15 de Outubro de 2009 | 19:27|
 

Pedro Luís estréia como escritor   

Em 1993, o cantor e compositor Lenine juntou-se ao percussionista Marcos Suzano para lançar um dos mais importantes discos da década passada. Olho de peixe abordou e registrou o Nordeste profundo e a urbanidade dos grandes centros brasileiros, tanot na temática, como no estilo e na musicalidade. A dupla, com o pernambucano na voz e violão e o carioca com sua peculiar e inconfundível batida de pandeiro, registrou o cruzamento de ritmos e estilos por onde poucos, até então, se arriscavam, em melodias e levavas inventivas e originais, que iriam influenciar definitivamente a geração vindoura de nossa música. 

Passados mais de 15 anos, o disco foi o escolhido por Pedro Luís, também músico, integrante do Pedro Luís e A Parede e um dos criadores do Monobloco, para participar da Coleção Língua Cantada, da editora lusófona Língua Geral, onde cada autor foi convidado a escrever livremente sobre um disco brasileiro significativo, não importa a forma, podia ser uma entrevista, uma resenha, uma crônica, uma crítica, um romance, um livro de poesias. 

Logo parecia que assim sempre fora é a primeira experiência editorial de Pedro Luís, “espero que a primeira de muitas”, diz o músico, que cresceu em um ambiente favorável à leitura e aos livros. “Sempre tive uma ligação estreita com a literatura, apesar de nunca ter feito nada formalmente que não fosse ligado à música. Sempre escrevi, tenho muitos poemas que não são musicados nem são musicáveis, talvez, e que não foram feitos com essa intenção”, conta ele nessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo

Ele começou a escrever poemas antes de compor, pois, em sua casa a leitura era hábito comum a todos. “Tenho irmãs professoras de literatura, meu pai era poeta também, apesar de nunca ter publicado nada. Tinha um estilo mais a Olavo Bilac, aquelas rimas superbarrocas. Então a gente sempre teve um gosto pela literatura lá em casa, que me fez, muito cedo, começar a achar que eu escrevia versos.” 

Primeiramente, ele pensou em escrever algo a partir de Cartola. “Depois de rodar um pouco cheguei ao Olho de Peixe, de Lenine e Suzano, para mim, um marco. Foi quando a gente ouviu o disco – um pouco antes da Parede, mas já trabalhando juntos, eu e os integrantes do que viria ser a Parede e futuros mentores do Monobloco – e falou, ‘poxa, pode fazer disco assim, né?’. Primeiro, bonito que só, e com aquela coisa que tirava a percussão da cozinha e botava na sala de estar. Esse disco é muito significativo para mim”, afirma. 

Em Logo parecia que assim sempre fora, Pedro Luís delira livremente sobre os títulos das 11 canções, entre elas “Acredite ou não”, “Escrúpulo”, “Caribenha Nação Tuaregue Nagô”, “A gandaia das ondas pedra e areia” e “Olho de peixe” [Leia dois deles ao final do texto]. “Fiz prosa poética, são bem curtinhos os capítulos, um para cada música. E os títulos aparecem, ou abrindo, ou no meio, no contexto dessa prosa poética, que dialoga com imagens e sons de nossa língua e cultura. 

A coleção é uma parceria da Língua Geral com o Núcleo de Estudos Musicais do CESAP (UCAM), que convidou músicos, escritores, acadêmicos, críticos, produtores e poetas para propiciar aos leitores a análise da fértil e tradicional relação que se estabelece no país entre a literatura e a música popular.  Nesta primeira leva, o poeta Paulo Henriques Britto escreve sobre Eu quero é botar meu bloco na rua (1973), do maldito Sérgio Sampaio, ora redescoberto com o lançamento de trabalhos seus por Zeca Baleiro; a filósofa Rosa Dias analisaDor de cotovelo (1973), último disco de carreira do compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues, conhecido pela clássica “Felicidade” (“Felicidade foi-se embora/ e a saudade no meio peito/ ainda mora e é por isso que eu gosto/ lá de fora, onde seu que a falsidade/ não vigora”); Santuza Cambraia Naves se debruça sobre Velô (1984), de Caetano Veloso; e Heloisa Starling, sobre Paratodos (1993), de Chico Buarque. (Bruno Dorigatti)


> Confira dois textos do livro de Pedro Luís, Logo parecia que assim sempre fora


Munido sabiamente do olho de peixe divinamente emprestado pelo destino, fui captando cada sinal que você me oferecia. Com uma definitiva colaboração dos meus ouvidos, colecionei estímulos dos múltiplos sentidos. Tato, paladar e olfato eram audiência na primeira fila, esperando sabiamente a hora de interferir e coadjuvar neste espetáculo. Muito precocemente já não havia dúvida. Tanto que logo parecia que assim sempre fora.


Escrúpulo

1: artigo escasso, coisa que anda raríssima. É curioso que nessa habitual corrida pelos bens que vão se extinguir, ele - o escrúpulo - seja cada vez mais raro, mas, paradoxalmente, menos valorizado. Mundo de bens estranhos.
2: não tive o menor escrúpulo de me atirar/mergulhar em você. Telegráfico/cibérnetico: juntando tempos de velocidade distintas compusemos nosso cronos particular. Abusei da escassez; me vali dela. No caso, valeu.


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