24 de Julho de 2009 | 18:52|
 

Mario Bellatin e os silêncios eloqüentes   

Por Bruno Dorigatti


A talidomida, substância usada como sedativo e antiinflamatório, teve uma infeliz aplicação ao ser utilizada em mulheres grávidas para combater os enjôos matinais, nos anos 1960. Logo seria proibida, talvez um pouco tarde, já que o rigor médico estava longe de ser o que é agora (embora continue ainda muito falho, respondendo a interesses escusos), o que ocasionou o nascimento de dezenas de milhares de crianças com má-formação dos membros em todo o planeta. Entre elas, o mexicano Mario Bellatin, nascido em 1960 sem o braço direito. Ele se tornaria escritor, publicando seus primeiros livros nos anos 1980, e, em um livro lançado em 2001, traria para o universo de seus personagens essa questão e condição dos deformados de nascença. Entre as historietas do fragmentário Flores (CosacNaify), lançado no Brasil durante a Flip 2009, onde o autor participou de uma mesa ao lado de Cristovão Tezza, a má-formação de fetos e suas conseqüências é um tema recorrente. Um médico e sua enfermeira, que avaliam se as pessoas que buscam a indenização do laboratório que desenvolveu o medicamento são, de fato, vítimas do remédio, ou estão atrás de ganho financeiro; um escritor que não tem uma perna, vítima da talidomida, e sua errante trajetória; bebês gêmeos, sem os quatro membros; um pai que inocula o vírus da AIDS no próprio filho. Estes são alguns dos personagens que povoam as pequenas narrativas de Bellatin, todas elas permeadas pela discreta presença de flores, que nomeiam os capítulos/contos, daí o título do livro.

Por mais que possam indicar um aspecto sombrio e autobiográfico, as narrativas deFlores provocam outras impressões. É uma inadequação, um estado de incompreensão que permeiam o livro. E sobre a característica autobiográfica, é mera coincidência, afirma o autor. Em Paraty, durante a conversa com Tezza, mediada pelo escritor Joca Reiners Terron, Bellatin – que foi censurado por conta do falo que usava como prótese; o mediador foi aconselhado a não tocar no assunto [foto abaixo] – disse: “O texto deve se sustentar por si mesmo. Tudo o que quero é desaparecer”. Questionado sobre os limites entre ficção e verdade, retrucou: “Não se separa uma da outra. Sinto que não tenho nada a dizer, a não ser o que tenho a escrever. Não tenho menor idéia do que seria [a verdade]. Segundo o leitor, o escritor deveria estar presente em cada linha”. Sabemos que não é assim, porém, e graças, senão a literatura seria um rame-rame tedioso, muito parecido com essa urgência por “realidade” e “verdade” nos dias de hoje, vide os reality shows e similares que se utilizam dessa verdade construída. Como bem pontuou Tezza na mesma mesa, “a percepção estética da vida não pode ser a própria vida”.

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