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A Caixa Preta de Itamar Assumpção20. 10. 2010
Música
 




Por Felipe Pontes

Prezadíssimos Ouvintes - Itamar Assumpção (Sampa Midnight, 1985)

O novo não me choca mais 

Nada de novo sob o sol 
O que existe é o mesmo ovo de sempre
Chocando o mesmo novo

Muito prazer
Prezadíssimos ouvintes
Pra chegar até aqui tive que ficar na fila
Agüentar tranco na esquina e por cima lotação Noite e aqui tô eu novo de novo
Com vinte e quatro costelas
O jogo baixo, guitarras, violão e percussão e vozes
Ligadas numas tomadas elétricas e pulmão

[...]

Isso deu repercussão. Uma ampla cobertura na mídia tem dado destaque ao que alguns já consideram como o lançamento do ano: a Caixa Preta - toda a discografia de Itamar Assumpção reunida em uma única embalagem. Nada de novo sob o sol?, perguntariam os fãs do Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavel. Sim, coisa nova há. Além dos 10 discos deixados pelo artista, foram gravados mais dois só de inéditas, um pela Isca de Polícia, outro pela Orquídeas do Brasil, as duas bandas formadas pelo próprio Itamar e que o acompanharam ao longo da carreira. 

Muitos gastaram tempo em rotular Itamar Assumpção como maldito da MPB. Totalmente à revelia, ele se manteve sempre ao largo das grandes gravadoras. Isso aconteceu muito menos pela falta de reconhecimento do que pela convicção em se manter entrincheirado na independência total. Uma atitude corajosa, "louvável, fundamental. A sua obra vem com este peso. A postura de uma vida inteira", diz Anelis Assumpção, cantora e filha do compositor. Uma obra que, como escreveu Arrigo Barnabé, no songbook Pretobrás - porque que eu não pensei nisso antes? (Ediouro, 2006), foi deixada como uma oferenda. 

Itamar pensou nisso antes. Consciente de sua doença terminal, que o matou em 2003, concebeu, ele próprio, a Caixa Preta. Logo se deu conta de que, devido à reutilização do que na época ainda eram fitas magnéticas, muitas masters (gravação original, de melhor qualidade, base para os discos) acabaram perdidas. A solução encontrada por ele? Regravar, nota por nota, seus primeiros álbuns. Para isso, chegou a entrar em contato com a violoncelista Clara Bastos para que se encarregasse da transcrição em partituras. O absurdo, em princípio, seria reduzir a sonoridade marcada pelo improviso, e repleta de camadas sobrepostas, a uma notação musical. A tarefa foi concluída postumamente e chegou em dois volumes, num misto de songbook e biografia. Acompanharam as letras as linhas de baixo e as melodias em forma simplificada, sem os detalhes dos arranjos, sempre diferentes a cada apresentação de Itamar e companhia.

“Fui praticamente contratado para improvisar”, chega a confessar o guitarrista e jornalista Luiz Chagas, integrante da Isca de Polícia desde sua criação. “Nos primeiros discos o Itamar tinha tudo na cabeça, cada nota, cada silêncio. Depois ele nos deu mais liberdade e chegava só com a letra e a melodia prontas e nos deixava à vontade para criar os arranjos em conjunto”, esclarece.

Foram assim, a partir de gravações de letra e melodia, voz e violão, feitas por Itamar antes da morte, que se conceberam os discos de músicas inéditas. “A dificuldade foi caçar tudo o que ele tinha deixado registrado em alguns estúdios”, revela Anelis. “A facilidade é que esses estúdios são de pessoas próximas e amigas que se colocaram a disposição para que isso acontecesse”, diz ela, que junto com a irmã e também cantora, Serena, e a mãe, Elizena, se encarregaram de unir e pré-selecionar todo o material. O primeiro passo foi converter os diferentes formatos antigos, como DAT e cassete, em um único compatível. A etapa seguinte ficou a cargo de Beto Villares e Paulo Lepetit, que fecharam o repertório e produziram respectivamente Pretobrás II – Maldito Vírgula e Pretobrás III – Devia Ser Proibido, concluindo assim a trilogia deixada em aberto pelo compositor com o álbum Pretobrás (1998).  

     

Shows

Itamar Assumpção gravou a maior parte do primeiro disco Beleléu, leuléu, eu (1980) sozinho, revezando-se entre baixo, percussão, guitarra e vocal. Ele escalou mais alguns parceiros para completar o som no estúdio, mas a reunião da banda Isca de Polícia se deu mesmo somente depois, em decorrência da necessidade de se apresentar em palco. De distribuição precária, a maneira privilegiada de se fruir um disco do Itamar foi através de seus shows, que exigiam grande cumplicidade da platéia em torno da teatralidade de Nego Dito, alter-ego criado por Itamar, centro gravitacional das letras das canções, compostas como uma peça acusatória do marginal que se defende em público.  

Feito metade por músicas de diversos autores, metade por composições do próprio Itamar, o  disco As próprias custas sA (1982), por exemplo, possui canções como “Amanticida” e “Denúncia dos Santos Silva Beleléu”, esse o nome da mulher do desgraçado Nego Dito. Apresentado como um programa radiofônico chamado “Mais lenha nesse inferno”, o disco foi gravado de uma só vez, ao vivo, na sala Guiomar Novaes, da Funarte, em São Paulo, no dia das primeiras eleições gerais após a ditadura militar (uma segunda-feira). Registrado na íntegra e armazenado no arquivo da Funarte, já se especula, segundo Luiz Chagas, um possível DVD da apresentação. "A ideia é sempre fazer mais", diz o jornalista.

Tido como líder da famigerada Vanguarda Paulista, aquartelada no teatro Lira Paulistana, na Vila Madalena, Itamar foi o mais paulistano dos paranaenses. Nasceu próximo a Londrina, um pólo teatral brasileiro já nos anos 1960. Lá, ocorreu o episódio recontado inúmeras vezes por ele mesmo. Aos 23 anos Itamar foi preso enquanto esperava um ônibus, acusado injustamente de ter roubado o gravador emprestado que carregava. Passou cinco dias na cadeia apinhada de negros como ele. A experiência foi uma espécie de epifânia, que aliada ao envolvimento juvenil no teatro e ao ritmo do atabaque que tocava no terreiro onde seu pai foi pai-de-santo, marcaria suas composições, mesmo que ele não assumisse assim. Quanto à abordagem de Itamar, Paulo Leminski escreveu no texto que acompanhava o disco Intercontinetal! Quem diria! Era só o que faltava! (Continental, 1998 - rara excessão a sair por uma gravadora): Marginalidade de músico, sobretudo de músico de vanguarda, de uma vanguarda onde a extrema criatividade nunca esteve afastada da mais ampla e funda capacidade de comunicação, uma vanguarda popular.   

Com o lançamento da Caixa Preta – na verdade cor de abóbora, como nos aviões – ficou mais simples adquirir os cultuados álbuns de Itamar. Nem por isso a força teatral emanada pelas músicas deixam de receber o impulso das apresentações ao vivo. Durante o mês de outubro, numa seqüência de 12 shows, cada um dos albuns é apresentado na íntegra. Sobem ao palco do Sesc Pompéia para homenagear Itamar Assumpção além das filhas e da irmã, a atriz e cantora Denise Assumpção, artistas como Lenine, Bnegão, Elke Maravilha, Alzira Espíndola, Tetê Espíndola, Mariella Santiago, Chico César, Karina Buhr, Jards Macalé, Zezé Mota, Andréia Dias, Arnaldo Antunes, Kiko Danucci, Elza Soares, Zélia Duncan e Naná Vasconcelos, entre outros.

É impressionante o número de pessoas, gente da música ou não, mobilizados por Itamar Assumpção e seu “manancial criativo”, como diagnosticou Luiz Tatit, professor de lingüística da USP e guitarrista do Grupo Rumo, que analisou a obra do Itamar disco a disco. Em um mundo cada vez mais descentralizado, onde circuitos alternativos de troca de informação, como a internet, proporcionam que a música independente tome conta dos espaços e mude a indústria cultural em si, a obra de Itamar Assumpção parece atingir o auge de seu alcance e reconhecimento. Nesse viés, é impressionante, por exemplo, a riqueza de material sobre ele que se pode encontrar no Youtube.  Desses vídeos, confira abaixo o preferido de Anelis Assumpção e trechos dos shows do SESC que já rolaram. Confira aqui a programação dos que ainda vão rolar.




 





 

Comentários (1)
Alberto Soares - 06/08
Caixa Preta é coisa fina. Homenagem a um dos maiores talentos na nossa MPB!
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