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Nino Cais revela esculturas em fotografias27. 08. 2012
Artes
Nino Cais é o primeiro artista do especial SaraivaConteúdo sobre a 30ª Bienal de São Paulo
 
 
 
 
Por Priscila Roque
 
Ali entre as ruas de Pinheiros, em São Paulo, que se encontra a casa-ateliê do artista plástico Nino Cais. Nos cômodos, se espalham itens que compõem sua memória. Entretanto, é na sala de estar, com a companhia da Cintura – uma cadelinha vira-lata –, que estão estampados os seus trabalhos. Observando com um pouco mais de atenção, é possível identificar e reconhecer um rico resquício daquele espaço nas imagens.
 
Apesar de ter como suporte de suas obras a fotografia, Nino não é fotógrafo. As imagens que produz não são propriamente autorretratos, como parecem a um primeiro olhar. Na verdade, são esculturas produzidas a partir de seu próprio corpo, que atrai, como um imã, os mais diversos objetos que o circulam. Geralmente, é um amigo fotógrafo que o retrata, sempre com uma preocupação mais documental do que artística.
 
É com ele que daremos início ao nosso especial sobre a 30ª Bienal de São Paulo. Um estreante no evento, que tem muito para revelar. Ele usa sua história e os arredores do espaço em que vive para produzir as obras. Objetos como um arranjo de flores na mesa, um jogo de chá na cozinha e um espanador deixado sobre o sofá passam a esconder seu rosto na fotografia e cobrir partes de seu corpo como se realmente fizessem parte dele.
 
Essa espécie de jogo doméstico que Nino traz para sua arte foi reconhecido pelo curador Luis Pérez-Oramas, que o convidou pela primeira vez para montar uma constelação na 30ª Bienal de São Paulo.
 
                                                                                                       Divulgação/Bienal de Arte de São Paulo
Nino Cais se apropria de objetos domésticos para compor suas obras
 
Além de levar para o pavilhão do Parque Ibirapuera diversas obras anteriores, ele vai apresentar o seu mais recente trabalho, intitulado “Os Viajantes”. Na série, Nino usa seu corpo como uma base envolta por objetos que foram presenteados por conhecidos após viagens. Novamente, dentro de seu próprio espaço, o artista leva o observador a um passeio promovido por memórias oferecidas por seus amigos.
 
Em um cantinho do ateliê, com a janela voltada para a rua, dividindo a calmaria na calçada com o buzinaço típico da hora do rush, Nino falou com o SaraivaConteúdo sobre inspirações e reconhecimento.
 
Quais foram os primeiros materiais com que você começou a trabalhar?
 
Nino Cais. Como a minha mãe era costureira, eu comecei a trabalhar com retalhos e tecidos. Amarrei toda uma camisa minha, cortei-a em fatias e tiras. Com isso, fiz um monte de nós. Parecia um volume, um objeto. No segundo ano de faculdade, fiz muita coisa com nós. Pesquisando, encontrei um texto que falava sobre não ter medo de morrer, mas sim de perder o laço com as coisas que o pertencem. Assim, pensei que deveria amarrar as coisas, entrelaçar, causar uma tensão com os objetos.
 
Sua obra é retratada por fotografias que funcionam como esculturas. Como você desenvolveu esse pensamento em seus trabalhos?
 
Nino Cais. Como eu gostava de desenhar, ao longo dos estudos, comecei a entender a escultura. Fazendo exercícios, comecei a entender mais sobre o volume e percebi que isso me interessava. Então, cheguei nos objetos, como xícaras e coisas à minha volta. Nessa ocasião, ainda não aparecia o corpo. Então, fiz um trabalho com uma cadeira e pensei: “Ela convida um corpo para estar ali”. Foi aí que comecei a pensar na existência do corpo, não foi gratuito. Ele veio quando o trabalho pediu. Passei, então, a fazer o link da questão do corpo na fotografia. A fotografia quase como uma espécie de eixo de sustentação, de possibilidade de ideias. Determinei que o meu corpo era como se fosse um ímã, que pudesse captar as coisas do entorno. Embora eu trate de fotografia, o meu dispositivo ainda é a escultura. Então, trato as minhas fotografias como esculturas.
 
Mas como funcionam essas fotografias? Como elas são feitas?
 
Nino Cais. Eu falo fotografia, mas não sou fotógrafo. Não sou eu quem fotografa. Porém, o fotógrafo é bem dirigido. Portanto, a imagem acaba sempre com um recorte que eu decidi. Uso a mão do outro. Por muito tempo, quem me fotografou foi Marcelo Amorim, um grande amigo. Gosto de ter essa relação com uma pessoa próxima para eu poder ter uma liberdade maior na construção, me sentir à vontade. Ele é um instrumento, mas não posso ignorar que é vivo. Sempre digo que quero um registro do que eu estou fazendo. Me preocupo para que a fotografia não vire uma megaprodução, mas que ele se sirva da técnica para contar o que eu estava fazendo.
 
Você já fez autorretratos?
 
Nino Cais. Foram poucas situações que me fotografei. Acabou servindo mais como um exercício, embora eu tenha mostrado pouquíssimo disso. Geralmente estou com uma câmera supercaseira, é mais para marcar uma ideia. Brinco de construir. Em geral, as fotografias que fiz têm mais esse dispositivo momentâneo, de um desejo de experiência que eu estou vivendo e vou registrar para depois pensar mais sobre isso.
 
Os amigos e a família te observam como um artista que faz isso desses objetos “domésticos” e querem alimentá-lo?
 
Nino Cais. A maioria desses objetos tem uma memória. Por exemplo, ganhei esse jogo com um bule e umas xícaras de ágata. Naturalmente, as pessoas começaram a entender que elas poderiam me cercar de coisas. Um dos trabalhos que vai para a Bienal se chama “Os Viajantes”. Essa é uma série de fotografias com muitos objetos que eu ganhei de pessoas que foram viajar para fora do Brasil.
 
Essa série “Os Viajantes” foi feita para a apresentação na Bienal?
 
Nino Cais. O projeto já estava acontecendo em paralelo. Eu já colecionava esses objetos e ia ganhando, ganhando... Sabia que uma hora eu ia tomar conta daquilo e processar para entender um trabalho. Quase junto da Bienal, comecei a obra. Foi no mesmo momento em que apareceu o convite. Só senti um estímulo para dar conta de terminar a tempo. Ele não é tão distinto dos demais trabalhos que eu já vinha fazendo. É sempre do corpo envolvido por objetos. Ele tem as mesmas características.
 
                                                                                                      Divulgação/Bienal de Arte de São Paulo
São os momentos que ditam parte de suas inspirações
 
E esconder o rosto, é uma espécie de timidez?
 
Nino Cais. Acho que a timidez, no fundo, todo ser humano tem em sua intimidade, na sua profundidade. Todos nós temos o silêncio. Eu não me sinto uma pessoa tímida, muito pelo contrário. Sou comunicativo, gosto de me envolver, de me relacionar, de falar... Faço isso com muita facilidade porque tenho prazer nessa troca. Quando vou fazer um trabalho com alguém, por exemplo, preciso dessa troca humana. Então, essa timidez, não sei se acontece no meu trabalho. Acho que tem uma timidez, mas é mais de um outro campo: o da identidade desse artista, não o Nino, mas desse artista que se camufla. Creio que, nesse sentido, exista essa timidez. Se colocar o rosto, você entra no semblante. Ele tem uma história, uma memória, no ser, no personagem. Quando eu camuflo o corpo, ele passa a ser quase uma massa escultórica menos ditada, com uma regra menos precisa do que de fato está acontecendo na cena. O rosto aponta para alguma situação, seja uma cena nostálgica, festiva, alegre, cínica ou bizarra. O rosto aponta para esses caminhos. Quando camuflo o rosto, crio uma situação de massas, de cores, de volumes e de texturas.
 
Por que o seu corpo?
 
Nino Cais. Quando li um texto que falava sobre o medo de perder aquilo que nos pertence, pensei que aquilo que me pertencia tinha que estar comigo. Em outro artigo, li que quando o artista pensava na escultura, pensava também na ação sobre ela. Então, quis fazer e ser a coisa. É com esse corpo que me sirvo para fazer e ser a coisa. Ele é quase um pedestal para esses arranjos. Se a gente ainda tivesse a base como a origem da escultura, o corpo seria a base. Depois, com a história do Brancusi, da unificação da base – e ele diz que ela também é a própria escultura –, acontece que o meu corpo também já é a coisa, não se divide.
 
Em uma de suas obras, você está apoiado sobre algumas taças de vidro. Como é se dispor a um risco, por usar seu próprio corpo?
 
Nino Cais. Não julgo que me coloquei diante de um risco, embora eu – obviamente – entenda quando você diz “risco”. De fato, ali aparece claramente um risco. Tanto que não queria mostrar esse trabalho porque achava que ficava no limite do olhar. As pessoas teriam essa critica quase que meio áspera com a imagem, de provocar um irritamento ou medo. Na verdade, essa série se chama “Maiastra” e é baseada em uma série do Brancusi – de mesmo nome. Maiastras são pássaros da cultura romena. Ele é uma figura que pode deixar de ser pássaro para se transformar em outra coisa. O Brancusi sobrepõe coisas, matérias lapidadas, de madeira polida ou bronze, às vezes coloca um toco rústico. Ele faz sobreposições de materiais totalmente distintos e funciona. Então, por isso, na minha obra tem esse corpo sobre as taças – materiais quase impossíveis se juntando. A minha ideia ali era colocar os vidros para dar essa ideia de transparência. A poética do trabalho é que, quando você olhasse para aquilo, não seria uma corpo, mas sim um pássaro que se tornou corpo naquela hora. A leveza.
 
Essa é a sua primeira vez na Bienal de São Paulo. O que isso significa na sua carreira?
 
Nino Cais. Naturalmente, sendo artista e profissional, esperamos conquistas. Uma das mais importantes é participar de uma Bienal em seu próprio país. Quando você é convidado, é um susto, é delicioso. Mas você pensa: “E daqui para frente?”. Acho que é como se você estivesse escalando, escalando e, quando chegasse no destino, conseguisse ver o mar. É possível. Então, você pensa: “Cheguei aqui”. Agora, a brincadeira é lidar com esse lugar e escolher o que vai ser contemplado podendo ter essa paisagem toda na sua frente.
 
Para finalizar, gostaria que você indicasse o nosso próximo entrevistado do especial da Bienal.
 
Nino Cais. Indico o Fernando Marques Penteado. Vi potência no trabalho porque ele tem uma coisa forte com bordados, se cerca de um universo próximo do meu, que é quase doméstico. Ele trabalha essa coisa do costurar, dar ponto, dar nó, meio artesanal.
 
30ª Bienal de São Paulo
Onde: Parque Ibirapuera - Pavilhão Ciccillo Matarazzo - Av. Pedro Álvares Cabral, s/ número – São Paulo/SP
Quando: De 7 de setembro a 9 de dezembro
 
VEJA A GALERIA DE FOTOS COM OUTROS TRABALHOS DE NINO CAIS. CLIQUE AQUI
 
 
 
Na próxima semana, acompanhe a entrevista com o artista plástico Fernando Marques Penteado, sugerido por Nino Cais, aqui no portal SaraivaConteúdo. O especial inteiro ficará à disposição aqui.
 
 
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