uma forma sistematizada e organizada essa coleção de poemas na internet. Organizar por meio de um projeto, de um patrocínio. Não há razão para que minhas poesias sejam vinculadas no papel, no livro. O papel veio num momento que era o meio mais dinâmico de circular uma história. Hoje há meios diferentes. Por que razão se mantém o fetiche do livro impresso?

Em sua prosa, a violência é uma característica muito evidente. Por quê?

Scott – Na verdade, a marca mais forte em minha prosa é o amor, a necessidade de estabelecer relações. Paradoxalmente, nas narrativas que incluem personagensque vivem no limite, ao estabelecer esse contato é que se descobre a essência mais óbvia da natureza do ser humano. Nada se justifica sem relacionamentos, sem alguém com que você possa atribuir suas conquistas, expectativas; dividir é fundamental. É a questão da canção brasileira: “De que vale o paraíso sem amor?”. Desde que moro no Rio, brinco com essa relação. Se você não divide, as coisas perdem a razão. No livro Ainda orangotangos, que inspira o filme de Gustavo Spolidoro, há psicopatas, que violentam e matam os convidados porque não consegue estabelecer a comunicação. O mundo conduz para o bizarro.  Por que não discutir isso?

Você também é conhecido por promover encontros literários, como a revista ao vivo De Modo Geral. Por que promover a literatura através de eventos?

Scott – Apresentando meu egoísmo, sendo bem franco, me considero poeta, e faço prosa – um aspirante a escritor. Sempre me chocou a facilidade, o canto da sereia, com que o artista se entrega a vaidade, a repercussão de sua obra. Pela força dessa produção isolada que não se divide com mais ninguém, a “glória” do escritor é quase absoluta. Ela só não é plena porque têm os leitores, os editores... Eu não queria cair nessa vaidade. E essa possibilidade de subir no palco e poder cuspir no texto é uma coisa que fascina. Subir no palco e fazer algumas palhaçadas, que inclusive chocam algumas pessoas, é um exercício bastante importante de ampliação com a literatura. Estou sacudindo o texto, o produto desse esforço, e dizendo que não vou me escravizar, me envaidecer, me aprisionar nessa condição. Não quero ser um grande escritor se o preço for o isolamento da minha condição de ser humano, das minhas relações afetivas. “Ah, a literatura me tirou a família! A literatura me tirou a saúde! A literatura me tirou a juventude!” Não quero fazer isso. Não quero culpar a literatura se um dia eu acabar sozinho, recalcado, frustrado. [risos] “Tenho prêmios, mas sou infeliz. Não!” O que a literatura me trouxe foi o fato de me tornar amigo de escritores que sempre idolatrei. De alguns, ouço uma cobrança da vida em relação à felicidade.

O que é felicidade para Paulo Scott?

Scott –Ter amigos com que possamos contar, que sejam verdadeiros interlocutores. Ter família... O rebelde está ficando velho [risos]. Já consigo entender que ter uma família é importante. Ter a sorte de amar alguém é importante. E ser amado na mesma medida. Mais que ser amado, amar alguém. Eu já tive a resposta que eu queria da literatura, só espero não me transformar num velho ridículo e babão fazendo concessões para o comitê de jurados do prêmio tal... Eu velejei durante algum tempo, nas regatas você é sempre guiado pelo líder. Às vezes, sinto o mercado literário e até a crítica agindo assim.

O que você diria para um jovem autor?

Scott – Antes de tudo, aprenda a ler. Essa proliferação de oficinas literárias que tem em Porto Alegre leva alguns a brincar: “Todos são escritores”. As oficinas literárias ensinam fundamentalmente as pessoas a ler. Para ser um escritor razoável é preciso ser um leitor excepcional. Em Sidney, lendo o caderno de domingo, li que há mais escritores do que leitores. E isso a gente vê também no Brasil. Existe um contexto, um ambiente social de escritores. Sem purismos, acho que participar desse ambiente é importante. Jovens escritores que ganham destaque no Brasil são pessoas que, apesar do talento, dominam os mecanismos, a realidade do mercado, de acesso à imprensa. Cito nomes jovens talentosíssimos, mas que não se jogam nessa ambição de maneira ufanista, romântica: Vanessa Bárbara, Antonio Xerxenesky, Carol Bensimon, Bruna Beber... São os jovens de vinte anos com talento que não têm a falsa ética de se relacionar com aqueles que colocam a literatura em evidência e movimentam a máquina editorial. Vou ficar em casa escrevendo, colocar meu original na gaveta e ficar reclamando que ninguém me ama, ninguém me quer? Puxa vida, isso não funciona para nenhum escritor no mundo.


> Confira o blog de Paulo Scott

> Paulo Scott na Saraiva.com.br

> Assista à entrevista exclusiva de Paulo Scott ao SaraivaConteúdo





> Confira o trailer de Ainda orangotangos, filme de Gustavo Spolidoro, baseado no livro de contos de mesmo nome, de Paulo Scott



 

 

Ainda Orangotangos       Senhor Escuridão     
A Timidez do Monstro        
 

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