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Abelha-rainha da Música Popular Brasileira, Maria Bethânia lança o 50º álbum de sua carreira02. 04. 2012
 
Divulgação
Maria Bethânia
 
Por André Bernardo
 
O “oásis” de Maria Bethânia não é um lugar fértil ou prazeroso, como sugere o filólogo Antônio Houaiss.
 
Pelo contrário. É árido e sem vida, como o sertão brasileiro. Foi lá, na paisagem desértica de algum recanto do sertão de Alagoas, que o cenógrafo Gringo Cardia registrou a foto que enfeita a capa do novo álbum da cantora, Oásis de Bethânia.
 
“Para mim, sertão é um misto de silêncio, resignação e divindade. É um lugar onde não tem nada: água, vida, nada. Saber que existe um lugar assim no meu país me bota do tamanho que eu sou”, afirma a cantora, baiana de Santo Amaro da Purificação, onde nasceu há 66 anos.

O título do álbum – o 50º em 47 anos de carreira – foi retirado do texto “Carta de Amor”, escrito em 2010 pela própria Bethânia.
 
Famosa por recitar poetas lusófonos em seus shows, como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector, Maria Bethânia decidiu inovar.
 
E, pela primeira vez, recitou um texto de sua própria autoria. “Desde moça, sempre gostei muito de escrever. Mas, como eu sou cantora popular e não escritora, eu escrevia e queimava, escrevia e queimava”, confessa, aos risos. “Sempre achei purificador escrever e queimar. Mas, desta vez, senti necessidade de dizer aquelas palavras”, avisa.

À primeira vista, o tom contundente de “Carta de Amor” – “Não mexe comigo/que eu não ando só” – pode ser interpretado como uma resposta aos detratores do projeto “O Mundo Precisa de Poesia”, idealizado pelo antropólogo Hermano Vianna e pelo cineasta Andrucha Waddington.
 
Quando os produtores foram autorizados a captar até R$ 1,3 milhão, Bethânia tornou-se vítima de um “desagravo pesado e soturno”, como ela mesma descreve. “O pessoal se aproveitou da polêmica para bater em mim. E bateram mesmo. Mas, como diz o Chico, ‘eu não quebro porque sou macia’”, responde, citando a letra de “Querido Diário”.

Como já era de esperar, dois dos autores prediletos de Bethânia, o compositor Chico Buarque e o poeta Fernando Pessoa, são presença obrigatória: o primeiro, com a canção “O Velho Francisco”, e o segundo, com o poema “Não Sei Quantas Almas Tenho”, escrito sob o heterônimo de Bernardo Soares.
 
No mais, tudo é inesperado em Oásis de Bethânia. A começar pela decisão da cantora de escolher dez diferentes músicos para produzir o arranjo de cada um das 10 faixas do álbum.
 
Desta vez, o maestro Jaime Alem, produtor musical de Bethânia desde Maria, de 1988, dividiu a responsabilidade com Djavan e Lenine, entre outros.

Das 10 músicas do álbum, cinco são inéditas: “Vive”, de Djavan; “Calmaria”, de Jota Velloso; “Carta de Amor”, de Paulo César Pinheiro; e “Casablanca” e “Fado”, de Roque Ferreira.
Maria Bethânia
 
Das releituras, destaque para “Lágrima”, sucesso de Orlando Silva, e “Calúnia”, de Dalva de Oliveira. Da primeira à última faixa, apenas voz e uns poucos instrumentos acústicos. 
 
“Estúdio é o lugar mais solitário que conheço. E eu sempre me senti profundamente atraída por isso”, afirma a cantora. “Quando entrei em estúdio para gravar esse álbum, eu queria algo solitário, assim como eu. Sem piano, baixo, violão e bateria. Só eu e a minha música”, sorri.
 
Oásis de Bethânia é o 50º álbum de sua carreira. Pode-se dizer que, por essa razão, seja um álbum especial dentro da sua discografia?

Bethânia. Hoje em dia, para lançar um novo disco, eu tenho que ter um impulso muito forte. Uma música, um texto, um silêncio. Às vezes, sinto vontade de dizer o que estou sentindo. Desta vez, eu não queria voltar ao estúdio para fazer o que sempre faço. Queria fazer um disco nu, como há muito não fazia. Acho que esse disco vai provocar a mesma estranheza sonora de Ciclo, de 1983. Sinto que, naquele momento, queria algo diferente do que vinha fazendo até então. E acho que consegui. Gosto de buscar novas sonoridades a cada álbum.
 
Ainda hoje, 47 anos depois do lançamento de seu primeiro compacto, Maria Bethânia, de 1965, você ainda se emociona ao gravar um novo disco?

Bethânia. Sim, sempre. A música sempre me comove. Esse álbum, particularmente, me comove muito. O meu ofício é algo muito delicado. Lido com coisas finas e delicadas, como poesia, música, corda vocal. Você quer algo mais fino e delicado que corda vocal? O mundo, por sua vez, anda cada vez mais grosseiro, sem classe, indelicado... Ninguém quer prestar mais atenção aos detalhes. Quando consigo achar uma brecha e mostrar meu trabalho, me sinto vaidosa. Quando vejo que fiz algo de novo, quando percebo que consegui alcançar o meu objetivo, sinto uma alegria muito grande. Vivo do meu trabalho e adoro o que faço. 
 
Cada uma das 10 faixas de Oásis de Bethânia tem um arranjador diferente. Como você chegou a esse time de músicos, como Djavan, Lenine e Hamilton de Holanda, entre outros?

Bethânia. O Brasil tem uma geração de instrumentistas extraordinários. E eu queria estar perto de todos eles. Felizmente, todos aceitaram o meu convite e o resultado saiu exatamente como imaginado. A primeira música que escolhi foi "Lágrima". Na mesma hora que escolhi a música, escolhi o Hamilton (de Holanda, bandolinista) para tocá-la. Já o Jaime (Alem, maestro) foi convidado para tocar viola caipira em um fado. O Jaime, aliás, toca viola caipira como ninguém. E assim por diante.
 
Como surgiu a ideia de convidar o Lenine para tocar "O Velho Francisco", do Chico Buarque?

Bethânia. Quando eu pensava numa música, quase que ao mesmo tempo surgia um nome na minha cabeça. Quando escolhi "Velho Francisco" para gravar, o Jorge (Helder, baixista e “cocriador geral” do álbum) logo sugeriu o Lenine. A gravação do Chico é linda, exuberante. Mas eu queria algo com mais pegada. O Lenine tem uma coisa rítmica que me agrada muito. Não sei de onde vem isso: se é de Pernambuco, da África, do céu ou do inferno... (risos) Quando ele dá uma pancada no violão, estremece tudo ao redor.
 
Você não chegou a pensar no Caetano para participar do álbum?

Bethânia. Cheguei, claro! Quando tive o primeiro impulso para gravar esse álbum, incluí o Caetano nele. Na primeira lista, o nome dele estava lá. E estava, aliás, com uma canção estranhíssima, que ele compôs em 1967. É uma canção inédita que ele compôs a partir de um poema de Sá de Miranda (poeta português). A música do Caetano ficou de fora do álbum, mas, com certeza, vai entrar no espetáculo.
 
Já sabe quando pretende sair em turnê? Há rumores de que, no momento, você prefere se dedicar a outros projetos, como o "songbook" do Chico Buarque...

Bethânia. Não, não. Isso é maluquice! Não sei de onde tiraram isso... Acabei de lançar um disco. No segundo semestre, quero montar, como sempre faço, um show a partir dele. Já imaginou? Fazer um disco com essa proposta sonora e não divulgá-lo pelo Brasil? No momento, não posso falar muito sobre o show porque ainda não parei para pensar no roteiro dele. Mas, certamente, não será no formato tradicional, eu e banda.
 
Você já teve a oportunidade de recitar, em alguns de seus espetáculos, versos de poetas famosos, como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e Clarice Lispector. Quais os seus prediletos?

Bethânia. Bem, Fernando Pessoa é o poeta da minha vida. De todos, é de quem eu mais gosto. Mas gosto de outros também. No Brasil, gosto de Clarice Lispector, Nélida Piñon, Ferreira Gullar... São muitos os poetas brasileiros que admiro. Não quero cometer a injustiça de esquecer ninguém porque não quero ninguém zangado comigo... (risos)
 
Pela primeira vez, você gravou um texto seu: "Carta de Amor”. Por que demorou tanto a fazê-lo?

Bethânia. Sempre gostei de escrever. Mas, veja bem: sou cantora popular e não escritora. Desde moça, sempre escrevi muito. Alguns amigos, como o poeta Waly Salomão, sempre se interessou pelo que eu escrevia: "Soube que você passou o final de semana escrevendo, é verdade?", perguntava ele. "Pois é, escrevi". "Vou aí", avisava. "Não venha porque já queimei..." (risos) Eu queimo tudo. Escrevo e queimo, escrevo e queimo. Acho purificador... Escrevi esse texto no ano passado e gostei. Precisava escrever aquelas palavras. E mais: precisava dizer aquelas palavras. E disse. Não sei se é certo ou errado, bonito ou feio, mas disse...
 
Pode-se dizer que, apesar do título, “Carta de Amor” seja uma resposta para quem criticou você ano passado por causa do blog sobre poesia?

Bethânia. Não escrevo para quem acho que não pode me compreender. Escrevo para mim. Sinceramente, “Carta de Amor” é uma carta que eu escrevi para mim, para me livrar de demônios, angústias, dores, mágoas... O blog “O mundo precisa de poesia” foi uma ideia do Hermano (Vianna, antropólogo) e do Andrucha (Waddington, cineasta), amigos amados. Um dia, eles me viram recitando poesia na Casa do Saber, aqui no Rio, e me convidaram para participar de um projeto que já existia. Fiquei honradíssima com o convite. Mas aí teve aquele desagravo tão pesado e soturno que o Hermano cancelou o projeto. Espero que, um dia, eles possam retomá-lo. Seria bom se a poesia pudesse chegar às pessoas em toda hora e lugar. Mas, infelizmente, deu esse problema. O pessoal se aproveitou da polêmica para me bater. E bateram muito. Mas, como diz o Chico, "eu não quebro porque sou macia"...
 
Recentemente, Chico Buarque e Marisa Monte lançaram mão da internet para divulgar seus novos trabalhos. Você não pensou em fazer o mesmo?

Bethânia. Quando terminei de gravar esse álbum, a gravadora propôs que o lançamento fosse feito pela internet. Eu disse a eles: "Acho maravilhoso. Só peço a vocês que não contem comigo". Aí, eles me perguntaram: "Mas, então, o que você vai fazer?". Vou fazer o que sempre fiz. Sentar, conversar com as pessoas e falar sobre o meu trabalho. Sei que a internet é útil para a música, mas devo confessar minha total ignorância.
 
E rádio? Você ainda tem o costume de ouvir?

Bethânia. Eu ouço muito rádio na Bahia. No Rio, quase não ouço... Eu trabalho com música. Por mais que seja uma delícia, quando ouço uma música no rádio, imediatamente penso em trabalho, entende? Na mesma hora, presto atenção na letra, ritmo, compasso, afinação. É um inferno! (risos)
 
 

 
Comentários (3)
Rosineide - 09/04
Maria Bethânia, A alegria que se tem em pensar e aprender faz-nos pensar e aprender ainda mais. amo as suas Musicas, eu sou sua Fan.. você é muito delicada, carinhosa, sensível, é uma ótima cantora..
Thiago Alves - 04/05
Maria Bethânia! É uma honra ter em nosso meio uma mulher como Bethânia! Grande artista, interprete, grande mulher! O mundo precisa de poesia e precisa de Bethânia! Sorte a nossa de poder ter em nossos ouvidos a voz dessa sereia do mar, uma verdadeira rainha, uma diva! Amo Maria Bethânia do fundo de minha alma, esta entrevista me emocionou!
Michele - 16/04
O ofício de Bethânia é delicado como ela diz, e de fato é..o mundo perdeu a delicadeza, a sensibilidade..e é ouvindo a voz de Bethânia que temos a oportunidade de reaver essa delicadeza..Obrigada Maria Bethânia por tornar esse mundo mais bonito e delicado!!
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