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Haicais: forma poética japonesa só precisa de três versos para nos encantar18. 11. 2011
 
Por Luma Pereira
 
Eles têm três linhas e pretendem captar o momento presente, sugerir sensações e lugares. São os haicais, formas poéticas japonesas surgidas no século XVI. Foi o mestre japonês Matsuo Bashô quem tornou essa arte conhecida, divulgando-a em diários de viagem.
 
Logo ganharam espaço no Brasil, e passaram a existir vários escritores desse tipo de texto aqui, como Alice Ruiz, Paulo Leminski, Paulo Franchetti e Teruko Oda – esta última é filha de imigrantes japoneses e considerada uma das maiores escritoras contemporâneas de haicais do Brasil. Ela nasceu em Pereira Barreto, uma cidadezinha a cerca de 600 km de São Paulo, região noroeste do Estado.
 
Teruko começou a se interessar pelo haicai na infância, pois os pais o praticavam em língua japonesa, sob a orientação de Nenpuku Sato (1898-1979) – grande mestre responsável pela difusão do haicai entre os imigrantes japoneses radicados aqui no nosso país.
 
As reuniões do grupo eram frequentemente realizadas na casa dos pais de Teruko, pois não havia associações ou espaços públicos para esses encontros. Hoje em dia há muitas, como o Grêmio Haicai Ipê, fundado pelo mestre Masuda Goga, tio da escritora.
 
Em entrevista ao SaraivaConteúdo, Teruko Oda fala um pouco mais sobre a arte dos haicais – haikai ou haiku, como também são conhecidos esses mini poemas de três versos que, de maneira sucinta e breve, conseguem nos tocar profundamente.
 
Como começou a se interessar por haicais?
 
Teruko. Não sei ao certo se à época das reuniões em minha casa eu já tinha interesse em escrever haicais, mas posso afirmar que nutria uma profunda admiração por aquelas pessoas ao redor de uma mesa durante horas para ler e escrever sobre a safra perdida, a chuva de ontem, o frio da manhã. Assuntos que passaram a ser foco de minha atenção e que aprendi a observar após ouvir os comentários daqueles senhores e senhoras tão rudes, atarefados e distantes quando os encontrava fora de casa, mas que, ali, risonhos e bem-humorados, pareciam incrivelmente felizes.
Lembro-me de ter acalentado o desejo de ser igual a eles e esperava, ansiosamente, pela próxima reunião, ocasião em que ajudava minha mãe a servir o chá e os pratos caseiros. Talvez tenha sido essa impressão, guardada nalgum canto da memória, o motivo pelo qual aceitei, em 1988, o convite de meu tio H. Masuda Goga para participar das reuniões do recém-fundado Grêmio Haicai Ipê (1987), em São Paulo.
Goga, dedicado discípulo de Sato, a essa época já era um nome respeitado entre os praticantes de haiku, composições em língua japonesa. E desejava a minha colaboração para aprofundar os estudos sobre as possibilidades de escrever haicais em língua portuguesa, mantendo o espírito do poema japonês, ou seja, a tradição do kigo. A partir daí, meados de 1988, comecei a pensar seriamente no assunto, não como um sonho infantil, mas como um caminho possível de percorrer.
 
Quando começou a escrevê-los profissionalmente?
 
Teruko. Em 1989, arrisquei meus primeiros haicais, tendo por temas os propostos para as reuniões mensais do Grêmio Ipê. Goga almejava, segundo suas próprias palavras, ‘o surgimento de um grande poeta capaz de servir de locomotiva do movimento haicaístico brasileiro’. Eu não almejava esse ‘posto’, e nem me sentia capacitada, mas decidi ajudá-lo nessa busca. “Não se preocupe com a qualidade dos poemas. Apenas escreva. Com o tempo, aprenderá a separar o joio do trigo” — foi esse o seu primeiro ensinamento. E, seguindo seus conselhos, passei a escrever todos os dias, registrando as minhas impressões em forma de tercetos.
Em 1993, minhas primeiras composições foram publicadas sob o título Nos Caminhos do Haicai (1993). Os poemas dessa fase foram compostos sob forte influência das lembranças da infância no campo e tendo por bússola as orientações de Goga.
Hoje, completadas pouco mais de 15 publicações (individuais ou em coautoria), não me seduz a ideia de ser considerada escritora profissional, pois os livros foram acontecendo como resultado dos estudos realizados com membros do Grêmio Haicai Ipê, liderados pelas mãos seguras do mestre Goga. Não organizei os livros com a intenção de construir uma carreira literária. Mas acredito que já cumpri boa parte de meu compromisso com o mestre, a quem reverencio com imensa gratidão.
 
Você estudou teóricos que falam sobre o assunto? Quais?
 
Teruko. Entre 1988-89, não havia, de meu conhecimento ou de Goga, livros teóricos para consulta em língua portuguesa, que tratassem do haicai tradicional composto em português. Apoiei-me nas obras traduzidas por Olga Savary, alguns textos de Jorge Fonseca Junior, Oldegar Vieira e Fanny Dupré. Posteriormente, me dediquei à pesquisa e leitura de obras diversas, a maioria em japonês e inglês, sobre filosofia, religião e cultura japonesa, para tentar entender o que não está dito no haicai e o porquê do vazio.
Entre estas, alguns capítulos de Haiku, de R. H. Blyth (1898 – 1964), grande admirador e estudioso da cultura japonesa. Entre as obras em língua portuguesa, me debrucei sobre todas disponibilizadas nas livrarias e, entre estas, chamou-me a atenção, pela profundidade do estudo, o Haikai – Antologia e História, organizada pelo professor Paulo Franchetti da Unicamp, que tenho como livro de cabeceira e ao qual ainda recorro muitas vezes.
 
Quais são as principais características do haicai?
 
Teruko. No Brasil, o haicai alcançou o grande público por meio de três correntes: a que valoriza o conteúdo, a que valoriza a forma e a que valoriza a palavra de estação.
Quase todos o definem como sendo um poema japonês composto de 17 sílabas distribuídas em três versos e que faz referência a um elemento da natureza, sendo sua característica principal a brevidade aliada à concisão. Concordo que essa é uma das características, mas não a principal.
Sigo a escola dita tradicional, que valoriza a palavra de estação, também denominada kigo [A título de curiosidade, a palavra kigo é formada por dois kanji (ideograma japonês): ki, de kisetsu = estação + go = vocábulo, termo ou palavra]. Segundo meu mestre Masuda Goga, o kigo é a alma do haicai. Minha opinião é a de que sem o kigo, expresso ou subentendido nos versos, o terceto não se realiza como haicai, pois é da habilidade do poeta no manejo desse assunto que decorre toda a carga poética ou a poesia propriamente dita, que os praticantes denominam de ‘haimi’ ou sabor de haicai.
Então, podemos dizer que o kigo é a característica principal do haicai? Sim, com reservas. Ou, nem sempre. O haicai não é poema que se resolve por si, não é produto final, como a trova, por exemplo, cuja mensagem é entregue pronta e acabada para o leitor. Daí que há quem diga que haicai não é poesia. É sugestão poética, ensinam os mestres. Há uma frase atribuída a Bashô, que diz o seguinte: “por trás das poucas linhas [do haikai] existe uma cultura milenar. Primeiro adquirir a atitude para depois compreender”.
Penso que o que me leva a afirmar se há (ou não) poesia haicai num determinado terceto não é a sua forma estrutural, brevidade e concisão ou a presença do kigo, mas uma determinada atitude que orienta o discurso interno ou o conteúdo poético propriamente dito. Penso que seja essa uma das principais características do haicai.
 
Há regras? Se sim, você acha que essas regras tornam o texto “preso”, sem liberdade para ser criativo se sair da forma?
 
Teruko. Ater-se ao essencial, elegendo para assunto do poema o que está acontecendo aqui e agora (um kigo), escrever sobre a natureza exatamente como ela é, verbo no tempo presente, evitar pré-conceitos, metáforas, comparações, julgamentos e conclusões, são algumas das regras que, aliadas à brevidade e concisão e corretamente empregadas, podem fazer do seu texto um bom haicai.
Não creio que essas regras possam ‘engessar’ o poema, tirando a liberdade do autor em demonstrar sua criatividade, principalmente porque no haicai não há espaço para demonstrações de ‘virtuosismo’ ou de ‘tiradas brilhantes’. Acredito que a maior dificuldade dos iniciantes está em praticá-las na concretude do poema, não porque não as entenda, mas porque essa atitude, esse despojamento (ou o vazio, o não-eu, que os japoneses chamam de ‘muga’) não faz parte da nossa ‘cultura literária’. Muito pelo contrário, nossa poesia, de modo geral, é profundamente ‘derramada’, intimista e discursiva.
 
Defina o que o haicai capta enquanto arte.
 
Teruko. Acho difícil falar em definição numa arte tão fluida e ‘aberta’ como o haicai. Mas posso dizer que o assunto do haicai é a transitoriedade, sugestão poética de um momento muito particular vivido junto à natureza, e que alguns poetas chamam de ‘satori’ ou ‘momento de iluminação’. Capta o momento presente, o que está acontecendo ‘aqui e agora’.
Por exemplo, a passagem da lua entre o arvoredo ou sobre a montanha, o frio de uma noite de inverno, a florada do ipê, o voo de uma borboleta, a passagem de uma libélula, o passeio de uma barata, o zunir de um pernilongo, o brilho de uma gota de orvalho, a chegada das moscas no verão.
Enfim, o poeta capta um instante fugaz para transformá-lo em instante eterno, deixando ao leitor a oportunidade de completá-la segundo sua própria vivência. A habilidade do poeta em registrar o acontecimento é que vai nos dizer se o texto pode ser considerado arte.

Qual é a principal diferença entre o haicai e a poesia? E a principal semelhança?
 
Teruko. O haicai, com sua linguagem objetiva, mostra sem dizer, sugere, compartilha, abre espaço para o leitor completar ou complementar o poema segundo sua própria experiência. É arte que nasce de fora para dentro, que aceita o fazer coletivo, que se aprende na relação com o outro, o autor não se coloca no poema.
A poesia ocidental, dita “clássica”, com rimas, título, versos formando estrofes, é mensagem direcionada, arte individual que se constrói de dentro para fora; os sentimentos, emoções, ideias e pensamentos do autor são o seu assunto.
Então, parece-me que a principal diferença entre o haicai e a poesia dita ‘clássica’ é o vazio, o não dito — uma das características mais marcantes do haicai, em oposição ao caráter extremamente ‘recheado’ dos poemas ‘estrofados’.
E a semelhança é que ambos, linguagem poética, são transmissores de emoção, sensação, sentimentos.
 
Você acha mais difícil escrever haicais do que escrever poemas ou prosa? Por quê?
 
Teruko. Na verdade, eu não escrevo haicais. Eles nascem num impulso, são ‘filhos’ que já chegam ‘criados’. A prosa também não me traz grandes dificuldades. Já os poemas, acho bem difícil escrever, pois, muito além da inspiração, eles necessitam ser ‘pescados’ num mar agitado de sentimentos controversos e emoções fugidias. Para lhes dar um rumo, uma forma, é necessária uma árdua tarefa de garimpagem e lapidação de palavras. Em resumo, o poema pede muita, muita transpiração.
 
Que autores de haicai brasileiros e internacionais você admira?
 
Teruko. Entre os autores brasileiros, embora pouco conhecidos e divulgados, gostaria de citar a já falecida Fanny Luiza Dupré, autora de Pétalas ao Vento, primeira mulher brasileira a publicar um livro de haicais, em 1949. Era impressionante o seu desejo de aprender, de se aprofundar no assunto sempre mais e mais para melhorar as suas composições.
O segundo autor a quem nutro profunda admiração e respeito é Paulo Franchetti. Sua obra Haikai – Antologia e História foi e ainda está sendo de suma importância para os meus estudos. Seus textos, sempre esclarecedores, muitos deles disponíveis na internet, atestam sua importância para o mundo do haicai. Entre os autores internacionais, Mestre Goga (1911-2008), recentemente homenageado pela Comissão de Atividades Literárias da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, em São Paulo; e em 2004 agraciado com o Masaoka Shiki International Haiku Prize, na cidade de Matsuyama, Japão, por sua contribuição à difusão do haicai no Brasil.
Kobayashi Issa (1763-1827), um dos quatro mestres do haicai do Japão, é outro poeta que admiro por sua imensa sensibilidade. Em seus textos, considerados por alguns críticos como ‘excessivamente sentimentais’, há um calor humano que muito se aproxima do meu jeito de ver o mundo.

Existe hoje algum jeito brasileiro de fazer haicais?
 
Teruko. Tendo em vista as diferentes tendências seguidas pelos poetas brasileiros na composição de seus textos, não é possível afirmar que existe um jeito brasileiro de fazer haicais. Os estilos diferem muito e não há unanimidade em relação ao ser ou não ser do haicai. Eu não diria nem que esses estilos são reinvenções da ‘fórmula’ japonesa, pois acredito que muitos que atualmente o praticam no Brasil ainda não se aprofundaram na busca da ‘fórmula’ segundo a tradição japonesa.
Coordenei durante muitos anos a etapa brasileira de um concurso mundial de haicais realizado sob patrocínio da JAL Foundation/Tokyo, que se denomina World Children’s Haiku Contest, e tive a oportunidade de conhecer haicais de crianças japonesas de 6 a 14 anos de idade. Percebo, nesses textos, que a poesia flui leve e solta – os versos parecem ‘naturalmente nascidos’. Já os poemas dos nossos alunos, mesmo os muito bem realizados e bem classificados, me causam uma sensação de que falta naturalidade, algo como o sabor de um fruto colhido fora da época ou antes do tempo.
Ao analisar essa experiência, a minha vivência entre haicaístas japoneses de primeira geração e os relatos de atuais praticantes de haicai no Brasil (brasileiros ou nipodescendentes de meu relacionamento cotidiano), fico com a impressão de que, enquanto não adquirirmos a ‘atitude’ de que falam os mestres, nós continuaremos inventando fórmulas para escrever haicais brasileiros.
 
Comentários (6)
nathalia alves - 04/11
adorei
Eduardo - 23/08
eu pesquisei haicais de tres linhas e apareceu esse negocio
JESICA - 23/08
ai adorei para fazer a minha pesquisa
Sérgio F Pichorim - 23/11
Não concordo com o último comentário da amiga Teruko. O que as crianças japonesas são melhores que as brasileiras? Tanto umas quanto as outras escrevem naturalmente sem os rigores acadêmicos dos adultos. Sobre a questão de fórmulas, concordo que os estilos brasileiros variam muito, mas o haicai no Japão moderno, também tem vários estilos, que diferendo clássico.
Monica Martinez - 21/11
Olá, Luma, parabéns pela iniciativa de fazer uma matéria sobre haicais. À mestra Teruko, os agradecimentos à oportunidade de aprender, sempre, graças à sua paciência, sensibilidade e conhecimento infinitos! Com um abraço a ambas! Monica Martinez
Marcelino Lima - 20/11
Parabéns, Luma, pela entrevista; parabéns, querida amiga e professora Teruko, você abordou com muita riqueza e maestria o assunto e finalizou com precisão oriental ao resumir que escrever haicais exige mais do que forma, conteúdo e estilo uma atitude,um caminho, que, para mim, na verdade, é tanto uma prática engajada de amor, observação e amor à natureza, num sentido mais amplo, não apenas de meio-ambiente, quanto uma postura espiritual de se libertar do ego e se colocar como apenas mais um elemento da natureza, aqui compreendida com um sentido mais cósmico e de ligação com o sagrado, o Divino... Um abraço!
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