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Abelardo Barbosa, está com tudo e não está prosa!28. 10. 2009
Filmes e Séries
Documentário de Nelson Hoineff homenageia Chacrinha, o comunicador que mais faz falta à televisão brasileiro

Por Bruno Dorigatti
Fotos de divulgação e Tomás Rangel

> Assista à entrevista exclusiva de Nelson Hoineff, diretor de Alô, Alô, Terezinha!, ao SaraivaConteúdo 

"Abelardo Barbosa/ está com tudo e não está prosa/ Menino levado da breca/ o Chacrinha faz gracinha na buzina e discoteca/ Ô Terezinha, Ô Terezinha/ é um barato o cassino do Chacrinha" 

Essa música fez a cabeça de muita gente e anunciava o começo do show de calouros mais irreverente que a televisão brasileira já viu. Entre pretendentes a cantores que ganhavam buzinadas na cara e, como prêmio, um abacaxi, playbacks hilários de bandas, dançarinas sensuais e músicos conhecidos disfarçados com máscara e bigode, o imortal Chacrinha levava à televisão uma boa dose de humor, ironia, e capacidade de rir, sem pudor, de si e dos outros. “Cáustico, cruel”, como afirma Gilberto Gil. “Um provocador, quebrava rotinas, quebrava roteiros, quebrava marcações, mexia com os câmeras”, recorda Boni, diretor da TV Globo na época. “Uma música lançada por Chacrinha, em uma semana estava tocando nas rádios”, conta Fafá de Belém. “Era o verdadeiro hit parade”, acrescenta Beth Carvalho. 

Estes e dezenas de outros depoimentos estão em Alô, Alô, Terezinha!, documentário dirigido pelo jornalista Nelson Hoineff, e que chega dia 30 de outubro aos cinemas do país. O filme, que ganhou no Cine Pernambuco 2009 os prêmios de Melhor Longa-Metragem, Melhor Montagem, Melhor Filme/Júri Popular, além do Troféu Gilberto Freyre, presta uma bela homenagem a um dos mais importantes comunicadores brasileiros. 

Nascido em Surubim, interior de Pernambuco, em 1917, José Abelardo Barbosa de Medeiros começou a carreira como locutor na Rádio Tupi, no início dos anos 1940, no Rio de Janeiro. Em 1943, lançou na Rádio Clube Niterói o programa de marchinhas de carnaval “Rei Momo na Chacrinha” e fez tanto sucesso que passou a ser conhecido como Abelardo “Chacrinha” Barbosa. A estréia na televisão se deu em 1956, na TV Tupi, com o programa “Rancho alegre”, onde fazia paródias dos filmes de faroeste, no qual interpretava o xerife. A “Discoteca do Chacrinha”, seu programa de maior sucesso, estreou em 1957, na mesma emissora. No início dos anos 1960, levou a “Discoteca” para a TV Excelsior e, depois TV Rio. 

Em julho de 1967, foi contratado pela TV Globo para apresentar dois programas: a “Discoteca do Chacrinha”, às quartas-feiras, e “A hora da buzina”, rebatizado em 1970 como “Buzina do Chacrinha”, aos domingos. Depois de voltar à Tupi, em 1972, passou pela TV Bandeirantes entre 1978 e 1982, quando retornou definitivamente à TV Globo, para de lá mais não sair. Passou a comandar o “Cassino do Chacrinha” nas tardes de sábado, programa de auditório com atrações musicais e show de calouros, formato que o imortalizou, assim como suas fantasias espalhafatosas, como o popular disco de telefone (sim, os telefones já foram a disco!) pendurado no pescoço. “O personagem era muito sólido, apesar da aparência de ser tudo feito de forma improvisada. Era tudo muito estudado, ele sabia exatamente o que estava fazendo”, conta Hoineff, em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Seus bordões ficaram igualmente famosos. Além do “Alô, Terezinha!”, que nomeia o filme, os mais populares foram: “Quem não se comunica se trumbica”, “Na TV nada se cria, tudo se copia” e “Eu vim para confundir e não para explicar”. Peculiares eram os “prêmios” que os calouros, convidados e platéia levava para casa: bacalhau, farinha, abacaxis e vegetais. Entre as dançarinas sensuais do programa, conhecidas como chacretes, passaram por lá Rita Cadillac (que hoje faz filmes pornôs), Índia Potira e Cléo Toda-Pura. No júri do programa de calouros, figuras peculiares como o produtor musical Carlos Imperial, a cantora Aracy de Almeida, a transformista Rogéria e a atriz Elke Maravilha. 

                                                                                                                                            Foto de Tomás Rangel
O filme de Hoineff tenta resgatar aquele clima espalhafatoso que se via nas tardes de sábado. Aliás, uma cena do filme ficou famosa há pouco tempo, ao circular pela internet em sites como o YouTube. O cantor Byafra, em depoimento ao documentário, interpreta sua música “Sonhos de Ícaro” (“Voar voar/ subir subir/ ir por onde for/ Descer até o céu cair ou mudar de cor”) no exato momento em que um parapente desgoverno o atinge em cheio. Fosse outro filme, e a cena teria sido cortada, mas em se tratando de Chacrinha, ficou mais que casual, quase proposital. 

“O que o Chacrinha fazia era transgredir socialmente, de uma forma muita aberta, muito ampla. O Chacrinha debochava de negro, de mulher, de homossexual, de nordestino, ele mesmo um nordestino. Mas fazia isso como uma grande brincadeira, de uma forma muito franca, muito aberta. Ele dizia: ‘Eu estou fazendo isso’”, afirma Hoineff, que finalizou também em 2009 um filme sobre o jornalista e seu amigo Paulo Francis, que deve estrear no começo de 2010. 

Hoineff procura a linguagem que morreu com seu criador como uma forma de homenageá-lo, mas também acaba por fazer um filme onde põe à prova o desejo do ridículo e do exibicionismo, que pioraram em grau elevado desde então. “O que acho realmente que expõe as pessoas ao ridículo é a televisão que se pratica hoje. Qualquer situação, seja na dramaturgia, seja no jornalismo, você trata o espectador, de saída, como se ele fosse um débil mental. Não interessa o conteúdo que vem depois. Isso que é expor as pessoas ao ridículo”, acredita.

Alô, Alô, Terezinha! intercala alguns dos melhores momentos do programa, com entrevistas e depoimentos de artistas como Roberto Carlos, Fábio Jr. Cauby Peixoto, Ney Matogrosso, Alcione, Elba Ramalho, Gretchen, Elymar Santos, Nelson Ned, Wanderléa. Além deles, há a turma que trabalhou no programa, como o assistente de palco Russo, Boni, e o compositor de marchinhas João Roberto Kelly, alguns calouros, e, claro, 15 chacretes que passaram pelo “Cassino do Chacrinha”. 

A Loira Sinistra revela que “o assédio era muito engraçado, porque todo mundo queria levar uma chacrete para casa, depois que ia cantar no programa”. Vera Furacão se auto-intitulava "a mais namoradeira do Chacrinha", mas quem enumera as conquistas é Angélica Corujinha: "Começo com Mané Garrincha, foi o maior homem para mim, o maior gentleman. José Bonifácio [o Boni, diretor da Globo na época], outra pessoa maravilhosa. Jairzinho, o furacão da Copa [de 1970], abafa. Antônio Marcos [cantor], Almir, dos Fevers, Falcão, jogador. Fora que namorei o Simonal, maravilhoso, que Deus o tenha também.” 

Dercy Gonçalves comparece lembrando a simplicidade da televisão de outrora. “Hoje que é sofisticada, metida a besta.” A centenária Dercy sabia do que estava falando, pois acompanhou e protagonizou toda a história dessa “máquina de fazer doidos”, como certa vez definiu a televisão Stanislaw Ponte Preta, alter ego do jornalista Sérgio Porto, criador do Febeapá, o saudoso Festival de Besteiras que Assola o País. Saudoso, não por conta das besteiras – que seguem sendo ditas e feitas em quantidades exorbitantes –, mas pela falta que faz alguém para ridicularizá-las.

“O que a televisão faz hoje é um milhão de vezes mais venal. Olhar para você e dizer: ‘Eu sou a grande mídia, você é um idiota, tem que se resignar a essa condição’. E a partir daí vem todo esse conteúdo pasteurizado, imbecilizante, que é um dos grandes responsáveis pela sociedade brasileira ser tão pouco ativa”, acrescenta Hoineff. 

O último “Cassino do Chacrinha” foi ao ar no dia 2 de junho de 1988, 28 dias apenas antes de sua morte por infarto e insuficiência respiratória. Tinha 70 anos, uma das pessoas que mais falta faz a televisão brasileira, pela anarquia, o deboche, o desprendimento e a transgressão que trouxe a ela.

> Assista à entrevista exclusiva de Nelson Hoineff, diretor de Alô, Alô, Terezinha!, ao SaraivaConteúdo, e o trailer do filme








 

> Confira o site oficial de Alô, Alô, Terezinha!

> Discoteca do Chacrinha na Saraiva.com.br 




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