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André Heller-Lopes: um brasileiro sob os holofotes da ópera01. 11. 2011
 
Divulgação
 
Por Cintia Lopes
Na foto, André Heller-Lopes

Como se não bastasse a ansiedade com a estreia da célebre ópera A Valquíria, de Wagner, que faz parte da tetralogia O Anel do Nibelungo, André Heller-Lopes também comemora outro feito: o de ser o primeiro brasileiro a dirigir uma ópera de Wagner desde sua primeira apresentação, em 1870.
 
Na montagem que entra em cartaz no dia 17 de novembro, em comemoração ao centenário do Theatro Municipal de São Paulo, Heller-Lopes também assina a concepção, direção cênica e cenografia do espetáculo que fala sobre os mitos, medos do homem e sua relação com o amor e o poder.
 
Com 15 anos de carreira, mais de 30 óperas no currículo e passagens pelas principais casas de espetáculo do mundo, como Metropolitan Opera de Nova York e Royal Opera House, em Londres, ele não esconde o desejo de arrematar o público com a encenação inédita na capital paulistana. “O importante é que o público divida comigo a emoção de escutar a obra”, torce.

Especialista em ópera, Heller-Lopes também é Professor da Escola de Música da UFRJ e se mostra entusiasmado com o atual cenário da música erudita no Brasil. “As pessoas com quem falo na Europa têm crescente interesse em vir cantar aqui. Mas, para isso, precisamos de políticas culturais de longo prazo, que independam de urnas e votos”, analisa ele, que já trabalhou inclusive com Plácido Domingo.
 
André Heller-Lopes, de branco, na ópera La Forza del Destino, em Londres

Com experiência de sobra, o diretor garante que não existem grandes diferenças em se apresentar para o público brasileiro ou europeu. “A diferença é o acesso à informação. Mas um bom espetáculo para mim nada tem a ver com moderno ou clássico, isso é estética: tem a ver com qualidade e aprofundamento que o artista faz sobre a obra”, compara ele, que dirige, ano que vem, a primeira ópera na Argentina, Rigoletto de Verdi.
 
Confira abaixo a entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo em que Heller-Lopes fala sobre a carreira e a expectativa de estrear A Valquíria em São Paulo.

Você passou uma temporada grande no exterior e agora está de volta ao Brasil. Que avaliação você faz das atuais produções nacionais? Quais as diferenças principais que você destacaria?

André Heller-Lopes. A parte da formação acadêmica ainda é a diferença principal entre Brasil e exterior. E isso por vezes reflete na qualidade do que se vê em cena. Da mesma forma, o fato de não podermos ainda planejar temporadas com antecedência faz com que a gente não consiga muitas vezes trazer artistas "top de linha" - ou então, que venham a preço de ouro. Mas, no exterior, se uma produção é errada, você atravessa a rua e vai a outro teatro de ópera. Aqui, precisamos ter um pacto de seriedade, pois as oportunidades são ainda raras e valiosas.

O público que frequenta ópera no Brasil é muito diferente do espectador europeu, por exemplo?

André Heller-Lopes. Sim e não. Há o público tradicional, mais velho. Há o público jovem, curioso e ávido por conhecer ópera, que parece estar na moda, e há ainda um público intermediário, que ou é apaixonado pela coisa e conhece, ou não sabe bem o que é isso. A grande diferença com a Europa é o acesso à informação e à opera.

Como é a sua rotina às vésperas de estrear uma produção como A Valquíria?

André Heller-Lopes. Ensaiamos em média oito horas por dia. Como sou workaholic e apaixonado pelo que faço, não desligo um só segundo, e as ideias e opções de cena ficam rodando na minha cabeça. Para aliviar, vou à academia fazer ginástica. Corro, mas sempre com meu dvd player comigo, ou seja, mais ópera! Fazer um Wagner, umas das óperas do Anel do Nibelungo, não é brincadeira.

Qual o diferencial dessa montagem para as outras já encenadas?

André Heller-Lopes. Eu gostaria que essa fosse uma Valquíria brasileira. O Anel do Nibelungo é uma obra universal. Quero defender que ópera também tem direito a seu lugar ao sol. Não interessa somente fazer uma ópera, da mesma forma que não interessa fazer dela uma coisa intelectualizada e complicada. Não preciso colocar a Valquíria pulando de um rochedo para o outro como diz a rubrica da partitura, loura e vestida de capacete e armadura... mas preciso respeitar as emoções que estão na música.

Você possui mais de 30 óperas no currículo, inclusive dirigindo profissionais do quilate de Plácido Domingo. Como foi essa experiência?

André Heller-Lopes. Foi justamente em A Valquíria do Covent Garden, de Londres. O espetáculo era dirigido por Keith Warner, um grande mestre, e eu era um dos assistentes. Plácido Domingo juntou-se ao elenco já fantástico encabeçado pelo Bryn Terfel. Como o Warner tinha um compromisso fora e poucos dias de ensaios, coube a mim e a outro assistente montar tudo em três dias. A parte difícil foi mudar uma cena em que o Plácido deveria se jogar no chão ou subir na mesa e cantar um agudo. Foi certamente o cantor mais impressionante que já "dirigi". O artista mais completo e simples, apesar de todos o reverenciarem.

Já aconteceu algo inusitado ou uma história interessante com você durante alguma apresentação ou nos bastidores?

André Heller-Lopes. Sim, claro! Histórias de bastidores há muitas, geralmente ligadas ao ego de alguma prima dona: não quer usar o avental que outra usou, não quer que o tenor cante perto dela e etc. Em Lisboa, tive duas histórias boas também: uma de uma jovem cantora italiana que ficou menstruada de repente no meio da cena e a equipe de palco, um bando de homens preparados para carregar cenários pesados ou apagar incêndios ficando petrificada ante a um pouco de sangue; outra, menos escatológica, uma ópera traduzida para o português de Portugal, em que o Rei deveria cantar "Bendita fada madrinha!", mas sai-lhe outra coisa por conta das vogais fechadas do sotaque lusitano...

Qual o maior desafio em dirigir uma ópera? O que exatamente um profissional com essa função faz na prática?

André Heller-Lopes. O maior desafio é comandar um grande número de pessoas em cena, nunca esquecendo que são artistas, sejam eles o primeiro tenor, o corista ou o elenco de apoio e, com isso, transmitir minhas ideias e emoções. É sempre uma exposição. Tecnicamente, é dominar música, idiomas estrangeiros e ainda ter uma capacidade de visualizar tabelas de ensaios com antecedência de um, dois meses. Ópera ensaia-se de 3 a 4 semanas, e cantores não gostam de perder tempo. Detestam particularmente quando um diretor chega sem saber o que quer fazer e quer ver os artistas criarem na frente. Isso é método de teatro, não de ópera, onde existe uma partitura musical com tempo e com ideia muito bem estabelecidos.

Existe alguma diferença em dirigir um mesmo espetáculo no Brasil ou no exterior?

André Heller-Lopes. Há diferenças, sim. Quando fiz Tosca na Áustria, mesmo que o pedido da direção do teatro fosse de uma versão mais tradicional, não poderia deixar de incluir uma interpretação mais moderna de algumas coisas, porque o tipo de espectador de Salzburg é acostumado a isso. Minha aposta foi que, um pouco cansado do "trash" do Regietheater, eles apreciassem uma visão clássica com um twist, e deu certo. Da mesma forma, essa Valquíria brasileira só seria possível aqui, pois muito da estética é de raiz brasileira. O público mais difícil para mim foi o de Portugal, pois senti uma grande resistência ao que nós brasileiros podemos oferecer. MPB, novelas, tudo bem... mas um brasileiro dirigindo ópera no grande Teatro São Carlos era um tantinho difícil de engolir. A diferença é encontrar o canal de comunicação com o público.

Quais são suas óperas preferidas e quais ainda gostaria de dirigir?

André Heller-Lopes. Minha ópera preferida é sempre a que estou fazendo no momento. Tenho, claro, títulos que me atraem muito, como D Carlos, Elektra, Arabella, Navio Fantasma, Sonho de Uma Noite de Verão, as óperas de Janácek, várias de Puccini... a lista acaba virando um catálogo. Adoro ópera com coros grandes, como Boris, Turandot ou Forza, e isso seria um prazer fazer. Da mesma forma, dramas pessoais como Katia Kabanova, Aida e La Traviata ou Maria Stuarda e Anna Bolena interessam-me muito. Bodas de Figaro e Cosi ocupam um lugar especial no pantheon mozartiano pra mim. Gostaria de voltar a fazer ópera brasileira, como Anjo Negro, que encomendei em 2003.
 
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