21 de Outubro de 2009 | 23:08|
 

Lucas Santtana e seu peculiar disco com voz e violão   

O músico baiano acaba de lançar Sem nostalgia (2009), um disco de voz e violão. Mas, como afirma nessa entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, “que soasse de outra maneira, algumas faixas como uma banda, outras como eletrônico, outras mais folk”. Todos os sons do disco foram tirados da voz e violão, além da ambientação com sons da natureza, nenhum outro instrumento foi usado. Isso tudo foi retrabalhado com efeitos no estúdio, fitas de rolo, além de máquinas como o mpc, utilizado nos funks cariocas. 

Cada faixa do disco foi uma experiência com esse formato, voz e violão. Uma delas, “Ripple of the water” – composta com Arto Lindsay, que assina outras duas músicas cantadas em inglês – foi gravada no Jardim Botânico, no meio da noite, com vários microfones captando aleatoriamente os sons dos insetos e da natureza. Em “Who can say which way”, Lucas usa o violão para achar sons de instrumentos de percussão, baixo e guitarra, acompanhado dos músicos Ricardo Dias Gomes, Marcelo Callado, Gustavo Benjão e Gabriel Bubu, da banda Do Amor. Segundo o músico, Sem nostalgia é uma experiência com o fim do formato da composição pronta em voz e violão, estrutura base da canção.


Os vinis da porta da Fundação Cultural de Salvador
 


Aos treze anos, impressionado ao ver um músico tocando flauta transversa, decidiu que queria aprender a tocar. O incentivo partiu dos pais, que lhe deram uma flauta doce e alguns vinis, comprados por sua mãe de um senhor na porta da Fundação Cultural de Salvador, local onde trabalhava. Nesses vinis havia de tudo, música clássica, John Coltrane, Chick Correa e outros mais. Lucas fora bastante aficionado por esses álbuns. Dois anos depois, foi estudar numa escola onde se ensinava teoria musical através de canções populares de Tom Jobim, Chico Buarque, Gil, Caetano. A chamada AMA, Academia de Musica Atual, foi fundada por Sergio Souto e Aderbal Duarte no início dos anos 80 e fechada durante o Plano Collor. Na Faculdade de Música da Bahia, estudou música erudita, e aprendeu a tocar flauta clássica, e também teve contato com música de câmara, experimental e contemporânea. Nessa época, conheceu compositores como Lindemberg Cardoso e freqüentava orquestras. Depois de terminar a faculdade e ser aprovado em um curso na Alemanha, estudar alemão, o baiano  optou pela música popular. "Essa passagem pela faculdade me abriu a cabeça. Na música erudita, o som é tratado como uma matriz. Ele está ali para ser experimentado em suas diversas formas possíveis", conta Lucas.

Morando no Rio, descobriu um mundo empoeirado de discos na casa de seu pai, e teve grande contato com artes plásticas, teatro etc. De volta à Salvador encontrou Gerônimo, famoso músico na Bahia, da geração de Carlinhos Brown e Luiz Caldas, que o chamou para tocar. Em 1993, participou da gravação de Tropicália 2, com Caetano Veloso e Gilberto Gil e, um ano depois, foi convidado a gravar e participar da turnê do Acústico MTV, de Gil, como flautista, quando ficou três anos em turnê com a banda viajando pelo Brasil e pela Europa.

Nesse período começou a tocar violão e a compor, o que resultou em seu primeiro disco autoral, Eletro Ben Dodô (2000), produzido pelo Chico Neves e mixado no estúdio Realworld de Peter Gabriel. Eletrobendodô tem influência da música da Bahia, das possibilidades de se mixar a percussão que ele conheceu quando criança no Candeal, dos ensaios do Timbalada, do pop, do dub, da MPB e do manguebeat de Chico Science, com quem tocou em Afrociberdelia (1996). 

O segundo disco, Parada de Lucas (que pode ser uma gíria ou um bairro no subúrbio do Rio), lançado em 2003, dialoga com o universo do funk carioca e surgiu de sua amizade com Dj Malboro. Uma prova disso é a faixa “Samba Cubano” em que ele usa o trecho da letra de funk de Amilcka e Chocolate – "é som de preto e favelado/ mas quando rola nas caixas de som/ ninguém fica parado". O disco conta com “Lycra-Limão”, na leavada mais baiana, incluída na trilha sonora do filme Deus é brasileiro, e “Punky Reggae Party”, uma releitura de Bob Marley, gravada em Babylon by Bus.

3 sessioons in a greenhouse, de 2006, de título auto-explicativo, foi gravado em três sessões ao vivo no estúdio Ar, na reta como se fala no meio musical. Todos tocando juntos, como em um show. Vale a melhor tomada coletiva. Sem regravação, sem retoques. Cheio de participações e marcado pelo dub e o afrobeat, o disco segue a linha de texturas sonoras de seu trabalho, com destaque para a faixa “A natureza espera”, feita com Wado e inspirada na batida de “Colonial mentality”, de Fela Kuti; para a faixa onde a jornalista americana Phylis Huber lê um trecho de The waves (As ondas), de Virginia Woolf, que descreve um nascer do sol pra lá de psicodélico; e para a balada “Into shade”, parceria com Arto Lindsay.

Na entrevista, Lucas Santtana comenta seus discos, fala do funk carioca e do getthotech, gênero que mistura sons tradicionais com batidas eletrônicas nas periferias ao redor do mundo. (Aline Pina e Bruno Dorigatti)

[Foto de Tomás Rangel]

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