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Bob Dylan ganha biografia que revisita seus 50 anos de carreira07. 08. 2012
Literatura
O cantor Bob Dylan
Por André Bernardo
 
O primeiro show de Bob Dylan a gente nunca esquece. Quem garante é o poeta e dramaturgo britânico Daniel Mark Epstein. Ainda hoje, aos 64 anos, ele guarda na memória a primeira apresentação do cantor e compositor americano a que assistiu na vida, quando tinha 15 anos.
 
Da indumentária do artista (“camisa azul desbotada, calça jeans azul e botas”) à primeira canção do repertório (“The Times They Are A-Changin’”), Daniel se lembra bem do espetáculo do dia 14 de dezembro de 1963, no Lisner Auditorium, da Universidade George Washington. Memória prodigiosa? Nem tanto. Cada detalhe foi cuidadosamente anotado em um pequeno caderno de espiral, o mesmo que Bob Dylan autografou quando terminou de se apresentar. É como se Daniel soubesse que, 49 anos depois, lançaria uma biografia sobre aquele “jovem de aparência frágil e cabelos castanhos desgrenhados”.

Publicada pela Jorge Zahar, A Balada de Bob Dylan – Um Retrato Musical refaz a trajetória de Robert Allen Zimmerman, nome de batismo do cantor, ao longo de seus 50 anos de carreira. Em vez de reconstituir a trajetória do artista, como já fizeram tantos outros, como Robert Shelton, autor de No Direction Home – A Vida e a Música de Bob Dylan, Howard Sounes, de Bob Dylan – A Biografia, e Nigel Williamson, de O Guia do Bob Dylan, Daniel Mark Epstein optou por trilhar um caminho diferente.
 
Selecionou quatro dos mais de 30 shows de Dylan que já presenciou – incluindo o primeiríssimo deles – e resolveu falar sobre cada um. “Em vez de fazer muitas entrevistas, optei por fazer poucas, mas profundas”, orgulha-se Daniel, que sabatinou, entre outros, o poeta Allen Ginsberg, o cantor Mike Seeger e o cineasta D. A. Pennebaker, de Don’t Look Back, de 1965.
 
Capa do livro
No livro, Daniel retrata outras apresentações marcantes da carreira de Bob Dylan. Uma delas é a de 30 de janeiro de 1974, no Madison Square Garden, de Nova Iorque, que virou um álbum duplo ao vivo, Before the Flood.
 
Na ocasião, Dylan dividiu o palco com a The Band. Fora dele, convidados para lá de ilustres, como John Lennon, James Taylor e Paul Simon. A outra é de 4 de agosto de 1997, realizada no Tanglewood Music Center, em Massachusetts, um mês antes do lançamento do elogiado Time Out of Mind.
 
Ao contrário de Robert Shelton, ex-crítico musical do “The New York Times” que recebeu carta branca de Bob Dylan para escrever sua biografia, Daniel não teve acesso ao seu biografado. Pelo menos, consola-se, recebeu autorização do recluso compositor para reproduzir as letras que bem desejasse no livro. “Suspeito que ele já o tenha lido, mas, honestamente falando, não espero que fale disso ou de qualquer outro livro escrito sobre ele”, dá de ombros. 
 
Este ano, Bob Dylan completa 50 anos do lançamento de seu primeiro álbum, Bob Dylan. Que avaliação você faz da carreira dele? Aos 71 anos de idade e 50 de carreira, o artista ainda tem o que comemorar?

Daniel. Bob Dylan é o maior compositor que a América teve no século XX. Ele praticamente recriou o gênero do poema lírico cantado. Além disso, incorporou elementos da música folk, do blues e da tradição do verso livre americano como foi originado pelo poeta Walt Whitman e floresceu na poesia dos representantes do movimento beat, com os quais ele está alinhado. Sua habilidade de produzir, crescer e mudar ao longo de seus cinquenta anos de carreira faz lembrar outros artistas como William Shakespeare e Pablo Picasso.
 
Das quatro fases da carreira de Bob Dylan retratadas em sua obra, qual delas você considera a mais relevante musicalmente?

Daniel. Suas melodias mais desafiadoras foram escritas nos anos 60 e 70. Enquanto suas letras continuaram evoluindo e mudando ao longo das décadas, a maioria de suas melodias, desde os anos 80, se sustenta sobre sonoridades tradicionalmente americanas, como blues, hinos e melodias de salão do século XIX.
 
Bob Dylan é, provavelmente, um dos artistas mais biografados do mundo. Em sua opinião, por que a figura dele desperta tanta curiosidade e admiração por parte de fãs e biógrafos?

Daniel. Há o mistério da genialidade. Dylan entrou em cena em uma idade muito precoce, com dons prodigiosos e carisma inigualável. Isso sempre desperta enorme interesse para escritores e fãs. Ele também tem sido muito bem-sucedido na criação de um culto de mistério, ao manter sua plateia à distância e continuamente nos surpreender com novas sonoridades e temáticas.
 
No livro, você fala da carreira de Bob Dylan a partir de quatro shows que considera cruciais: nas décadas de 60, 70, 90 e 2000. Por que você não incluiu nenhum show dos anos 80 na biografia? Há um motivo em especial?

Daniel. Realmente, não fui a nenhum show de Bob Dylan na década de 1980 porque seu trabalho durante esse período não me interessava na época. Apesar de meu livro cobrir a vida inteira de Dylan até o século XXI, só escrevi sobre os shows a que eu tive a oportunidade de assistir.
 
O que a sua biografia teria a acrescentar a outras já escritas por Robert Shelton, Howard Sounes, Nigel Williamson, Greil Marcus e Michael Gray? Qual seria o grande trunfo de A Balada de Bob Dylan – Um Retrato Musical?

Daniel. Minha experiência como poeta, músico folk e contemporâneo de Dylan, assim como a minha vocação de biógrafo, me permitiram escrever um relato da vida de Dylan, que é tanto um testemunho ocular e uma narrativa em primeira pessoa quanto uma visão objetiva de sua evolução como artista. Dylan e eu conhecemos muitas pessoas em comum, como o poeta Allen Ginsberg, o cantor Mike Seeger e a filha de Woody Guthrie, Nora. Além disso, tocamos as mesmas músicas e vivemos o mesmo período histórico. Nenhum dos outros biógrafos que você citou tem o meu ponto de vista. E acredito que nenhum outro jamais terá.
 
Bob Dylan é um dos mais reclusos e antissociáveis artistas de que se tem notícia. Você já sabe se ele leu ou se gostou do livro?

Daniel. Suponho que Bob Dylan seja mais recluso que a maioria de nós porque há mais exigências feitas a ele pelo público, mas não acredito que ele seja antissociável. Ele tem sido um amigo leal para algumas pessoas. E um excelente pai, filho e irmão. Mas para cada pessoa que conhece Dylan, provavelmente há milhares de outras que se sentem excluídas de sua vida. E por boas razões. Para que tenha uma vida privada normal, ele tem de manter limites estritos. Quanto ao meu livro, suspeito que ele o tenha lido (afinal, permitiu que citasse livremente suas letras), mas não espero que ele fale disso ou de qualquer outro livro escrito sobre ele.
 
 
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