28 de Agosto de 2009 | 18:46
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José Alvarenga e o retorno de "Os Normais" 
A boa sacanagem de
Rui e Vani
Eles estão de volta. Mais apimentados, em busca de uma
parceira para um ménage à trois, uma
tentativa de salvar o relacionamento de 13 anos, Rui e Vani estréiam nesta
sexta, 28 de agosto, Os Normais 2. A
noite mais maluca de todas. Depois de três temporadas de sucesso na TV, e
do primeiro longa, que alcançou um público de 3 milhões na salas de cinema com
uma história mais romântica, o improvável casal interpretado por Fernanda
Torres e Luiz Fernando Guimarães volta às telonas seis anos depois prometendo
muita sacanagem.
> Confira o site do filme
> Os Normais na Saraiva.com.br
> José Alvarenga Jr. na Saraiva.com.br
Não custa lembrar, porém, que não se trata de uma volta da
pornochanchada – que fez muito sucesso e quase se tornou um caminho único do cinema
brasileiro nos anos 1970 – nem de baixaria gratuita, mas de brincadeira com a
sexualidade, que se tornou uma coisa sisuda, organizada, se encaretou muito, na
opinião do diretor José Alvarenga Jr.
“A relação sexual, na arte, passou a ser reproduzida de uma
maneira muito sólida. E Os Normais vem
para quebrar isso. Vamos voltar a falar de sacanagem, de coisas que antes as
pessoas não se assustavam, e de uns tempos para cá passaram se assustar”,
comenta Alvarenga em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo.
O filme concentra em uma noite essa busca por uma parceira
que tope realizar a fantasia de Vani, na esperança que isso possa resolver os
problemas no casal. Entre as figuras dispostas a arriscar um sexo a três, estão
uma prima de Vani (interpretada por Drica Moraes), uma freqüentadora de karaokê (Daniele Winits), uma bicampeã
de kickboxing (Daniele Suzuki), uma bissexual (Claudia Raia), uma francesa
(Mayana Neiva) e uma garota de programa (Alinne Moraes). No típico humor já bem
conhecido pelos fãs do seriado, que tem roteiro do casal Alexandre Machado e
Fernanda Young, Rui e Vani dividem a uma minúscula banheira com Claudia Raia,
se esgoelam em um karaokê, interpretando “Livin’ la vida loca”, pérola
de Ricky Martin, tomam um surra de Daniele Suzuki, e procuram matar a
curiosidade do ménage com uma
prostituta.
Com um terceiro filme já a caminho, o seriado chamou a
atenção fora do país. Os direitos foram comprados para o mercado norte-americano
e as peripécias de Rui e Vani estão sendo adaptadas para um seriado a ser exibido
nos Estados Unidos, ainda sem previsão de estréia. Por aqui, o segundo longa
estréia com jeito de blockbuster, com
450 cópias, além de todo o apoio que a Globo Filmes proporciona. “A gente acha
que podemos competir, podemos botar um produto no ar e brigar com os grandes
filmes. Esse é o nosso foco, a nossa briga. Se vai dar certo ou não, é o
público que vai dizer”, aposta Alvarenga. A seguir, o diretor fala da
importância do humor em seus trabalhos, de outros séries e quadros que
desenvolveu, e fala da expectativa com esta nova aventura do hilário casal. (Bruno Dorigatti)

O humor
José Alvarenga Jr. Na verdade, o humor é muito importante na minha vida, mas, se você for olhar os
meus trabalhos em televisão, eu sempre procurei deslocar um pouco esse meu
desejo para o drama também. Na televisão, fiz um trabalho chamado Mulher,
seriado com Eva Wilma e Patrícia Pillar, co-dirigido com Daniel Filho, que era
um drama. Atualmente, estou fazendo Força Tarefa, um policial, como eu
fiz Justiceira,
outro policial. Eu fiz Os
Amadores, concorremos ao Emmy com ele, uma mistura de drama com
comédia. Então eu gosto de ter minhas escapadas. Na verdade, a comédia é meu
maior prazer, onde eu me sinto mais a vontade. Mas a minha inquietação não me
permite ficar só na comédia. Mesmo dentro da comédia, a gente procura sempre
diversificar, de uma comédia mais amalucada a uma comédia mais erótica, a uma
comédia mais popular, como foi com A
Diarista, a uma comédia mais sofisticada, como foi com Minha
nada mole vida. A gente diversifica, mas a comédia é meu ponto forte, o
que eu mais gosto de fazer.
As parcerias
Alvarenga. Os
Normais acabou em 2003. De lá para cá, eu, Alexandre Machado e Fernanda
Young [os roteiristas] tivemos vários outros projetos em parceria. Fizemos Os Aspones, foi um trabalho muito bacana
na televisão, com Selton Mello, Marisa Orth, Drica Moraes, Pedro Paulo Rangel,
Andréa Beltrão, uma galera maravilhosa. Fizemos Minha
nada mole vida, com o Luiz Fernando Guimarães, foram três temporadas.
Fizemos o “Supersincero”, também com o Luis Fernando, que era um quadro no
Fantástico. Fizemos outro quadro chamado “As 50 Leis do Amor”, co Diogo Vilela,
Débora Bloch e Andréa Beltrão. Então essa parceria está sempre viva, entre nós
três. E temos projetos futuros muito interessantes. Com a Fernanda [Torres],
estive menos, mas ela contribuiu com Os
Amadores e foi um barato.
Agora, quando se junta todo mundo é claro que é instigante, porque
a gente se dá muito bem artisticamente. Há o prazer de estar junto, e mais do
que isso, há uma democracia real. Normalmente, artistas têm conflitos, porque
têm pontos de vistas, na maioria das vezes, subjetivos. E com a gente, a nossa
subjetividade é aceita. Ela é discutida e cada um sabe o ponto em que o outro
realmente está com a melhor idéia. Quando você consegue montar um grupo que tem
essa chegada, tem essa abertura, essa visão de mundo, você tem grandes chances
de fazer sucesso com o seu trabalho. Quando a gente vê a história do rock,
percebe isso nos grupos. Quantos grupos duram 30 anos como os Rolling Stones,
com todas as brigas? Mas há uma compreensão ali que faz com que o grupo fique
unido, né? Coisa que já não aconteceu com os Beatles, por exemplo, e outros
grupos muito mais efêmeros, que se dissolvem muito rápido, porque não há essa
confluência de idéias. Então Os Normais é uma velha banda de rock, que toca jazz. Porque a gente sabe
trocar um com o outro, é um pouco da viagem do jazz, a gente improvisa e reconhece
quando o outro está com a melhor idéia. Isso é prazeroso, não é ofensivo.
Cenas memoráveis
Alvarenga. Gosto
muito no primeiro filme da sombra chinesa. Aquela seqüência em que o Evandro
[Mesquita] está na janela e a Vani – que quer provocar e sacanear um pouco ele
– simula uma série de atos sexuais fortes pela sombra. E ele vê coisas
incríveis. Eu acho o resultado dessa seqüência muito interessante, porque foi
muito de improviso. A gente sabia que iria fazer uma sombra chinesa, mas a
gente não sabia como ainda, e isso se resolveu durante a filmagem. Os atores,
eu, a gente foi buscando as posições de câmera, como aquilo funcionaria, a luz.
A Fernanda foi dando idéia, o Luiz também. A seqüência que eu mais gosto de
todo o seriado – é difícil, porque foram 71 programas – é uma seqüência final,
do último programa da primeira temporada, quando neva. Depois de discutirem a
relação, depois dessa exaustão no Natal, onde tudo deu errado, o Rui e a Vani estão
no terraço e a maneira de um declamar o amor pelo outro é imaginar que poderia
nevar no Rio de Janeiro. E a gente fez essa cena nevando, e foi muito bonito,
porque no meio do humor a gente conseguiu trazer uma emoção que, na época,
chegou perto do coração do público, a gente sentiu isso no dia seguinte. Então
é uma cena pela qual eu tenho muito carinho, porque ela foi feita com uma
elegância, com uma maestria, uma sutileza, que só um grande grupo poderia
encontrar.
Expectativa
Alvarenga. A
gente, quando faz um projeto – e não tenho nenhum pudor de falar isso –, pensa
em atingir muita gente. Isso não é uma simplificação, é uma ampliação do
processo. Se você imaginar quantos diálogos você tem que criar dentro de um
filme, e com quem você vai falar, com essa massa, que pega um engenheiro, um
trocador, uma psicóloga, um artista plástico. Essa turma toda via Os Normais, ele tinha uma audiência muito forte, pegou todo mundo, apesar
de ser um programa claramente de classe média. E quando o primeiro filme teve 3
milhões de público, esse compromisso vem à tona. Mas desde o início do processo
a gente já pensa nesse público, que não tem uma cara, mas temos uma intuição.
Cada piada que a gente faz, cada cena que a gente constrói, o ritmo do filme é
feito dentro de uma intuição artística. A gente acha que vai comunicar o que
queremos para uma grande parte das pessoas, pela qualidade do discurso.
Há uma cobrança, e ao mesmo tempo, há um estímulo, um medo,
estamos todos ansiosos, porque o filme estréia em 450 salas. É estréia de blockbuster, do nível de Harry
Potter. E me perguntaram recentemente, da imprensa, por que uma estréia tão
grande? Porque a gente não tem o complexo de vira-lata, que o Nelson
Rodrigues falava. A gente acha que pode competir mesmo, que podemos botar
um produto no ar e brigar com os grandes filmes. Esse é o nosso foco, a nossa
briga. Se vai dar certo ou não, é o público que vai dizer. Mas nesse momento, a
gente põe todas as nossas fichas nas 450 salas. Temos um bom filme na mão, um
filme divertido, sacana. Ele retoma o lado sacana do brasileiro, que eu acho
que estava meio fora de lugar há um tempo. Esse mesmo papo que a gente encontra
nos bares, nos banheiros femininos, no estádio de futebol, a gente trouxe para
o filme. Sexo pode ser divertido, sexo pode ser brincadeira. Eu vejo uma coisa
sisuda, organizada, compromissada, que é um pouco como está ficando esse
discurso sexual no Brasil. O brasileiro sempre teve uma facilidade com isso, é
um povo latino, o brasileiro tem, o italiano tem, o francês tem [essa
facilidade de lidar com o sexo]. E a gente, de repente, encaretou. A relação
sexual, na arte, passou a ser reproduzida de uma maneira muito sólida. E Os Normais vem para quebrar isso. Vamos voltar a falar de sacanagem, de
coisas que antes as pessoas não se assustavam, e de uns tempos para cá passaram
se assustar. Então a aposta é grande.
Quanto ao momento do cinema brasileiro [com comédias fazendo
sucesso] – foi uma declaração que a Fernanda Torres deu outro dia – foi uma
casualidade. Porque, para um filme estar em cartaz hoje, ele vem sendo
preparado há três, quatro anos. A gente não poderia imaginar, nem eu, nem o
Daniel Filho [diretor de Se eu fosse você
2, maior bilheteria da chamada retomada do cinema nacional, com mais de 6
milhões de espectadores], nem o Cláudio Torres [diretor de A mulher invisível, também entre os mais assistidos do ano no país],
apesar de sermos todos muitos próximos, que a gente iria ter filmes de comédia
de sucesso.
Foto de Tomás Rangel

Cinema, televisão,
publicidade
Alvarenga. A
minha origem é cinematográfica. Eu nasci em cinema, minha família é de cinema,
tudo o que eu tenho na minha vida veio do cinema. Não tem um chiclete que eu
tenha comprado que não tenha vindo do cinema. A minha mamadeira veio do cinema.
Cinema, para mim, é a base, cinema eu respeito. A partir daí, você tem os
outros meios do audiovisual para um diretor, que, no meu caso, sempre foram
interessantes. Sempre tive interesse em fazer televisão. Sempre achei televisão
um foco de comunicação absurdo, um campo enorme onde você pode exercitar. Você
tem a chance de desenvolver projetos ousados na televisão, pode colocar a tua
inquietação ali, e dialoga com milhões, e de uma maneira instantânea, porque a
preparação de televisão é diferente. Um programa de televisão, eu preparo em
cinco meses, já com a idéia, o projeto, a grana, porque está tudo ali, é tudo
concentrado. Ao contrário do cinema, que tem essa diluição, em três, quatro
anos.
Na televisão, é fabuloso, você exibe o teu programa na
terça-feira, e na quarta, está todo mundo falando do que viu. E na outra terça,
já é outro programa que eu estou apresentando. Esse meio sempre foi muito
interessante, sempre fui um cara fascinado por televisão também. E fiz
publicidade muitos anos, que foi aonde eu pude exercer a minha parte formal. Na
publicidade, é necessário que você seja um esteta, ela pede isso. Foi aonde eu
pude desenvolver e estudar muito, fotografia, composição, pintura, para poder
colocar uma qualidade formal nos produtos que eu fazia. Eu devo muito à
publicidade parte dessa minha formação, sou publicitário até hoje. Nesses três
meios, eu navego com muita tranqüilidade, agora, eles são diferentes. É claro
que posso levar para um filme algo que descobri enquanto fazia televisão, como
também levo para a televisão algo que descobri fazendo filme. Mas a maneira de
olhar é totalmente diferente.
O cinema é amplo, na parte estética e na parte ética também.
É um lugar onde a gente pode falar coisas que na televisão, por uma série de
restrições, a gente não pode. Você tem que saber explorar isso. Os Normais, no cinema, é totalmente diferente do que na televisão. O
primeiro filme tinha um foco amoroso que a gente nunca teve no programa, era
mais uma linha de comédia romântica, a gente queria isso. Nesse filme agora, a
gente fala de sacanagens que não falaria na televisão nunca. E olha que na
televisão fomos muito ousados, Os Normais abriu uma porta grande na TV. Mas no cinema a gente pôde
explorar mais isso. Fizemos um filme extremamente sacana. Os Normais 2 é a boa sacanagem, o ménage à trois. Perguntaram-me se seria uma retomada da
pornochanchada. Não é, porque ela tinha um componente necessariamente erótico,
um peito de fora, uma bunda, uma calcinha. O nosso filme não tem isso, não é
erótico, mas traz a brincadeira na sexualidade, uma coisa que a gente acha
fundamental, recolocar esse pensamento, principalmente na comédia brasileira.
> Confira o site do filme
> Os Normais na Saraiva.com.br
> José Alvarenga Jr. na Saraiva.com.br
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