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As memórias de Festas Juninas presentes na literatura18. 06. 2013
Literatura
Divulgação
Bandeira, Graciliano, Cyro dos Anjos: escritores que trouxeram para suas obras reminiscências da tradicional festa popular
Por Maria Fernanda Moraes
 
Dizem que um escritor alcança a universalidade quando consegue vincular seus regionalismos, modos populares específicos de certos lugares, circunstâncias biográficas e lembranças da infância e, ao mesmo tempo, dar a eles um caráter universalizante.
 
Não é à toa que um dos nossos festejos populares mais famosos, a Festa Junina, figura nos enredos de grandes escritores e ocupa perfeitamente essa lacuna da universalidade. Isso porque, apesar de já ser conhecida e arraigada na tradição brasileira, a Festa Junina tem origem nas antigas celebrações pagãs de povos da Ásia e Europa. Foi trazida ao Brasil pelos portugueses e adaptada à nossa cultura, que passou a celebrar Santo Antônio, São João e São Pedro.
 
Assim, é comum que todos tenham alguma lembrança dessa festividade: das músicas, das comidas, das brincadeiras, enfim, de qualquer uma dessas tradições que se tornam pratos cheios para os escritores. O crítico literário Davi Arrigucci Jr. vai mais fundo e diz que a presença dessas lembranças das festas juninas na literatura são fortes por serem “imagens que fazem parte de uma matéria extremamente pessoal e íntima, mas ao mesmo tempo também histórica, dependente de um desígnio programático bastante acentuado, no sentido da recuperação do passado histórico e da tradição popular, como uma forma de tomada de consciência da realidade brasileira em todas as suas dimensões”.  
 
Para ilustrar, separamos alguns versos de escritores que trazem a temática em suas obras ou fazem referência a essa tradição:
 
MANUEL BANDEIRA

O poema “Profundamente”, do livro Estrela da Vida Inteira, narra explicitamente as lembranças do poeta numa noite de São João. Além do saudosismo da infância, a composição já apresenta os ideais modernistas de Bandeira.
 
“Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes, cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas (...)”
 
O poema Profundamente, de Bandeira, traz lembranças da infância na noite de São João
Já o poema "Na Rua do Sabão", publicado na década de 1920, no livro Ritmo Dissoluto, fala do tradicional balão. Não é exatamente a imagem explícita da festa junina, mas sim a metonímia dela. A partir de um refrão popular, de domínio público, que se repete ao longo do poema, Bandeira leva os leitores à Rua do Sabão e reaviva nessa memória coletiva uma das recordações mais vivas da infância.
 
“Cai cai balão
Cai cai balão
Na Rua do Sabão!
 
O que me custou arranjar aquele balãozinho de papel!
Quem fez foi o filho da lavadeira.
Um que trabalha na composição do jornal e tosse muito.
Comprou o papel de seda, cortou-o com amor, compôs
os gomos oblongos...
Depois ajustou o morrão de pez ao bocal de arame (...)”
 
CYRO DOS ANJOS

O escritor, que vem de uma tradição junina forte nas Minas Gerais, também apresenta uma grande referência à festa em um capítulo de seu livro O Amanuense Belmiro. Extremamente lírico, o capítulo "Um São João que vai longe" traz o sujeito adulto se lembrando dessa festa que marcou tanto a memória do interior do Brasil:
 
“Quando vi a fogueira, passei ao largo, com medo de que os meninos me atirassem bombinhas. Mas, mesmo de longe, pude apreciar esse São Joãoalegre e buliçoso, cheio de balões e de vozes gratas da infância.Apesar da literatura que se faz pelo Natal e pelo São João, esses dias continuam inundados de uma poesia própria, que resiste a todas as agressões dos principiantes das letras. Permanecem com sua força evocativa e voltam com aquela pontualidade inexorável para vir lembrar-nos que estamos envelhecendo irremediavelmente.”
 
GRACILIANO RAMOS

O escritor nascido em Alagoas traz para sua literatura reminiscências das festas juninas mais tradicionais do país, no sertão nordestino. Em São Bernardo, um de seus romances mais conhecidos, que narra a ascensão do latifundiário Paulo Honório, Graciliano descreve no capítulo 7 uma festa junina:
 
“Nas noites de São João, uma fogueira enorme iluminava a casa de seu Ribeiro. Havia fogueiras diante das outras casas, mas a fogueira do major tinha muitas carradas de lenha. As moças e os rapazes andavam em redor dela, de braço dado. Assava-se milho verde nas brasas e davam-se tiros medonhos de bacamarte. O major possuía um bacamarte, mas o bacamarte só desenferrujava nos festejos de São João.”
 
Graciliano traz reminiscências das festas juninas do sertão nordestino
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
 
Vale ainda lembrar que um dos poemas mais famosos de Drummond – “Quadrilha” – leva o nome da típica dança realizada nos festejos juninos. Apesar de o enredo do poema não explicitar a temática, o ritmo segue o mesmo dessa tradição junina, possibilitando uma analogia com a troca de pares que acontece em dado momento da quadrilha:
 
“João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.”
 
ALBERTO CAEIRO

E, por último, mas não menos importante, uma menção honrosa aos portugueses, que trouxeram a tradição da festa junina ao Brasil. O poema “Noite de São João”, de Alberto Caeiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa:
 
“Noite de São João para além do muro do meu quintal.
Do lado de cá, eu sem noite de São João.
Porque há São João onde o festejam.
Para mim há uma sombra de luz de fogueiras na noite,
Um ruído de gargalhadas, os baques dos saltos.
E um grito casual de quem não sabe que eu existo.”

 
O famoso romance São Bernardo, de Graciliano, também tem passagens juninas
Cyro dos Anjos tem um capítulo bem lírico sobre a festa junina em O Amanuense Belmiro
 
Comentários (1)
juluio cesar - 02/06
eu não li nada tinha muita coisa kkkkkkkk
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