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Cannes chega aos 65 anos mais conservador16. 05. 2012
Filmes e Séries
Divulgação
Kristen Stewart em cena de 'Na Estrada', longa de Walter Salles
Por Bruno Ghetti
 
Nesta semana, o Festival de Cinema de Cannes chega à sua 65ª edição, ainda firme como o principal festival cinematográfico do mundo.
 
Em 2012, são 23 os filmes na disputa pela Palma de Ouro – prêmio máximo do evento –, inclusive o aguardado Na Estrada, do brasileiro Walter Salles.
 
A decisão pelos melhores da competição ficará a cargo do júri liderado pelo ator e cineasta italiano Nanni Moretti. O veredito será revelado no próximo dia 27.

Verdade seja dita: Cannes nunca teve tanto glamour como a festa do Oscar, poucas vezes apresentou o mesmo viés político do Festival de Berlim e nem sempre priorizou as inovações estéticas, como é hábito no Festival de Veneza.
 
Mas como nenhuma outra premiação, aliou de maneira extremamente harmônica estes três elementos: glamour, politização e arrojo estético.
 
Por tabela, conseguiu admiradores em três esferas importantíssimas para o sucesso de um festival: o mercado, os intelectuais engajados e os artistas. Tornou-se, assim, o suprassumo do prestígio em termos de reconhecimento cinematográfico.

Essa excelente reputação não foi algo que surgiu de uma hora para outra: veio ao longo dos anos, em uma trajetória admirável. Por exemplo, foi naquela cidadezinha mediterrânea que alguns dos filmes mais importante da história foram exibidos pela primeira vez, como O Leopardo (1963), de Luchino Visconti, Apocalipse Now (1979), de Francis Ford Coppola, ou Paris, Texas (1984), de Wim Wenders.
 
Foi na agradável avenida à beira-mar (chamada Croisette) da cidade que o Brasil viu o seu maior triunfo cinematográfico: a Palma de Ouro a O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte, em 1962.
 
Também foi nas ruas (e salas) do balneário francês que alguns dos grandes debates estéticos do cinema aconteceram: em 1960, por exemplo, houve uma polarização entre os defensores de A Doce Vida, de Federico Fellini, agitada visão sobre a decadência burguesa, e A Aventura, de Michelangelo Antonioni, introspectiva reflexão sobre o mesmo tema (na época, Fellini se saiu melhor e levou a Palma de Ouro para casa).
 
Já em 1964, a rixa foi entre os partidários de Glauber Rocha e seu radical Deus e o Diabo na Terra do Sol e os defensores do poético musical francês Os Guarda-Chuvas do Amor, de Jacques Demy (que ganhou o grande prêmio naquele ano, para a ira dos cinemanovistas).
 
E em tempos mais politizados, como em 1968, o cinema se tornou uma questão menor em Cannes diante dos acontecimentos políticos: o festival foi simplesmente cancelado naquela ocasião, em solidariedade aos estudantes e seus protestos de maio do mesmo ano.

Mas o tempo passou, o mundo mudou, e com Cannes não foi diferente. A cada ano, o tapete vermelho ganha ares mais hollywoodianos.
 
O evento, com o tempo, ficou cada vez mais “profissional”, com um olho nas novidades cinematográficas e o outro, talvez ainda mais aberto, voltado para o mercado.
 
Hoje em dia, filmes de cineastas obscuros tendem a ser relegados às mostras paralelas. De alguns anos para cá, só são convidados a participar da mostra competitiva diretores que possuam uma espécie de “selo de qualidade”, tendo já brilhado em algum outro festival ou premiação – de preferência, em alguma edição anterior do próprio festival francês.

Os números falam por si: em 2012, dos 23 diretores convidados pela organização de Cannes a disputarem a Palma de Ouro, 17 já concorreram ao prêmio alguma vez ao longo da carreira (ou seja, surpreendentes 74% do total).
 
Alguns têm cadeira cativa no balneário francês, como o britânico Ken Loach, que é um verdadeiro fenômeno na Croisette: já participou da mostra competitiva por dez vezes, fora os comparecimentos a mostras paralelas (ele ganhou o prêmio máximo apenas em 2006, com Ventos da Liberdade).
 
Outra figura fácil em Cannes, o austro-alemão Michael Haneke tenta pela sexta vez a Palma de Ouro (ele por enquanto só conseguiu uma, em 2009, por A Fita Branca).
 
E a 65ª edição trouxe de volta outros velhos conhecidos do festival, como Alain Resnais (que disputou a Palma de Ouro cinco vezes), Abbas Kiarostami (quatro) e David Cronenberg (três), além de Jacques Audiard e o próprio Walter Salles (ambos com duas, fora as participações em mostras paralelas).
 
Essa tendência a escolher veteranos para a disputa é um padrão que vem sendo repetido já há alguns anos. O ano passado foi atípico – eram “apenas” 12 os cineastas que já haviam concorrido, mas ainda assim eles correspondiam a 60% dos concorrentes.
 
Em 2010, ano mais representativo da tendência recente, 73,6% dos que pleiteavam a Palma de Ouro já haviam passado pelo festival anteriormente.
 
A taxa é alta: para ter uma base de comparação, tomemos, por exemplo, os dados da edição ocorrida há 20 anos, em 1992: naquela data, os novatos eram maioria (os veteranos representavam 47,6% dos concorrentes, ou 10 do total de 21 selecionados).

Os números reforçam uma certa desconfiança por parte de alguns especialistas e críticos de cinema de que, ultimamente, Cannes está deixando de ser um evento ousado, aquele que tinha a audácia de apostar em nomes desconhecidos, para se tornar mais conservador, preferindo cineastas de talento inquestionável.
 
Com a presença desses “medalhões”, o festival garantiria um suposto “alto nível” dos filmes por lá exibidos, mantendo, assim, seu prestígio inabalável.
 
“Acho que Cannes reflete o mundo do espetáculo, que está cada vez mais conservador, apesar da falsa aparência libertária. Cannes, por isso, tem se tornado cada vez mais um festival conservador, no qual faltam apostas, riscos, surpresas”, diz o crítico Sergio Alpendre, editor da Revista Interlúdio, especializada em cinema. “Está cada vez mais um festival de pré-estreias mundiais”, complementa.

Ele tem razão: Cannes tem se tornado a cada ano muito mais uma vitrine para estrelas hollywoodianas mostrarem seus novos trabalhos do que propriamente um ambiente de surgimento de novos talentos – diferentemente do festival de Sundance (EUA), por exemplo, que aposta no cinema independente.

Por enquanto, os jurados têm mantido um certo compromisso com o julgamento estético e (em geral) recompensado filmes de fato merecedores de prêmios.
 
Mas há quem diga que, até nesse sentido, Cannes não é mais a mesma. “Tudo parece comercial, voltado às vendas para as distribuidoras, às pressões que elas fazem para que seus filmes ganhem prêmios. Não confio nas premiações em Cannes”, desabafa Alpendre, que cita os festivais de Locarno (Suíça) e de Roterdã (Holanda) – este último voltado para cineastas iniciantes – como mais interessantes.

De qualquer maneira, o festival ainda tem as mostras paralelas Quinzaine des Réalisateurs (direcionada a novos diretores) e Un Certain Regard (com filmes menos comerciais) – essas inquestionavelmente menos preocupadas com grifes, mais interessadas em dar oportunidades a cineastas que possam trazer novos ares ao cinema.
 
Com bem menos visibilidade que a mostra competitiva, ali está preservada a verdadeira essência do que Cannes já representou um dia.
 
Veja a lista de filmes da mostra competitiva: 
 
After the Battle, de Yousry Nasrallah
Amour, de Michael Haneke
The Angels’ Share, de Ken loach
Beyond the Hills, de Cristian Mungiu
Cosmópolis, de David Cronenberg
De Rouille et d’Os, de Jacques Audiard
The Fog, de Sergei Loznitsa
Holy Motors, de Leos Carax
The Hunt, de Thomas Vinterberg
In Another Country, de Hong Sangsoo
Killing them Softly, de Andrew Dominik
Lawless, de John Hillcoat
Like Someone in Love, de Abbas Kiarostami
Moonrise Kingdom, de Wes Anderson
Mud, de Jeff Nichols
Na Estrada, de Walter Salles
The Paperboy, de Lee Daniels
Paradise: Love, de Ulrich Seidl
Post Tenebras Lux, de Carlos Reygadas
Reality, de Matteo Garrone
Vous n’Avez Encore Rien Vu, de Alain Resnais       
The Taste of Money, de Im Sang-Soo
Thérèse Desqueyroux, de Claud
 
Assista ao trailer de três dos filmes que participam da mostra competitiva:
 
Na Estrada, de Walter Salles
 
 
The Angels’ Share, de Ken loach
 

 
De Rouille et d'Os (Jacques Audiard)
 
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