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Maria da Conceição Tavares: uma mulher visionária10. 07. 2012
Literatura
Agência Brasil divulgação
Presidente Dilma Rousseff e Maria da Conceição Tavares após a entrega do prêmio em Brasília
Por Cintia Lopes

Figura emblemática da economia brasileira, a professora, economista e intelectual Maria da Conceição Tavares é homenageada com o livro Desenvolvimento Econômico e Crise – Ensaios em comemoração aos 80 anos de Maria da Conceição Tavares, organizado por Luiz Carlos Delorme Prado. Para celebrar o lançamento, Delorme e os autores – os professores da UFRJ Ernani Teixeira Filho, Carlos Frederico Rocha e Carlos Medeiros, que assinam alguns dos ensaios da publicação – se reuniram num bate-papo na Saraiva do Shopping RioSul, no Rio de Janeiro.

A publicação, editada pela Contraponto em parceria com o Centro Celso Furtado, traz também depoimentos de políticos como Aloizio Mercadante, Gerson Gomes, entre outros. Todos são unânimes ao afirmar que Conceição Tavares é um dos nomes mais respeitados da Economia brasileira e que sua contribuição para a política nacional é imensurável.

E não é pra menos. Natural de Anadia, Portugal, Maria da Conceição acumula mais de 60 anos de carreira nos âmbitos acadêmico e político. Com formação em Matemática e Economia, logo se destacou no cenário por suas ideias firmes e pelo jeito direto com o qual se posiciona, seja na política ou em assuntos como futebol. Não há meias palavras. Talvez por isso tenha conquistado a admiração de muitos discípulos, como Lula, Dilma Rousseff (que a teve como coordenadora no período de mestrado na Unicamp, nos anos oitenta) e José Serra, apenas para citar alguns.
 
Para Luiz Carlos Delorme Prado, organizador da obra e professor de Economia Brasileira e História Econômica da UFRJ, Conceição também teve papel crucial em três vertentes: na formulação de políticas econômicas no Brasil como professora – formando gerações de alunos que ocuparam funções públicas –, no papel de pesquisadora, através de seus livros e artigos sobre desenvolvimento econômico, sistema financeiro e teoria econômica; e como polemista, no papel ativo em debates públicos e tendo militado tanto no antigo MDB, de Ulisses Guimarães, como, posteriormente, no PT. “Destaco dois trabalhos clássicos escritos no início de sua carreira: ‘Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações’ e ‘Além da Estagnação’, escrito com José Serra, onde formula uma hipótese sobre o dinamismo da economia brasileira na época do chamado ‘Milagre Econômico’”, enfatiza Delorme, que é ex-Diretor Presidente do Centro Celso Furtado e idealizador do projeto.
 
De personalidade forte e extremamente intensa, Conceição ficou marcada para o grande público pela forma com que defendeu as medidas econômicas do Plano Cruzado na TV durante um telejornal da Globo em 1986, ano em que era assessora do Ministério do Planejamento.
Capa do livro Desenvolvimento Econômico e Crise
 
Com lágrimas nos olhos, a economista geralmente é passional quando o assunto envolve a política brasileira. Na ocasião, chegou a declarar ao vivo na televisão: “Nunca tive motivos para me orgulhar de economistas, mas a descrença transformou-se em esperança com a formulação do plano”, contou, ao defender o plano idealizado na época por ex-alunos como Luiz Gonzaga Belluzo. “Ela tem verdadeiros fãs aficionados. ‘Tribos’ de economistas foram formadas, e eu me incluo neles. É uma influência intelectual muito grande”, confirma Ernani Teixeira, um dos autores do livro, economista e ex-funcionário do BNDES, onde trabalhou por 35 anos.

A amizade de três décadas, Ernani faz questão de cultivar com encontros quinzenais com a mestra. “Ela é de uma inteligência absurda. Conhecedora acadêmica como vi poucos nesses anos de profissão. Também tem uma visão muito particular sobre a economia. O que mais me chama a atenção é a sua capacidade de enxergar à frente, uma intuição incrível. Foi minha orientadora no doutorado”, explica.

Ernani recorda um dos episódios que estão relatados no livro e que traduz bem o espírito Conceição Tavares de ser. O ano era 1973. Ele foi um dos presentes no auditório do BNDES onde aconteceu o debate com Saburo Okita, ex-Primeiro Ministro de Relações-Exteriores do Japão. “Lembro-me da cena como se fosse hoje. A Conceição se levanta e começa a debater de igual pra igual com o Okita. Imagina? Foi uma discussão acalorada em torno da declaração que ele deu de que o Brasil de hoje seria o Japão de 1960”, recorda, entre risos.

O prestígio de Conceição ultrapassa fronteiras. Além de ter lecionado em universidades como a Unicamp e UFRJ, Maria da Conceição Tavares é graduada em Matemática pela Universidade de Lisboa e em Economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da qual é professora Emérita. Fez mestrado na Universidade de Paris II e doutorado em Economia da Indústria e da Tecnologia pela UFRJ.

A economista, de 82 anos, também integrou o corpo docente da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais da Argentina, Nacional Autônoma do México, Pontifícia Universidade Católica do Chile, entre outras instituições. Foi consultora do BNDES, da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e do Instituto Nacional de Investigação Científica (Inic), de Portugal. Pelos serviços prestados, Conceição foi homenageada, no mês passado, com o Prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia, a mais alta condecoração na área de Ciência e Tecnologia, e recebeu o prêmio das mãos da ex-aluna, Dilma Rousseff.
 
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