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A ficção científica abaixo da linha do Equador04. 04. 2012
Literatura
Divulgação
O Eternauta
Por Marcelo Rafael

O mundo está em perigo e os Estados Unidos estão prontos para salvar o dia. O país está a postos para deter uma invasão alienígena, impedir a colisão de um meteoro, colonizar outros planetas ou simplesmente explorar o espaço sideral ou outras dimensões.
 
Você já viu esse filme. Mas e se os alienígenas invadissem a América do Sul? E se a Argentina fosse atacada ou naves extraterrestres surgissem nos céus de Brasília ou do Rio de Janeiro?

A ficção científica na América Latina é prolífica desde o século XIX, mas somente agora começa a ganhar um pouco mais de credibilidade e aceitação junto ao público.

Pela mesma época que Oscar Wilde criava seu Retrato de Dorian Gray, Machado de Assis escrevia, no Brasil, em 1882, sobre uma poção indígena milagrosa que tornava um homem imortal e livre de envelhecimento e de agressões.
 
Mas, ao contrário do que ocorre na história de Wilde, o autor brasileiro especula que essa droga da imortalidade poderia advir dos avanços científicos.
 
No início do século XX, Lima Barreto apresentou um homem da Ciência (um químico, e não um alquimista) que tentava transformar substâncias em ouro, e até o modernista Menotti Del Picchia deu sua contribuição ao gênero de fantasia/ficção científica com República 3000 (ou A Filha do Inca).
 
Nos anos 50, na Argentina, dois mestres dos quadrinhos narraram a história de uma misteriosa nevasca em Buenos Aires que matava pelo simples contato com a pele. O Eternauta fez bastante sucesso na Argentina, mas tornou-se obra rara, com edições clandestinas, durante a Ditadura.
 
Apesar de ter importância histórica, apenas recentemente ele foi retomado como assunto por lá. Em fevereiro deste ano, uma versão encadernada foi lançada no Brasil pela Martins Fontes.
 
Já as histórias nacionais permanecem desconhecidas para o público em geral e mesmo para os consumidores de ficção científica. Parte desse desinteresse advém da massiva entrada de produtos culturais estrangeiros no país. “Temos a tradição de nos acomodar com o que vem dos Estados Unidos”, avalia Paulo Ramos, jornalista, professor universitário e especialista em quadrinhos.

Já para Douglas Quinta Reis, sócio da editora Devir, o problema não é a influência externa, mas sim uma questão cultural brasileira.
 
A Devir já publicou, entre quadrinhos e romances, mais de 50 livros no gênero e possui até um selo exclusivo para ficção científica, o Pulsar.
 
Por esse selo foram publicados os contos de Lima Barreto e Machado de Assis, nas antologias Melhores Contos Brasileiros de Ficção Científica e Melhores Novelas Brasileiras de Ficção Científica.
 
Os romances nacionais Taikodom (que também é jogo e HQ) e as séries Incal e A Casta dos Metabarões, escritas pelo chileno Alexandro Jodorowski e pelo francês Moebius, também foram lançados no Brasil pela Devir.
 
Reis acredita que a falta de crença do povo brasileiro em si mesmo reflete na credibilidade de um produto cultural de ficção científica. Segundo ele, a mentalidade parece seguir a lógica de que, “se houver uma invasão, porque invadiriam logo o Brasil?”. 
 
Dessa forma, o público teria resistência em acreditar que o país seria protagonista de uma reviravolta mundial. “Quando se faz algo em que alguma coisa importante acontece no Brasil, a história não parece crível para quem está lendo. E se disser que o Brasil salvou o mundo de uma invasão alienígena, aí, pior ainda. Não vão acreditar nunca”, considera Reis.

Outro motivo para a resistência do público seria o modo de encarar a ciência e a tecnologia nacionais, mais do ponto de vista de um país exportador de commodities do que de produtor de eletrônicos e gadgets de última geração.
 
Roberto Causo, editor, pesquisador e autor de ficção científica brasileira cita os exemplos dos inventores Santos Dumont, que foi atacado pela imprensa ao retornar ao Brasil, e do padre Landell de Moura, pioneiro da tecnologia radiofônica no século XIX, ridicularizado pela sociedade, pelo governo e pela própria Igreja em seu tempo.
 
Mas os empecilhos também podem ser a solução. Reis cita o exemplo de super-heróis brasileiros que fizeram algum sucesso: o Overman, de Laerte, e o Quebra-Queixo, de Marcelo Campos.
 
Ambos são comédias que riem da situação nacional. “A gente não acredita num Brasil organizado. O trânsito não funciona, o transporte coletivo não funciona. Se é um milagre São Paulo continuar funcionando, algum mérito a gente tem. Mas a gente costuma só ver o lado ruim, só o que não funciona”, considera Reis.

Viajante do tempo na Argentina e efeitos especiais em São Paulo

Essa sincronia com os problemas locais é um dos méritos de O Eternauta. Com uma narrativa envolvente, a HQ conseguiu falar diretamente aos argentinos misturando referências históricas e coisas corriqueiras do cotidiano, criando identificação.
 
O estádio do River Plate como era na década de 50 vira uma dos quartéis-generais da resistência argentina à invasão
Os personagens de O Eternauta passam por pontos facilmente reconhecíveis para o leitor argentino, como o estádio do River Plate, sede da resistência à invasão, a Avenida General Paz e a região burguesa de Vicente López. Algo que acontece com as histórias dos vampiros brasileiros de André Vianco.

O professor de espanhol para brasileiros Ramiro Carlos Caggiano Blanco conheceu O Eternauta aos 16 anos, em uma reedição de 1982.
 
Ao acompanhar os eventos ocorridos em Buenos Aires, Blanco reconhecia os caminhões, as roupas da época e a máscara de mergulho que usava quando era criança. Tudo isso em meio a lança-raios e naves espaciais. 
 
“Quando eu via os caras entrando numa casa e, na cozinha, tinha uma pia quadradona e alta e que era exatamente igual a uma que estava jogada no quintal da casa e que era antiga pra caramba, eu via como uma ficção científica ‘real’”, diz Blanco, que é argentino.

“No momento, estamos muito preocupados em acompanhar os últimos modismos internacionais, mas, cedo ou tarde, esta prática da ficção científica de extrapolar e especular sobre o futuro vai ter que mudar”, afirma Causo. Com otimismo, Reis acredita que pode levar ainda mais uma geração, mas essa nova perspectiva vai chegar.
 
 
Comentários (1)
Alexandre A. de Souza - 05/04
Acabei de comprar. Massa, saber que Machado de Assis escrevia, "tupinicanamente", no Brasil e em 1882, algo tão criativo quando o "Retrato de Dorian Gray" (de Oscar Wilde)...
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