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Tecnologia a lenha: literatura steampunk repensa nosso passado23. 08. 2012
Literatura
Bruno Accioly
Cortes requintados, governos autoritários e maquinário a vapor formam o ambiente do steampunk
Por Marcelo Rafael
 
Napoleão Bonaparte não perdeu a guerra. Ele conseguiu vencer sua maior inimiga, a Inglaterra, indo além do Bloqueio Continental, arregimentando uma frota de navios a vapor e transpondo, assim, o Canal da Mancha. A corrida, agora, é pela guerra nos céus, com aviões.

Esse é o enredo de um dos contos de uma coletânea que representa um tipo de ficção científica com um olhar muito peculiar: em vez de imaginar o futuro, ela reescreve o passado.

No mundo real, Napoleão duvidou da tecnologia a vapor, dirigindo-se da seguinte maneira ao engenheiro americano Robert Fulton: “O senhor faria um barco navegar contra o vento e as correntes acendendo uma fogueira embaixo do convés? Não tenho tempo para essas bobagens”.

Na literatura “vaporpunk”, ou “steampunk” no original em inglês, o maquinário floresce em todo seu esplendor. Esse tipo de história vem crescendo no Brasil com vários lançamentos nos últimos dois anos e alguns outros já “no forno”, que devem ser publicados ainda em 2012 ou no ano que vem.

O gênero, mais conhecido por suas incursões no cinema com filmes como Rocketeer, As Loucas Aventuras de James West e até mesmo De Volta para o Futuro III, segue na contramão da tecnologia de ponta atual.

Na vida real, ficamos maravilhados com internet 4G, smartphones cada vez mais multifuncionais, tablets e notebooks superpotentes. Mas se a conexão está lenta, logo vem a piada de que estamos acessando uma “internet a lenha”.

É justamente esse o espírito steampunk. “A ficção científica desse tipo às vezes olha para o passado com essa mesma lógica, imaginando, por exemplo, como a tecnologia da era do vapor poderia ter alcançado um desempenho maior do que o visto no século XIX”, conta Roberto Causo, editor, pesquisador e autor de ficção científica brasileira.

“Imaginam-se naves espaciais, computadores e armas atômicas com uma base tecnológica diferente ou surgindo dezenas de anos antes”, complementa Causo.

Tudo isso com o mesmo espírito do final do século XIX e início do século XX, que apresentava sociedades conservadoras, governos autoritários ou monarquias pujantes e o ufanismo de que a tecnologia salvaria o mundo.

CORTES DE CETIM E PRINCESAS AVIADORAS

O que começou lá fora, nos anos 1990, com histórias ambientadas na Londres da rainha Vitória, rapidamente tomou novos rumos, com novas fontes de energia para engenhocas e outros ambientes – até mesmo outros mundos.

É o que acontece com os contos de Antonio Luiz M. C. Costa, engenheiro de produção por formação, pós-graduado em economia e colunista da revista Carta Capital.

“Eu não queria escrever sobre a Inglaterra Vitoriana, queria fazer um ambiente diferente, mais próximo de nós, mais brasileiro, mas que tivesse tudo o que é possível com o steampunk”, comenta o autor.

E ele foi além: criou todo um Brasil paralelo, que desenvolve ao longo de vários contos, em diversas coletâneas. “Em vez de D. João vir para o Brasil em 1808 e começar a criar o Império no Rio de Janeiro, eu pensei em D. Sebastião (rei de Portugal) fazendo o mesmo, mas no século XVI, com um desenvolvimento acelerado do Brasil.”

Esse mesmo cenário aparecerá nos livros Brasil Fantástico e Solarpunk, que devem chegar em dezembro pela editora Draco.

Pelas histórias de Costa, passeiam os personagens de Machado de Assis, Brás Cubas e Quincas Borba, utilizando parafernálias “tecnológicas”, enquanto o Instituto Butantã, em São Paulo, já pesquisa pílulas anticoncepcionais no século XIX.

Já Roberto Causo prefere se valer de figuras célebres do mundo real. O pioneiro do rádio Landell de Moura, o poeta Menotti del Picchia e Santos Dumont são usuários de máquinas prodigiosas no Brasil de 1908, na coletânea da Tarja Editorial Steampunk - Histórias de Um Passado Extraordinário.

A obra obteve tanto sucesso que ganhou citação de página inteira no livro Steampunk Bible, e a Tarja já prepara uma segunda coletânea, além de um Compêndio de Retrofuturismo e a primeira parte de um romance, Conspiração Steampunk, todos para 2013.

Na coletânea Vaporpunk – Relatos Steampunk Publicados Sob As Ordens de Suas Majestades, lançada em 2010 pela editora Draco, a jovem princesa Isabel lidera uma equipe de piratas aviadores. A obra reúne cinco autores nacionais e três portugueses.
 
Capa do livro Vaporpunk
Capa do livro Dieselpunk
 
A antologia Dieselpunk, da mesma editora, inclui o conto citado no início desta matéria, além de outros onde o bando de Lampião enfrenta a Coluna Prestes com armas potentes e o Barão de Mauá é obrigado a criar um super-robô para combater os autômatos gigantes da Argentina, que tentam invadir o Brasil durante a construção de Brasília. Tudo isso no século XIX.

“Dieselpunk” (com engenhocas movidas a Diesel), “Nazipunk” (de regimes totalitários), “Transistorpunk” (com eletricidade), “Atomicpunk” (da Era Atômica) e “Clockpunk”, (com a tecnologia de engrenagem do relógio da Renascença) são subgêneros que também reescrevem o passado com outras ferramentas.

A subdivisão é grande, mas Causo alerta: “É bom lembrar sempre que o nome não é a coisa, daí o erro frequente de se analisar o steampunk a partir não das histórias, mas da combinação de steam (vapor) e de punk.”

Para Costa, mais do que maquinaria retrô, o gênero reflete sobre as sociedades antigas. “Acho interessante imaginar a época não só do ponto de vista físico, mas também o perfil do pensamento e da moral daquela época, com as diferenças que existem em relação a hoje”, conta.

RELEITURAS A VAPOR

Outros lançamentos deste ano misturam elementos de diferentes gêneros com as características próprias do steampunk, ambos de autores norte-americanos e publicados pela Editora ID.

O primeiro, Dearly Departed – O Amor Nunca Morre, é um romance de Lia Habel que, apesar de se passar em 2195, tem todas as características de uma sociedade vitoriana. O diferencial fica por conta dos zumbis.
 
A norte-americana Lia Habel utiliza elementos da cultura vitoriana em um futuro apocalíptico, misturando ficção científica, steampunk e mortos-vivos

O outro, de maior fôlego, traz contos e poemas do mestre do horror, Edgar Allan Poe, em texto original, com ricas ilustrações no estilo steampunk. Estão presentes clássicos como o poema 'O Corvo' e o conto 'Os Assassinatos da Rua Morgue'. Steampunk: Poe tem previsão de lançamento para outubro.

E vem mais por aí: a história de mortos-vivos, piratas voadores e parafernália a vapor Boneshaker, que acaba de chegar em pré-venda (no original em inglês) já está com sua adaptação para a telona confirmada.
 
Conheça os últimos lançamentos do gênero no Brasil:

Vaporpunk
Autor: Gerson Lodi-Ribeiro e Luis Filipe Silva (organizadores)
Editora Draco
Ano: 2010
Oito autores de Brasil e Portugal repensam as monarquias lusófonas do século XIX com muita ação e aventura movidas a vapor.

Dieselpunk
Autor: Gerson Lodi-Ribeiro (organizador)
Editora Draco
Ano: 2012
Sucessor de Vaporpunk, as histórias agora são narradas durante a Belle Époque, no início do século XX, com céus cobertos de zepelins e máquinas movidas a diesel.
 
Steampunk – Histórias de Um Passado Extraordinário
Autor: Vários
Editora Tarja Editorial
Ano: 2009
Revolução Industrial, crises internacionais, motores a explosão e os primeiros passos no campo da eletricidade formam o ambiente de aventura, ação e intrigas das narrativas desta coletânea que ganhou projeção internacional.

O Baronato de Shoah – A Canção do Silêncio
Autor: José Roberto Vieira
Editora Draco
Ano: 2011
Romance épico em um mundo fantástico e sombrio. Considerado o primeiro romance nacional pensado na estética steampunk, passado, presente e futuro se mesclam, com direito a seres da mitologia enfrentando inventos tecnológicos.

Dearly Departed – O Amor Nunca Morre
Autora: Lia Habel
Editora ID
Ano: agosto de 2012
Uma jovem dama vitoriana encontra o amor nos braços de um charmoso zumbi no ano 2195. Nora Dearly vive em New Victoria, nação hightech moldada nos costumes e maneiras da antiga era, até ser sequestrada por um exército de zumbis.

Steampunk: Poe
Autor: Edgar Allan Poe – ilustrações de Zdenko Basic e Manuel Sumberac
Editora ID
Ano: outubro de 2012 (previsão)
Esta obra do mestre do terror norte-americano traz poemas consagrados como O Corvo e histórias clássicas como Os Assassinatos da Rua Morgue, ricamente ilustrados na temática steampunk.
 
 
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