15 de Março de 2010 | 23:46
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Histórias de amor duram quanto mesmo? 
Um escritor na altura dos seus 30 anos, desempregado e sem fazer nada da vida, vivendo do dinheiro que a mãe, falecida, deixou para ele, sofre de bloqueio criativo e não consegue seguir adiante com o seu livro. Bem casado, Zeca vive com Julia, professora que faz mestrado e leva a vida mais a sério. A história começa quando uma terceira pessoa se envolve com o casal, mas, o que poderia ser mais um filme clichê sobre triângulos amorosos e uma comédia romântica, na verdade, mostra de maneira particular os relacionamentos neste início de século, além de abordar o niilismo e a falta de desejos e atitudes da geração que procura adiar a entrada no mundo dos adultos.
Histórias de amor duram apenas 90 minutos é a estréia de Paulo Halm, roteirista conhecido por filmes comoGuerra de Canudos, Pequeno Dicionário Amoroso e Dois perdidos numa noite suja. “Pelo que conta a sinopse, parece uma comédia romântica. Mas é apenas aparência. Disfarçado de comédia romântica, o filme trata de uma geração de pessoas talentosas que não conseguem decolar. Este fenômeno é bem comum na classe média aqui no Brasil. Pessoas inteligentes, sensíveis, e que, no entanto, se sabotam, se enrolam, ficam eternamente promissores, incapazes de realizar seus sonhos, seus projetos. São escritores que não publicam, cineastas que não filmam, promessas que não se cumprem”, diz Halm em entrevista ao site do filme. No longa, o casal é interpretado por outro casal que também está por volta dos 30 anos, Caio Blat e Maria Ribeiro. A terceira pessoa é a atriz argentina Luz Cipriota, que interpreta Carol, uma caliente portenha que mora em Santa Teresa, próximo à Lapa carioca, reduto do casal e por onde se desenrola o enredo.
“Recebi o roteiro do Paulo Halm, já o conhecia como um grande roteirista. É sua estréia como diretor, e adorei o título, Histórias de amor duram apenas 90 minutos. Comecei a ler e fiquei fascinado com o roteiro, é uma historia totalmente contemporânea, fala de relacionamentos, desejos de uma forma atual, sensual, engraçada, inteligente”, conta Caio Blat em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.
“No dia seguinte, falei com o Paulo que tinha adorado o roteiro. Só que é um casal que se envolve com uma terceira pessoa. E sugeri fazer com a Maria [Ribeiro, sua mulher], já que é um casal. O personagem tem tudo a ver com a gente no físico. São totalmente diferentes da gente, mas poderiam ser nossos amigos, pessoas conhecidas, nem tão distantes assim”, continua o ator, que participou de longas como Lavoura Arcaica, Carandiru, Batismo de sangue, O ano em que meus pais saíram de férias, mas também vem atuando em filmes mais independentes, como Cama de gato, Baixio das Bestas e Os inquilinos.
Segundo Caio, a idéia do diretor era essa, chamar o casal, só não sabia como convidar os dois. “Aí a Maria leu o roteiro e adorou também. Ou não?”, indaga Caio. “Adorei, achei que era um filme diferente do que tem sido feito. Ele fala de pessoas de 30 anos, que têm essa coisa do não amadurecimento, ao mesmo tempo em que não trata os jovens de maneira idiota. Tem a pessoa de 30 anos empreendedora, e outra, também na faixa dos 30, que fica em casa o dia inteiro. O filme fala dessa geração e, ao mesmo tempo, é leve, fala de um Rio de Janeiro diferente. Achei encantadora a idéia de falar de coisas próximas, o que não vemos muito. Ficamos com vontade de ver esse filme, quando lemos o roteiro”, afirma Maria Ribeiro, que fez a mulher do Capitão Nascimento em Tropa de Elite e atualmente filma a seqüência do filme de José Padilha. Ela estreou na direção no ano passado, com o documentário intimista Domingos, sobre o dramaturgo e diretor Domingos de Oliveira, com que já trabalhou algumas vezes.
Os relacionamentos contemporâneos são abordados de maneira sensível e plausível, com um olhar focado bem próximo do desenrolar das situações, seja nos diálogos, na relação de Zeca com o pai, nas festas regadas a maconha e cocaína, numa liberdade maior em relação à sexualidade. Zeca, o pretenso escritor, empaca numa história que envolve um açougueiro que decide se tornar fotógrafo e faz ensaios sensuais com mulheres em seu ambiente de trabalho. Até que elas começam a aparecer mortas e esquartejadas no açougue. O principal suspeito é o fotógrafo/açougueiro, mas... Aí é que a história a la Rubem Fonseca empaca. O escritor inclusive é citado no filme, quando, em uma festa, uma personagem acusa Zeca de imitá-lo – assim como fez boa parte da geração de escritores surgida nos anos 1990 –, o que ele nega veementemente. Esse bloqueio criativo, junto com o desapego crescente do casal, além do aparecimento de Carol, movem o filme.
O filme de Halm procura subverter um pouco os clichês dos filmes que envolvem triângulos amorosos, e promete situações que acabam por não se cumprir. O casal chegou a participar dessas escolhas? “O roteiro estava bastante pronto, o que fizemos foi dar textura para ele”, recorda Caio. “Colocamos muita sujeira, tornamos o roteiro quase um filme de documentário através das falas do casal, como ‘Me dá meu óculos’, ‘Cê tem dinheiro?’, ‘Onde que ele pôs a carteira?’, ‘Cê num comprou água!’. Essa textura cotidiana, sujamos bastante”, completa. Sobre Zeca, ele gostou de interpretá-lo: “Meu personagem é saborosíssimo, porque é um cara que vive na frustração, na contra vontade, tudo para ele dá errado. Quanto mais ele sofre, mais quebra a cara, mais engraçado o filme fica”. (Bruno Dorigatti)
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