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Documentário e videoclipe dos Racionais MC’s retomam a história de Marighella13. 08. 2012
Filmes e Séries
Videoclipe do grupo de rap Racionais MC's
Por Regiane Ishii

“Santo ateu do socialismo”, nas palavras do crítico literário Antonio Candido, o militante baiano Carlos Marighella (1911-1969) é tema de documentário com estreia marcada para 10 de agosto. Forte atuante político entre os anos 1930 e 1969, tendo lutado desde o Estado Novo de Getúlio Vargas à ditadura do governo Costa e Silva, Marighella se tornou figura emblemática entre a esquerda brasileira e ganhou projeção internacional com seu livro Manual do Guerrilheiro Urbano.

O projeto do filme Marighella existe desde 1986, ano em que a diretora Isa Grinspum Ferraz, também sobrinha do militante, registrou a primeira versão do roteiro. A proximidade com o centenário de seu nascimento foi o gancho para a retomada do documentário. Apesar da vasta pesquisa, não foi encontrada nenhuma imagem em movimento que retratasse Marighella. Para compor a obra, foram utilizadas fotografias da vida em família de Isa, recortes de jornais da época, trechos de filmes do período (como Terra em Transe, de Glauber Rocha), excertos de suas poesias lidas pelo ator Lázaro Ramos e, principalmente, depoimentos.

Diversos ex-militantes do Partido Comunista Brasileiro e da Aliança Libertadora Nacional relembraram momentos-chave da resistência esquerdista e da vida de Marighella: a eleição como deputado federal pelo PCB baiano, o atentado por agentes do Dops dentro de um cinema carioca, o rompimento com o partido para seguir a defesa da luta armada e o sequestro do embaixador dos Estados Unidos Charles Elbrick.

Além do panorama cronológico dos fatos, muito foi dito em torno do mito. Descendente de italianos anarquistas e escravos sudaneses, expressão mulata do comunismo baiano, Marighella “encarnava esse povo biologicamente, moralmente e psicologicamente”, diz Candido em mais um depoimento. 

Para a própria diretora, a figura do tio era querida e proibida simultaneamente: “Havia algumas situações que não dava pra entender muito bem – estava sempre se queimando alguma coisa na banheira, por exemplo. E ele estava sempre aparecendo e desaparecendo. Lembro que foi muito chocante quando meu pai me contou: ‘o seu tio Carlos é o Marighella’”.

A relação lacunar imprimiu uma proposta declaradamente subjetiva na direção de Isa: “Não quis especialmente desenvolver uma linguagem; meu desejo fundamental era botar meu personagem na roda. Eu só poderia fazer um filme sobre um tema tão próximo se partisse da minha experiência, se assumisse esse ponto de vista com sinceridade. Não daria pra abordar essa história com uma mirada jornalística”.

Clara Charf, companheira que viveu anos ao lado de Marighella na clandestinidade, e o filho Carlos Augusto Marighella, fruto de relacionamento anterior, dão longos relatos no documentário, chegando às lembranças do dia de sua morte, em 4 de novembro de 1969, em uma emboscada na capital paulista.

A convite da diretora, Mano Brown, dos Racionais MC’s, compôs música original para a trilha sonora da produção. Após assistir ao corte bruto do documentário por diversas vezes e ampliar seu envolvimento com o personagem, o rapper procurou a equipe do filme com o intuito de realizar o videoclipe de “Mil Faces de um Homem Leal”. Desta vez, quem assinou a direção foi Daniel Grinspum, sobrinho de Isa, assistente de direção e montador adicional do documentário.
 
Carlos Augusto Marighella

Familiarizado com a trajetória de Marighella e seguro de seu conhecimento sobre a parte histórica que certamente faria parte do clipe, Daniel lançou mão de diversas referências estéticas e se concentrou em atualizar a discussão para as questões atuais. “Mano Brown queria que o clipe fosse cinematográfico. Ele queria encenar algumas histórias do Marighella. O que eu pensei foi juntar o discurso de ambos e criar algo que diga sobre o hoje”, conta.

O episódio escolhido para ser encenado foi a invasão à Rádio Nacional, realizada em agosto de 1969. Na ocasião, também relembrada no documentário, doze homens tomaram a rádio e irradiaram a gravação de um discurso de Marighella por duas vezes. No clipe, os integrantes dos Racionais são os autores da ação.

Depois da situação carcerária trabalhada no consagrado “Diário de um Detento” (1998), o clipe da nova música dos Racionais MC’s volta seu olhar à questão habitacional. “Em uma das reuniões de brainstorm, questionamos ‘qual é a grande luta atual?’ O Marighella lutava pela democracia e pela liberdade.  Hoje, a luta pela moradia nos pareceu muito evidente”, lembra Daniel. 

Por meio da produtora Juliana Vicente, fundadora da Preta Portê Filmes, uma das locações escolhidas para a gravação do clipe foi o edifício Mauá, ocupação sem-teto em pleno centro de São Paulo, no bairro da Luz. No fim de 2010, Juliana dirigiu o documentário Leva, retratando a situação do imóvel. Ao retomar o contato com a comunidade para a gravação do clipe, descobriu que a Justiça havia determinado a desocupação do prédio.

“A princípio, Mano Brown não queria filmar na Mauá. Ele afirmava que não queria parecer se aproveitando do espaço, levantar e não prosseguir com essa bandeira. Mas o convenci de que a gravação seria a continuidade de um trabalho em um momento de fundamental visibilidade. Além disso, seria uma oportunidade de trazer o rap para o centro, filmando em uma locação incrível, bastante poderosa imageticamente”, lembra Juliana.

A diária de gravação foi feita com a esperada atenção da mídia, ganhando destaque em diversos veículos. Em 31 de julho foi realizada a festa de lançamento do videoclipe. No mesmo dia, foi suspensa a liminar de despejo pela Justiça, programada para 21 de agosto. Um respiro a mais até o julgamento da reintegração de posse.

Em meio às questões políticas, havia uma grande responsabilidade artística: “O maior desafio de produzir foi controlar as ansiedades porque a gente estava se pressionando muito por esta ser ’a volta dos Racionais’”. Juliana, 27 anos, e Daniel, 28, eram adolescentes quando os Racionais MC’s alcançaram o grande público da MTV, arrematando os principais prêmios no VMB, em 1998.

A parceria deu certo. “Mano Brown é bastante perfeccionista. Sabe da história do Brasil muito bem. Tem noção do papel dele na sociedade brasileira. Além disso, tem uma noção de mise-em-scène absurda. Sua presença de palco é transposta para a relação com a câmera”, elogia o diretor.

O projeto de “Mil Faces de um Homem Leal” catalisou a reunião dos Racionais. Depois de mais de dez anos sem lançar material inédito, um novo disco é esperado para o segundo semestre. Além disso, a presença do grupo está confirmada no VMB, em 20 de setembro, onde concorrem ao prêmio de Clipe do Ano.
 
 
Cena do clipe dos Racionais MC's
 
 
Além da encenação da invasão à Rádio Nacional e da apresentação dos Racionais na Mauá, Daniel, que também assina a montagem do clipe, incluiu imagens de arquivo da época da ditadura e de movimentos sociais. Cita Romain Gavras, diretor de clipes de M.I.A. e Kanye West, como uma das referências. 

“Queria trazer imagens da década de 60 por meio de imagens de arquivo, mas de maneira rápida e pontual, sem perder muito tempo. Hoje, as pessoas absorvem as imagens muito mais rápido. O público da MTV não viveu essa época. Conhece o assunto pelas notícias da Comissão da Verdade ou pelas aulas da escola. Quis trazer o lado da clandestinidade de um jeito pop para que as pessoas busquem conhecer a história de um homem que foi banido da história brasileira”, conclui.

“Retiro da maldição e do silêncio o seu nome de baiano: Carlos Marighella”, escreveu Jorge Amado. Documentário, música dos Racionais e MarighellaO Guerrilheiro que Incendiou o Mundo, livro escrito por Carlos Magalhães a ser lançado em outubro pela Companhia das Letras, confirmam 2012 como um dos anos mais simbólicos da trajetória militante de Carlos Marighella.
 
 
Clipe “Mil Faces de um Homem Leal”
 
 
 
Trailer de Marighella
 
 
 
Comentários (3)
pamela - 30/07
o mano brown tem uma aliança na mão esquerda?
elizu - 11/03
se eu fose ele eu fasia a mesma coisa
Marcia Beatriz - 14/08
Parabéns Regiane Ishii pela matéria muito bem elaborada. Completa!
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