Por Andréia Silva
Odair José é o que se pode chamar de uma antologia musical. São mais de 400 músicas e 35 discos em mais de três décadas de carreira. Não à toa, a longa obra fez o artista se questionar nos últimos anos sobre voltar ao estúdio e a necessidade de gravar algo novo.
“Depois de mais de 400 músicas, você começa a achar que aquilo não é mais tão importante. Faço shows de duas horas e ainda deixo sucessos de fora. Mas é claro que, em algum momento, eu sabia que voltaria a compor", diz Odair ao SaraivaConteúdo.
E o momento chegou. Depois de seis anos sem lançar um álbum de inéditas (o último foi Só Pode Ser Amor, de 2006), ele se deixou convencer pelo amigo Zeca Baleiro e decidiu voltar ao estúdio.
“Baleiro passou um ano tentando me convencer a gravar o disco”, diz o cantor. A insistência valeu a pena.
Praça Tiradentes é o 35º trabalho do cantor. Segundo o próprio, ele resgata “o velho Odair dos anos 70”. "Eu gosto que as pessoas se lembrem daquele Odair. Ele foi muito feliz nas escolhas que fez", diz.
O Odair de 70 consagrou o estilo brega, tornou-se cantor das empregadas e emplacou hits como "Uma Vida Só", "Deixa Essa Vergonha de Lado", "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", entre outros.
Tais letras, trazendo como protagonistas aqueles considerados marginais, renderam um apelido curioso a Odair: o Bob Dylan da Central do Brasil. O epíteto apareceu no início dos anos 70, em uma reportagem sobre o cantor no extinto jornal A Última Hora.
“Acho que tem a ver com o fato de eu sempre observar o que acontece à minha volta e expressar nas letras o que sinto sobre isso. Esse lance (do tema) social, das empregadas, talvez ela (a repórter) tenha visto uma semelhança com o Bob. Mas até hoje eu não sei ao certo o que esse apelido quer dizer", diz Odair.
Essa ligação com o popular é, aliás, o que mantém o pique do cantor. O lançamento oficial de Praça Tiradentes será neste mês, com shows no Auditório Ibirapuera, em São Paulo, nos dias 15 e 16. Depois virão Rio e outras capitais, ainda sem datas fechadas.
Ele já está contando os dias para cair na estrada e ir para a rua, lugar onde se encontra com o público, de teatros a inferninhos – locais que o próprio artista diz que adora e onde prefere tocar. “Quero é misturar o meu destino com o destino do povo”.
Memórias da Praça Tiradentes
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Intitular o novo disco de Praça Tiradentes dá um tom mais pessoal ao novo trabalho de Odair. "Eu saí lá de Goiás com meus 17 anos e, ao chegar ao Rio de Janeiro, fui morar na Praça Tiradentes", diz o músico, capaz de lembrar exatamente todos os estabelecimentos que rodeavam a praça, entre teatros, bares e a gafieira Estudantina.
Foi ali perto, logo atrás do teatro Carlos Gomes, velho ponto de encontro entre os músicos já habituados à cidade e aos recém-chegados, que Odair arrumou seus primeiros trabalhos.
Não à toa, a música "Praça Tiradentes" é uma volta ao um passado bem guardado na memória, como dizem os versos: “Guardo na minha cabeça e dentro do meu coração meus momentos de coragem, de fraqueza e solidão” e “Todo dia, qualquer hora estou presente, nas histórias da Praça Tiradentes".
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Disco Praça Tiradentes, novo trabalho de Odair José
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Parceiros e admiradores
O ineditismo de Praça Tiradentes está na assinatura de algumas canções. Pela primeira vez, o cantor grava músicas de outros compositores – no caso, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown ("Vou Sair do Interior"), Zeca Baleiro ("Como Um Filme", mais uma sobre as empregadas domésticas) e Chico César ("Você Tem Me Ensinado"). Zeca e o titã Paulo Miklos ainda dividem o microfone com Odair em outras faixas.
"Isso foi uma coisa do Zeca, que quis que eu gravasse outros compositores, como uma homenagem”.
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Odair como o sexto elemento do Mombojó, em foto para show realizado este ano
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Odair conta ainda que o fato de não gravar outros compositores foi apenas por falta de oportunidade. "Desde a minha época, me parecia que a gravadora contratava já o cantor e compositor. Não tinha muito isso de intérprete separado do compositor, eram poucos casos", diz.
Vivendo uma fase de redescoberta por artistas de gerações posteriores à sua, ele se diverte com a ideia de ter virado um ídolo cult.
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Em 2005, o tributo “Vou Tirar Você Deste Lugar”, em homenagem ao artista, reuniu 18 artistas de diferentes gerações, entre eles Paulo Miklos, Pato Fu, Mundo Livre, Jumbo Elektro, Los Pirata, Mombojó e Zeca Baleiro. Foi ali, aliás, que a amizade entre Zeca e Odair brotou.
Depois, ele dividiu palco com os mineiros do Dead Lover’s Twisted Heart em dois festivais – em 2007, em Belo Horizonte, e em 2010, em Belém – e este ano já subiu ao palco para um show em parceria com o Mombojó, em São Paulo.
“Os jovens curtem minha música”, diz. "O público jovem é que me leva a ter um olhar mais atual sobre o meu trabalho".