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'Fios De Sonhos' e a construção fantástica de Raphael Draccon09. 08. 2012
Literatura
Capa do novo livro de Draccon, 'Fios de Prata'
Por Sarah Correa
 
A inspiração para escrever, além do apoio encontrado nos autores que sempre o fascinaram, como Monteiro Lobato, Pedro Bandeira, Stephen King e Neil Gaiman, nunca deixou de esbarrar nas experiências familiares. Tanto as fábulas contadas pelo avô antes de dormir, quanto a forte espiritualidade da sua mãe e de outros parentes, deram a Raphael Draccon uma forte veia fantástica.

“Minha mãe se formou em engenharia, mas acabou sendo mestre iogue. Outros parentes estudaram sobre filosofias variadas e religiões, como espiritismo, Rosa Violeta, Umbanda...”, lembra Draccon, numa tentativa de explicar as suas predisposições em criar personagens envolvidos em dramas espirituais. “Estas características também me chamaram muita atenção nas histórias de Neil Gaiman”.

Essa sensibilidade é um dos principais ingredientes do sucesso de seus livros, onde ele busca traduzir as tormentas humanas através de metáforas fantasiosas, povoadas por reinos, fadas, reis, dragões e sonhos. “Essa é minha missão. Usar a literatura fantástica como uma metáfora para falar dos grandes dramas sobrenaturais do homem”, reflete.

Fios de Prata - Reconstruindo Sandman, seu mais novo trabalho, revela este efervescente caldeirão. O novo romance fantástico do escritor carioca firma este “épico do sonhar” e faz uma ode à famosa série de quadrinhos assinada pelo norte-americano Gaiman.

"É uma história épica de fantasia urbana, apoiada em uma história de amor, permeada pelo melhor e o pior dos sonhos da humanidade terrestre", resume o autor ao apresentar o livro, que levou sete anos para ficar pronto.

Paralelo ao lançamento dessa obra, Raphael Draccon está à frente do selo Fantasy, braço dedicado à literatura fantástica das editoras Leya e Casa da Palavra. A criação desse selo, diz Draccon, surgiu – assim como nascem os épicos escritos por ele – da percepção de que um homem montado em um dragão, a postos para a batalha, vai além do sonho.

“Esse episódio carrega consigo a jornada heroica de um homem que deixou um amor, da expectativa da família, da sua jornada de coragem e confiança”, filosofa.
 
O DNA DA FANTASIA 

Quando a enchente tomava o barraco, a revolta não se fazia presente. A poesia escorria por entre dias desventurados e emprestava uma doce interpretação à realidade. O pai daquela família ensinava os filhos a fazer barquinhos de papel. A água suja que entrava naquela humilde casa embalava os barquinhos e também os sonhos daqueles que ali moravam.

O avô poeta do morro, anos mais tarde, contava essas histórias ao seu neto, que acabou se tornando um dos mais bem-sucedidos escritores brasileiros, uma referência na literatura fantástica.
 
O autor Raphael Draccon
“Após a enchente, meus avós limpavam o chão de terra para os filhos não verem a sujeira que havia ficado, para protegê-los daquela realidade”, lembra Draccon. E continua: “Meu avô também era projetista de cinema. Antes de dormir, ele me inundava de histórias cheias de fantasia”.
 
Além da influência inscrita no DNA, foi também aos seis anos que ele ouviu falar pela primeira vez em Bruce Lee.
 
A partir de então, Draccon endossou um saga pessoal para se tornar tudo aquilo o que lutador fora: escritor, roteirista e faixa preta.
 
Aos 12 anos, o carioca se tornou instrutor de uma academia de artes marciais. Com 20 anos, recebeu o Prêmio de Mérito da American Screenwriter Association (ASA), após escrever o roteiro de seu primeiro drama sobrenatural, In Your Hands, que chegou às mãos do ator Will Smith e do diretor da série Ghost Whisperer, James Van Praagh.
 
Antes de lançar Dragões de Éther: Caça às Bruxas, primeiro título da trilogia Dragões de Éther, Draccon já havia iniciado sua própria saga. Se, na série, em dado momento, um exército de órfãos faz ressurgir uma soturna sociedade secreta que tinha tudo para dar errado, na vida real, o escritor enfrentou a descrença alheia em seu plano para ver seu trabalho reconhecido.

“Muita gente que já está neste mercado de literatura fantástica há 20 anos me criticou, disse que eu não venderia nem 600 cópias do livro”, revela o autor.

Contudo, a crítica não passou de um tiro no pé. Dragões de Éther alcançou números esplêndidos, vendendo mais de 150 mil cópias.
 
UM MINUTO COM AUGUSTO CURY

Junto à dedicação para compor o romance Dragões de Éther, o carioca também se dedicava a outros projetos. Um deles incrivelmente onírico.

“Coloquei na minha cabeça que ia roteirizar o livro O Futuro da Humanidade, de Augusto Cury. Falei com o agente dele, com a esposa, e nada do Cury”. Contudo, ele não desistiu. “Fiquei sabendo que o Cury faria uma tarde de autógrafos em uma livraria no Rio. Fui lá. Quando chegou a minha vez, eu tinha um minuto para mudar minha vida”.

O que era para durar um minuto se transformou em meia hora. Nesse tempo, ele não parou de falar durante um segundo e revelou todo o seu plano mirabolante para Cury. Resultado: embora o escritor tenha simpatizado com o roteiro, a produtora não conseguiu viabilizar o projeto. Mas se uma porta se fechou, uma janela se abriu.

O diretor Claudio Torres comentou que havia gostado muito do roteiro de Draccon, o que chamou a atenção do agente internacional de Cury.

“Ele [o agente] resolveu assinar comigo, já que o Cury estava de mudança para a editora Planeta, e o livro Eragon estourando. Então, meu original foi entregue para Pascoal Soto – na época, editor-chefe da Planeta, que hoje está na Leya. Pascoal não parou de ler o original, me chamou para conversar e, então, tudo começou”, diz ele em referência à parceria com a editora (para quem ficou curioso, o filme ainda não saiu do papel).

SEGREDOS DE UM BOM ESCRITOR

Engana-se quem pensa que a resposta é uma boa história. Para Draccon, um bom escritor tem que reunir, além de uma excelente escrita e a sensibilidade para captar as inclinações humanas, alguns princípios como “saber tratar bem os fãs, não falar mal do trabalho dos outros e ser disciplinado”.

Este último pode ser visto tanto como um facilitador quanto como um obstáculo para os autores. No caso de Draccon, ele diz que a estrada que o guiou para a disciplina foi a dedicação às artes marciais.

“Quando comecei a escrever Dragões de Éther, também estava produzindo Fios de Prata. Estudava cinema pela manhã. Dormia à tarde, era instrutor na academia à noite e escrevia de madrugada. A meta era escrever dez páginas por dia. Se eu falhasse um dia da semana, sacrificava um dia do meu final de semana”, conta.

E então, está disposto a encarar a jornada do herói e enfrentar o sonho da realidade?
 
 
Raphael Draccon na Bienal do Livro de SP
Local: Estande Submarino. Presença do escritor junto aos personagens da trilogia Dragões de Éther e lançamento do livro Fios de Prata - Reconstruindo Sandman.
Quando: 11/08
Horário: 16h
Endereço: Av. Olavo Fontoura, 1209, Santana – SP/SP
 

 
Comentários (1)
Jéssica - 24/08
Ola, adorei a matéria. Estou lendo o segundo livro da triologia Dragões de Ether e estou amando. Sou atleta e participo de torneios de boxe chines e é perfeita a descrição e riqueza em detalhes que ele faz principalmente em referente ao príncipe Axel, expondo exatamente cada emoção e sentimentos sentidos no momento. A serie esta simplesmente me conquistando mais a cada momento, pena que sou de Porto Alegre/Rs pois gostaria muito de conhecer o Draccon e contenteza pegar um autografo com ele. Parabéns pela matéria Saraiva. Sempre é bom conhecermos um pouco mais da história de um grande autor como esse.
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