Olá Visitante, seja bem vindo!
Faça Login ou Registre-se
Artes
Filmes e Séries
Games
Literatura
Música
Quadrinhos
Home > Para Ler > Matérias
A hora e a vez do conto07. 07. 2014
Literatura
Rubem Fonseca
Por Maria Fernanda Moraes
 
Em "Conto (não conto)", o escritor Sérgio Sant’Anna brinca com seu leitor: “Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha.Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar”.
 
Não é necessário ter muita coisa além desse parágrafo autoexplicativo para mostrar que hoje o conto é um gênero tão flexível quanto a própria literatura. Entretanto, nem sempre foi assim. Antes, ele tinha um formato mais fechado, com começo, meio e fim, e trazia um acontecimento, uma história.
 
Em Teoria do Conto, Nádia Battella Gotlib relata que foi de Anton Tchekhov a missão de libertar o conto de um dos seus fundamentos mais sólidos: o do acontecimento, afastando-se assim dos textos de Guy de Maupassant, que traziam um evento que flui naturalmente.
 
A evolução é natural, conforme explica André Sant’Anna, filho de Sérgio e também contista. “Antigamente era um modelo fechado, de uma história literária. Quando não se contava uma história, acabava se transformando em crônica. Mas hoje em dia a crônica e o conto se misturaram tanto – a própria poesia e o ensaio também entram nessa – que fechar a literatura só em conto, romance, novela e poesia é muito pouco. Acho que o conto virou o gênero onde se tem mais espaço para experimentação”.
 
André é um bom exemplo da diferença geracional entre contistas. “Meu pai é mais um artesão da literatura em relação à maneira de ele escrever e reescrever. E eu já improviso mais, não tenho essa coisa do artesanato literário. Misturo muito a literatura com outras coisas, uso muito primeira pessoa, experimentação de linguagem”.
 
Noemi Jaffe, escritora e crítica literária,lembra que toda narrativa passou por uma ruptura, uma evolução no sentido de uma linearidade. Ela explica que o conto antes se encaminhava para um desfecho apoteótico, e agora não é mais assim. “Um conto pode não falar de assunto nenhum, não ter clímax, pode não ter começo meio e fim, pode não ter causa e efeito, pode não ter nenhuma ação. Em quantos contos da Clarice Lispector não acontece nada? A Lydia Davis [escritora estadunidense], por exemplo, tem contos de quatro linhas, que são totalmente desestruturadores, você lê e pensa: o que eu faço agora?”.
 
A relação dos escritores mais jovens com o conto também tem mudado. Luisa Geisler observa que, como ela, muitos escritores vieram de oficinas de criação literária, principalmente a partir dos anos 80, o que fez com que tivessem um olhar mais teórico sobre o gênero. “Nesse sentido, acho que têm uma compreensão teórica maior, a teoria do conto não é mais uma coisa tão elitista. Essa é uma diferença da minha geração. E acho também que são escritores mais versáteis – eles não têm problemas em escrever um conto, um romance, são mais flexíveis em termos de gênero”, completa.
 
Em consonância com esse novo cenário, eventos como o Festival Nacional do Conto, o único dedicado ao gênero na América Latina (e que foi realizado em maio em Florianópolis), são importantes para abrir o debate, reunindo escritores e expondo os diferentes fazeres do conto.
 
Carlos Henrique Schroeder, escritor, curador do festival e editor da Design Editora, observa que, embora tenha ocorrido um aleijamento do conto nos últimos tempos no mercado editorial, a cena digital é o grande momento desse formato. “Tem vários autores buscando publicar em formato digital. Atualmente nós temos a Formas Breves, selo digital dedicado ao conto; a Flaubert, que é uma revista digital de contos; então, hoje em dia o ‘gueto’ é o conto. Eu espero que o digital funcione como uma revitalização do gênero do conto, com as pessoas lendo em celulares, tablets, nos seus computadores. Acho que o mercado digital vai ajudar muito a proliferação, a difusão e o fomento do conto”.
 
NOCAUTES, FOTOGRAFIAS E NARRATIVAS
 
No caminho dessa tradição, não faltaram autores que tentaram definir e teorizar sobre o fazer do conto. O argentino Julio Cortázar dizia que “o romance está para o conto assim como o cinema está para a fotografia”, já que o conto, como a fotografia, recorta um fragmento da realidade, devendo, portanto, ser significativo. E numa analogia ainda mais contundente, compara-o ao boxe: “O romance vence por pontos, o conto por nocaute”.
 
Cortázar estudou e traduziu para o espanhol todos os contos de Edgar Alan Poe e sintetizou também o conceito do estadunidense para esse gênero: “Um conto é uma verdadeira máquina literária de criar interesse”.
 
Já Ernest Hemingway, compatriota de Poe, não concordava muito com as definições deste quanto à extensão, ao acontecimento extraordinário e muito menos ao final surpreendente. Hemingway criou a teoria do iceberg: num conto, o mais importante da história não deve ser contado, mas deve ficar oculto bem abaixo da superfície da água. A narrativa deve ser construída com o não dito, o subentendido.
 
André Sant'Anna recomenda o livro mais recente de Rubem Fonseca
Clarice Lispector representa a tradição feminina no conto
Marcelino Freire é um bom caminho para os iniciantes
 
É por essa linha também que seguia Ricardo Piglia. Para ele, um conto, seja ele clássico ou moderno, sempre conta duas histórias: uma visível e outra secreta. Mas cada uma das duas pode ser revelada de modos diferentes. O talento individual está na maneira como cada contista trabalha a tensão entre as duas tramas, fornecendo ou suprimindo informação.
 
Entre os brasileiros, Dalton Trevisan tem uma boa definição: “um bom conto é pico certeiro na veia”. E Mário de Andrade, em “Contos e contistas”, sacramenta: “em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto”. Ao que Sérgio Sant'Anna assina embaixo. “O conceito de conto é bem elástico hoje em dia. Prefiro a palavra narrativa, que cabe tudo. Mas de qualquer maneira, não vamos fazer isso um drama, vamos fazer nosso papel de contista”.
 
FACILIDADE E FACILITADOR

O que é de comum acordo entre os escritores é a dificuldade de se escrever contos. Machado deAssis, grande contista, já alertava: “É gênero difícil, a despeito da sua aparente facilidade”.
 
Para Noemi, é sempre um desafio muito grande escrever um conto, embora o gênero seja um facilitador para leitores iniciantes. “Eu sempre aconselhava meus alunos do ensino médio a começar a ler por crônicas e, depois, por contos, por causa da extensão. Atualmente as pessoas têm muito pouco fôlego de leitura, porque fazem tantas coisas e a internet é muito veloz... Então o conto chega como um facilitador”.
 
Luisa pondera que isso depende muito do leitor e da experiência dele. “Para minha geração, por exemplo, Crepúsculo é mais fácil de ler do que um conto do Machado de Assis. Nem sempre é a entrada mais tranquila. Acho que depende tanto do leitor quanto do autor. É uma forma curta, mas não menos trabalhosa de leitura”.
 
O QUE LER E POR ONDE COMEÇAR?

Para os leitores iniciantes, o SaraivaConteúdo pediu aos escritores que dessem dicas de seus contistas preferidos. Para os já familiarizados com o mundo do conto, aqui vão dicas para novas leituras:
 
- Sérgio Sant’Anna:
“Temos contistas brasileiros muito bons, como Rubem Fonseca. Para quem quer iniciar no mundo do conto, ele é muito atraente, pois pega o leitor ‘pelo pé’. É muito difícil uma pessoa ler um conto dele e ficar indiferente, mesmo que essa pessoa não seja um leitor assíduo.
 
Dalton Trevisan também é muito bom e, entre os estrangeiros, Franz Kafka, naturalmente. Para um leitor jovem, recomendo Fernando Sabino – é bom para engrenar no desejo de ler.”
 
-André Sant’Anna:
“Rubem Fonseca é um ótimo início; ele é um mestre do conto brasileiro e continua produzindo até hoje – aliás, o último livro de contos dele, Amálgama, é excelente. Também gosto muito do Kurt Vonnegut Jr., Jorge Luis Borges, Sérgio Sant’Anna e Rafael Sperling, um escritor da nova geração.”
 
- Noemi Jaffe:
“Me influenciei muito pela Clarice Lispector. Acho que depois que ela escreveu, todo mundo foi um pouco influenciado por ela, inclusive as mulheres. E também tenho como preferidos Julio Cortázar, Jorge Luis Borges, Ítalo Calvino e Guimarães Rosa.”
 
-Luisa Geisler:
Eu li muito Lygia Fagundes Telles, foi muito importante na minha formação. Comecei por acidente – li Antes do Baile Verde; era uma leitura obrigatória na escola e me apaixonei muito.
 
Quando comecei a escrever, eu emulava autores como Hemigway, Tchecov, James Joyce. Para os jovens leitores, acho o Marcelino Freire bem acessível, é um cara que fala bem em público, e os contos dele são claros. Tem também a Carol Bensimon, que escreve contos com mais profundidade, mas não são difíceis de ler. Também gosto de André de Leones, Rafael Gallo, Alice Munro.”
 
- Carlos Henrique Schroeder:
“Eu gosto de muitos contistas, desde Borges, Cortázar, Raymond Carver, Bolaño, Kafka, Samuel Rawet, até esta nova geração, os escritores que participam do Festival... Leio todos. Como diz o Gonçalo Tavares, ‘eu prefiro ser influenciado por mil do que por cem’.”
 
Um bom conto é Pico Certeiro na Veia, diz Dalton Trevisan
Primeiras Estórias traz alguns dos contos mais conhecidos de Guimarães Rosa, como A terceira margem do rio
 
Comentários (1)
tonho - 07/07
Escritora "estadunidense" não existe, existe escritora americana.
Comente você também!
Nome

Mostrado junto ao comentário
Email

Não mostrado junto ao comentário
Postar Comentário
CAPTCHA
Copie os caracteres que
aparecem na figura ao lado

Notícias
Visite nosso site de vendas
Arquivo
powered by Brado! Networks