“Só para loucos”. Assim começa o autobiográfico O Lobo da Estepe, obra de Hermann Hesse, que trata de assuntos polêmicos para a época, como drogas e o “amor livre”. É sobre Harry Haller, homem solitário de 50 anos que busca encontrar-se consigo mesmo.
Mas não é só de lobo da estepe que é feita a literatura de Hesse. Demian, considerado seu livro mais conhecido, foi publicado em 1919 – a obra apresenta as influências da filosofia nietzscheana e das teorias psicanalíticas da época.
Outro trabalho que também merece destaque é Sidarta, de 1922. É fruto de uma viagem à Índia, que colocou o autor em contato com a cultura oriental. A história é narrada pelo próprio Buda, contando sobre a busca pela plenitude espiritual.
Para Markus Lasch, conhecedor da obra de Hesse, é difícil definir os principais assuntos de seus escritos, já que suas obras abarcam tempos e espaços tão diversos. Como Narciso e Goldmund, cujo contexto é a Idade Média.
“Mas duas temáticas talvez perpassem boa parte de seus escritos: crise existencial e busca ou desenvolvimento individual, na tradição do romance de formação, por um lado; e crítica cultural por outro”, comenta ele.
“Sua obra revela um senso estético apurado, um cuidado com a língua e com a linguagem”, afirma Frederico Lucena de Menezes, autor do livro Hermann Hesse: O Personagem que se Fez Autor, escrito em 1977 e publicado em 2007 pela editora LGE.
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O Lobo da Estepe, por ele mesmo
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Nascido em 1877, em Calw, na Alemanha, Hesse foi contista, poeta, ensaísta, editor e até pintor. Lasch conta que, desde pequeno, o autor teve contato com a literatura mundial, já que o avô materno era editor e possuía uma vasta biblioteca.
Fatos de sua vida, como a fuga do seminário de Maulbronn, também ajudaram a moldar o Hesse escritor. Esse acontecimento culminou numa forte depressão e pensamentos de suicídio – história semelhante ocorre em sua narrativa Debaixo das Rodas.
Os trabalhos missionários na Índia também foram responsáveis por direcionar seus pensamentos – foi seu primeiro contato com a cultura e espiritualidade orientais. A postura pacifista que tinha também é fruto dessas vivências. E foi essa defesa à paz que o obrigou a emigrar para a Suíça, onde viveu até a morte, em 1962.
Seu jeito voltado para si mesmo também reflete nos livros que escreveu: “Isso aparece na obra como resultado do esforço de um esteta introvertido, ocupado das questões humanas, sensível ao sofrimento do mundo de seu tempo”, comenta Menezes.
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Os escritos de Hesse combinavam com o pensamento do Movimento Hippie da década de 1960, o que o tornou popular entre os jovens. “A grande questão era amar em paz. O romantismo na obra de Hesse caía como uma luva nesses ideais”, completa o autor.
Por transitar por várias temáticas, Hesse se tornou um dos escritores mais lidos na Alemanha, mesmo tendo sido criticado na sua época. Hoje, ultrapassa as fronteiras germânicas e suíças (onde era naturalizado) e conquista leitores do mundo todo.
“Ganhador de Prêmio Nobel em 1946 e com mais de 100 milhões de livros vendidos mundo afora, ele é, sem dúvida, um dos mais traduzidos e internacionalmente lidos autores da literatura alemã”, afirma Lasch.
“Mesmo em traduções, sua obra revela um algo a mais na força expressiva de seu trabalho, aquela mensagem que os sentidos não captam, mas a alma do leitor aprecia e consegue ler na linguagem própria dos poetas, a linguagem que comunica pelo que não foi dito”, completa o autor de Hermann Hesse: O Personagem que se Fez Autor.
Hoje, 50 anos após sua morte, ainda é lembrado em todos os cantos do mundo. Foi Hermann, escritor, Lobo, Hesse. E até hoje ainda há quem vire a página e se depare com a inscrição “Só para loucos”, iniciando a leitura de uma de suas obras.