Por Bia Carrasco
Na foto, Criolo
“Não existe praia pra afogar minha sede. Eu encho a cara, eu picho a parede” disse Rita Lee sobre São Paulo, cidade que tem gente daqui e de lá, que abriga cores, rostos e culturas de diferentes lugares do Brasil e do mundo.
Cosmopolita e multicultural, a capital paulista é berço de uma cena musical que, assim como as suas luzes, nunca descansa.
Músicos, compositores e bandas de diversos estilos expressam a paixão (e o ódio) por sua terra por meio de notas musicais que retratam a tensão e o cotidiano de suas paisagens urbanas.
Berço de artistas que entraram para a história da cidade, como Walter Franco, Paulo Vanzolini (com a clássica composição "Ronda") e Inezita Barroso, não é de hoje que as esquinas e bares inspiram versos que ganharam a voz de, inclusive, músicos de outros lugares do país.
"São Paulo é a cidade mais cantada do mundo. Cidade nenhuma até hoje recebeu tantas homenagens musicais. É impossível ficar indiferente a quem por ela passa, e as cerca de 3 mil músicas mostram isso. Os ritmos e gêneros musicais pululam em Sampa, contando sua história de todas as formas", comenta o jornalista Assis Ângelo, responsável por um trabalho de pesquisa sobre a memória musical da metrópole, que resultará em um livro intitulado Roteiro Musical da Cidade de São Paulo, Pequena Enciclopédia da Música Brasileira.
Curador da exposição "Roteiro Musical da Cidade de São Paulo", no Sesc Santana, zona norte, o jornalista apresenta seu trabalho, acompanhado por um ciclo de shows que homenageiam o 458º aniversário da cidade.
Para apresentar seus últimos 100 anos de história, foram reunidos – além de composições feitas especialmente para a metrópole –áudios, discos raros, partituras, fotografias, desenhos, matérias de jornais, depoimentos, entre outros documentos.
Paralelo a esse evento, também acontece o São Paulo Representa, em que 26 espetáculos musicais invadem a Sala Funarte Guiomar Novaes, nos Campos Elíseos.
Composto por músicos ativos na cena paulistana, o projeto faz um panorama musical da cidade que respira (e inspira) diferentes artistas. "Pensei que seria interessante fazer um festival que reunisse as bandas paulistanas, pois são muitas boas, e a produção é muito grande", conta Belma Ikeda que, junto a Giovane Schiazini, fez uma pesquisa para identificar os músicos em destaque na cidade, reunindo artistas como Criolo, Kamau, Instituto, Pélico e Guizado.
Homenagens que vêm desde o Império
Em seu trabalho, que já soma 22 anos de pesquisa, Assis Ângelo identificou a primeira composição destinada à cidade, datada de 1750.
"O Correio Paulistano, por exemplo, edição de 6 de agosto de 1862, noticiou a existência do álbum Melodias Paulistanas, contendo 12 peças para canto e piano, do padre Mamede José Gomes da Silva", conta o jornalista ao comentar que, antes de Mamede, os religiosos Calixto e Anchieta Arzão louvaram a cidade com a música Missa a São Paulo, de 1750.
Entre partituras, notas em periódicos extintos e canções recentes, o acervo conta com cerca de 3 mil títulos musicais, todos abordando a metrópole. "Os artistas que têm composto para Sampa são de quase todas as partes do país", diz Assis ao citar nomes como os cariocas Chiquinha Gonzaga e Lamartine Babo, o paraense Billy Blanco, o pernambucano Luiz Gonzaga, os mineiros Hervê Cordovil e Téo Azevedo, dentre outros artistas internacionais, como o egípcio Peter Alouche e o uruguaio Taiguara, naturalizados brasileiros.
Criolo: do Grajauex para o Brasil
Das letras de consagrados rappers paulistanos, como Mano Brown, Emicida, Rappin' Hood e Sabotage, que exibem a realidade dura de uma babilônia que segrega sem piedade, um novo nome emerge para conquistar não só o público de São Paulo, mas de todo o Brasil: Criolo.
Apesar de chegar ao grande público em 2011, com o álbum Nó na Orelha, o paulistano que cresceu no bairro do Grajaú, extremo sul da capital, carrega mais de 20 anos de produção musical.
Conhecido antes como Criolo Doido, o músico gravou o disco Ainda Há Tempo e sempre foi ativo em sua cena musical.
De sensibilidade ímpar, Criolo recebeu homenagem de Chico Buarque em sua mais recente turnê.
Suas rimas são um golpe de realidade ao ouvinte, ao trazer as angústias da periferia e a rotina da cidade que parece não ter amor. “A construção das músicas funciona da seguinte forma: as letras têm que dar uma sarrafada na cabeça de quem ouve. Uma música pode derrubar uma nação. E levantar outra”, disse o músico em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.
Pélico, "não dá para cantar o amor de salto alto"
“São dezesseis músicas de amor. Ou melhor, desamor. Não, de solidão. Quer dizer, de esperança. Ou melhor, desapego. Ou pior, de saudade. Minto, de verdades”, define a cantora Tulipa Ruiz sobre o álbum Que Isso Fique Entre Nós, do músico Pélico.
Para dar forma ao disco, que foi lançado em 2011, o cantor e compositor ficou recluso durante um mês em Buenos Aires, na Argentina.
Produzido por Jesus Sanchez (Los Pirata), o trabalho traz os sons de sopro e violino feitos por Bruno Bonaventura e nomes como Régis Damasceno (Cidadão Instigado), Richard Ribeiro (SP Underground), João Erbetta (Los Pirata), Tony Berchmans e Guilherme Kastrup.
Paulistano da zona leste, filho de costureira e de contador, Pélico afirma que "não dá para cantar o amor de salto alto" quando indagado sobre a sua amplitude de vozes que soa como esquizofrenia, descrita positivamente por Tulipa.
Com três EPs e dois CDs gravados, seus arranjos criativos, que misturam diferentes sonoridades, têm impressionado crítica e público.
Danilo Moraes e o cotidiano urbano
“Lá vai o poeta, sua cura, viatura, quem atura não sossega. Outra noite inteira, com os mendigos, com os noinhas, com os policias. Na delega”, canta Danilo Moraes pela capital paulistana, no centro ou na periferia, porque “Na volta do Pari, parou no Seu Bidu, o botequim mais pé de boi. Perto do metrô ...”.
Paulistano de letra e sonoridade, o músico leva às suas composições os diferentes signos que habitam a metrópole.
Em seu mais recente projeto, intitulado Danilo Moraes e os Criados Mudos (Guilherme Kastrup na bateria, percussão e MPC; e Zé Nigro no baixo e teclado), as canções trazem versos bem-humorados, alegres ou melancólicos, que delineiam o cotidiano urbano.
Lançado em 2011, o álbum do grupo apresenta composições inéditas e a participação de nomes como Zeca Baleiro e Chico César, além de músicos da nova safra, como Céu, Rodrigo Campos, Anelis Assumpção, Thalma de Freitas, Giba Nascimento e Chico Salem.
Eclético e com arranjos criativos, o disco mistura a tradicional música brasileira ao som de sintetizadores e samplers.
Apesar do lançamento recente, não é de hoje que Danilo segue a carreira musical. Entre os projetos dos quais participou, está a composição de diversas canções que ficaram conhecidas, como o xote "Beijo Roubado", que, em 2000, foi gravada pelo grupo Rastapé, e "Mais um Lamento", feita em parceria com a cantora Céu para seu álbum de estréia.
Transgressão e comunicação: o rock de Vespas Mandarinas
Eles são fãs declarados do rock nacional de baluartes, como Paralamas do Sucesso, Titãs, Lobão, Ira! e Legião Urbana.
Eles também vêem nesse estilo musical a mesma capacidade de transgressão e comunicação do passado, apostando na retomada da importância das letras e abraçando, sem medo, o universo lírico.
A banda Vespas Mandarinas, formada por Chuck Hipólitho, Thadeu Meneghini, André Dea e Flavio Guarnieri, faz música para as massas (sem demérito), em contraponto à percepção da atual cena indie.
O primeiro EP, Sasha Grey, foi lançado no início de 2011 e já embala o público com canções como "O Inimigo".
Rodrigo Campos: de São Mateus para o centro
Se a Avenida Aricanduva, na zona leste de São Paulo, é conhecida por suas enchentes e congestionamentos, na música de Rodrigo Campos ela ganha uma nova atmosfera: um cinza realista com um quê de poesia.
Compositor e instrumentista, Rodrigo começou tocando cavaquinho e percussão nas rodas de samba de São Mateus, lugar onde cresceu.
Além de ter suas composições gravadas por artistas como Quinteto em Branco e Preto, Fabiana Cozza e Luisa Maita, o músico acompanhou a gravação e shows de nomes de destaque como Altamiro Carrilho, Herbie Hancock, Céu e Criolo.
Pra falar de seu lugar de origem, o artista contou com Beto Villares para a produção de seu primeiro álbum, São Mateus Não é um Lugar Assim tão Longe, lançado em 2009.
Além de faturar o Troféu Cata-Vento, prêmio da Rádio Cultura, na categoria de Melhor Disco de 2009, foi eleito pelos jornais O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo, O Globo e Jornal ABC (Porto Alegre) como um dos dez melhores álbuns de 2009.
Junto aos compositores Kiko Dinucci, Romulo Fróes e o contrabaixista e produtor Marcelo Cabral, lançou, em 2011, o álbum Passo Torto.
Seu segundo disco solo, Bahia Fantástica, está em processo de finalização, com previsão de lançamento para o início de 2012.
Marginals: sonoridade livre para interpretações
Eles se reuniram pela primeira vez em 2010, sem nada combinado, para simplesmente tocar. De um acaso improvisado, o trio Marcelo Cabral (baixo acústico), Thiago França (saxofone, flauta, EWI) e Tony Gordin (bateria) acabaram dando forma ao grupo Marginals.
O som é um jazz que parte de ideias soltas e constrói as canções de modo coletivo, ao invés de partir de algo predefinido para depois desconstruí-lo.
Em um passeio pelo groove, ora coberto por camadas de abstrações sonoras, ora por melodias marcantes, surge o primeiro álbum, sem nome e com faixas identificadas como "partes".
A intenção é não direcionar o ouvinte, abrindo espaço para interpretações pessoais. A divisão das músicas, feita de forma quase didática, apresenta ideias que podem ter começo, meio e fim, ou simplesmente representar uma transição de pensamentos.
Guizado: trompete e arranjos urbanos
A paixão pela música começou cedo, quando, aos 11 anos, começou a ouvir a coleção de vinil de seu pai e a comprar seus próprios discos.
A MPB, o jazz, a música erudita e o rock acabaram levando-o a frequentar escolas de música para aprender guitarra e bateria.
A identificação com o som do trompete veio ao encontrar o instrumento que pertencia ao avô de um amigo, que estava esquecido em algum canto da casa.
Após arriscar improvisos ao som da vitrola, ele encontrou o caminho da escola de música Groove, cujo dono, Leyve Miranda, "era muito severo mesmo, mas não de uma forma careta e conservadora".
O gosto pela música foi aumentando, até que resolveu cursar uma faculdade na área e firmar sua carreira como músico.
Paulistano do bairro de Pinheiros, Guilherme Mendonça, ou melhor, Guizado, cresceu na década de 1990, circulando pelas ruas das rendondezas.
Nesse vai e vem com a turma, viveu situações que o inspiraram a compor músicas que foram parar em seu primeiro álbum solo, Punx (2008). "Esse disco tem muito dessa energia, dessa coisa de turma de rua, seja na música, no skate, nos desenhos...", lembra o músico.
Nesse álbum, o som dos trompetes e os riffs pesados ganham uma atmosfera eletrônica que soam como trilha sonora das paisagens urbanas da metrópole.
No disco seguinte,
Calavera (2010), os arranjos recebem um tom mais suave e vocais que se misturam aos instrumentos, no mesmo plano.
Além dos diferentes recursos utilizados, Calavera carrega experiências pessoais do músico, que o levaram a dar um tom mais melódico a esse trabalho. "Minha mãe faleceu no mesmo ano em que entrei para gravar o disco. Amplidão, a música que abre o disco, foi composta em dedicação a ela, e todas as outras têm esse espírito mais suave, mais etéreo", revela Guizado sobre o álbum que é repleto de camadas sonoras.
O nome escolhido para o álbum ("caveira", em espanhol) surgiu quando o músico folheava um livro sobre a artista plástica mexicana Frida Kahlo.
Além do nome intenso e condizente com o momento que vivia, Guizado também se encantou com a referência à cultura latina e à festa do Dia dos Mortos, tradicional no México. "Fui buscar novas linguagens, novas ideias, e encontrei isso [o nome Calavera] em diversos lugares, e todos possuíam um certo sentimento familiar, como a música mexicana, a nordestina, a dos ciganos... Existe uma certa familiaridade entre esses povos, um certo lamento que está presente em várias culturas, mas que possuem um laço entre si. E o nome Calavera de uma certa forma representa isso", explica.
Sobre a adição do vocal, inexistente em Punx, o músico conta que partiu da necessidade de comunicação direta.
Partindo da linguagem abstrata e instrumental, Guizado encontrou também na escrita um modo de relacionar a poesia ao som, pois, segundo ele, "se a voz pode cantar um verso com melodias, um instrumento também pode tocar melodias como quem recita um poema. É um jogo muito interessante".
Dessa poesia transformada em música, Calavera rendeu o prêmio de Melhor Álbum de Música Eletrônica no Prêmio de Música Brasileira de 2011.
Em composições que vão contra os hits da cena, ele vê a premiação como uma visão nova e mais ampla do eletrônico. "Esse setor me inspira muito, está mais ligado às culturas de rua, e por isso é mais livre, desenvolve-se e transforma-se com muito mais velocidade", observa ele ao comentar que é apaixonado por recursos como samplers, baterias eletrônicas e sintetizadores.
Guizado já fez parceria com músicos como Elza Soares, Karina Buhr e Céu, que seguem tendências sonoras que apontam para outras direções.
Essas combinações inesperadas, segundo ele, foram a prova de uma de suas conquistas mais difíceis: imprimir uma marca individual.
Festival São Paulo Represent
Quando: De 2/12/11a 24/3/12 Sextas e sábados, às 19h30
Onde: Sala Guiomar Novaes - Al. Nothmann, 1058 - Campos Elíseos- SP http://www.saopaulorepresenta.com.br/
Roteiro Musical da Cidade de São Paulo
Quando: De 25/01 a 02/04 Terça a sábado, das 10h às 21h. Domingos, das 10h às 17h.
Onde: Sesc Santana - Av. Luiz Dumont Villares, 579 - Santana - SP
Tel.: (11) 2971-8700