Olá Visitante, seja bem vindo!
Faça Login ou Registre-se
Artes
Filmes e Séries
Literatura
Música
Quadrinhos
Home > Para Ler > Matérias
Na fronteira entre a arte e o alimento27. 01. 2012
Artes
divulgação
 
Por Bia Carrasco
Ao lado, a fotografia Chinese Junk, produzida pelo artista britânico Carl Warner
 
Imagine-se acordando um certo dia e, ao percorrer a cidade, você começa a se dar conta de que as árvores são brócolis gigantes, os prédios são feitos de biscoitos empilhados e as nuvens são couves-flor que flutuam no céu.
 
Essa cena poderia fazer parte de um quadro surrealista a la Salvador Dali, mas o material utilizado para dar forma a esses objetos não é a tinta, e sim o próprio alimento.
 
Lamber uma escultura, comer uma tela ou devorar uma instalação. A tendência de fazer arte utilizando a comida como matéria prima é uma corrente que teve seus primórdios na década de 1960.
 
 
Intitulado Eat Art (Comer Arte), o movimento chegou para transgredir, ao mesmo tempo, dois velhos conceitos: não se brinca com comida e não se toca em arte.
 
Entre aromas, cores e texturas, os artistas buscam um novo modo de representação, ao refletir sobre a sociedade pós-contemporânea, sua efemeridade e o consumo da obra artística.
 
Mais conhecida no exterior, a França é um dos países que adotou a estética, chegando a destinar uma galeria em Paris apenas para esse tipo de produção.
 
No Brasil, as redes sociais ajudam a disseminar o trabalho de alguns artistas. Para uma reflexão mais séria sobre o assunto, até o mês passado, foi realizado o projeto Comendo com os Olhos, no Sesc Santana, na capital paulista, que discutiu e relacionou os diferentes campos que utilizam a comida como material.
 
Segundo Fernando Marinelli, da Coordenação de Programação Artística do evento, "o que existe é uma crescente cultura da gastronomia, por um lado, e a tentativa das artes plásticas e visuais de romper com os cânones estéticos modernistas por outro lado. Estamos, portanto, falando de, no mínimo, dois campos diferentes, e a proposta do evento foi colocar algumas questões a respeito da intersecção entre essas áreas”.
 
Paisagens comestíveis
 
Carl Warner é um fotógrafo britânico que tem fome de imagens. Famoso por compor cenários utilizando comida, seu trabalho, denominado foodscapes (paisagem de alimentos), reúne fotos em que todos os elementos são construídos com produtos alimentícios.
 
Num complexo processo de produção, Carl escolhe os componentes minuciosamente e os disponibiliza sobre mesas de 1,2m por 2,4m.
 
Para ganhar profundidade e realismo, as fotos são registradas rapidamente, em camadas, evitando que a comida perca a característica.
 
O resultado final é uma imagem que desafia a realidade, ao transmitir a impressão de ter sido criada por computação gráfica ou tinta acrílica.
 
Mais do que uma simples forma de nutrição, a comida emerge com diferentes significados imaginários.
 
Para Fernando, a diferença entre uma tela tradicional e uma instalação a la Eat Art é que o alimento desperta uma situação com que as pessoas se identificam tanto no contexto social e cultural quanto no afetivo. “O diferencial, dentro do campo propriamente artístico, é propor, através de princípios formais, uma série de discussões sobre a sociedade contemporânea e a produção artística, como o consumo de arte, a interação do público, a efemeridade da obra, entre outras questões”, observa o coordenador.
 
Garlicshire, de Carl Warner
 
Surrealismo precoce
 
A relação entre arte e comida tem suas raízes fincadas já em telas de meados do século 16. Apesar de utilizar a tinta acrílica como material, o pintor Giuseppe Arcimboldo revolucionou sua época ao criar retratos a partir de um mosaico-imagem.
 
O italiano pintou a série As Quatro Estações, em que utilizou frutas, verduras e flores para compor fisionomias humanas.
 
Em um de seus quadros, o Vertumnus, o imperador Rodolfo II é retratado com nariz de pera, pescoço de berinjela, cabelo de cachos de uva, sobrancelha de ervilha, bochechas de maçã, entre outros alimentos.
 
Rejeitado pelos artistas clássicos de sua geração, Arcimboldo deu cor a uma vanguarda que ganharia força séculos depois: o Surrealismo.
 
Vertumnus, de Giuseppe Arcimboldo
 
Brincando com comida
 
Lembra daquela frase da sua mãe, “não brinque com a comida”? Joost Elffers e Saxton Freymann são dois exemplos que ignoraram isso.
 
Autores de diversos livros infantis, entre eles o famoso How Are You Peeling? (Como Você Está Descascando?, trocadilho com a frase 'how are you feeling', em português, 'como você está passando?'), eles encantam também os adultos com as imagens que transformam comida em diferentes personagens.
 
Com o intuito de estimular as crianças a adotarem uma alimentação mais saudável, o resultado são obras criativas, repletas de cores e situações.
 
Capa do livro How Are You Peeling?, de Joost Elffers e Saxton Freymann
 
No caso de Akiko Ida e Pierre Javelle, os alimentos tomam dimensões gigantescas ao serem utilizados como cenário para bonecos em miniatura. Registrados por meio da fotografia, são retratadas diversas situações, que nos remetem aos universos criados no imaginário infantil.
 
Cenários produzidos por Akiko Ida e Pierre Javelle
 
Na cultura japonesa, a estética da comida é levada tão a sério, que até mesmo nas famosas “marmitas” ou “quentinhas” o alimento é transformado em arte.
 
Conhecida como Bento Art, as refeições são disponibilizadas em potes, e os ingredientes formam cenários e imagens.
 
No Japão são realizados, inclusive, concursos para escolher os melhores artistas dessa vertente.
 
Exemplo da Bento Art, forte tendência no Japão
 
Falando em oriente, o chinês Song Dong é outro que ganhou destaque, tornando-se um ícone da arte conceitual de seu país.
 
Ao abordar a questão da modernização da China e suas consequências, Dong utiliza materiais industriais que estão ligados ao consumo pós-contemporâneo.
 
Em 2006, ele decidiu usar biscoitos para montar uma instalação, no projeto intitulado Eating the City (Comendo a Cidade).
 
Com 72 mil biscoitos, ele reproduziu uma cidade tradicional chinesa, ao lado de uma moderna. Para colorir e dar forma ao ambiente, foram usados diferentes tipos e sabores da iguaria.
 
Instalação Eating the City, do chinês Song Dong
 
De um doce tão doce, um retrato

Apesar de incomum no Brasil, a Eat Art possui adeptos que levam seus estilos e histórias de vida à composição de suas artes.
 
Um bom exemplo é um ateliê que chama a atenção na esquina da Rua Bela Cintra com a Alameda Lorena, em São Paulo. Seu proprietário, o artista plástico Roberto Camasmie, é conhecido na high society paulistana por criar retratos de diversas celebridades.
 
Em seu trabalho, a comida passou a tornar-se arte após o falecimento de sua mãe. Ela era doce, tão doce, que Camasmie não encontrou outra maneira de homenageá-la no Dia das Mães de 2005, por isso criou o seu retrato utilizando chocolate.
 
“Era o primeiro ano sem ela, então esse foi o meu primeiro trabalho, o ponto central. Tudo foi feito a mão e sombreado com chocolate derretido”, explica o artista, que utilizou outros materiais, como flores de pasta americana, gomas, açúcar cristal colorido, glacês e miçangas.
 
Após abrir o projeto, intitulado Mães de Chocolate, com o retrato de sua mãe, o artista plástico ainda deu nova forma ao rosto de famosas como Cláudia Raia, Regina e Gabriela Duarte, Irene Ravache e Adriane Galisteu.
 
A ideia fez sucesso e acabou abrindo as portas para outra série de retratos. Dessa vez, os homenageados foram os pais, e a tinta, o vinho. “O vinho foi escolhido para retratar os pais porque é uma bebida bem masculina”, explica Camasmie. Entre os retratados está o seu pai, Jaime Camasmie, e nomes como o chef Alex Atalla, Gugu Liberato e Tom Cavalcanti.


 
Comentários (0)
Comente você também!
Nome

Mostrado junto ao comentário
Email

Não mostrado junto ao comentário
Postar Comentário
CAPTCHA
Copie os caracteres que
aparecem na figura ao lado

Notícias
Visite nosso site de vendas
Arquivo
powered by Brado! Networks