Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel e divulgação
> Assista à entrevista exclusiva de Roberto Berliner ao SaraivaConteúdo
Em uma cobertura de um prédio, cercada de árvores, um jovem
Herbert Vianna comenta: “Acho que eu sempre consegui todas as coisas que eu
quis e não vejo nada que eu queira e não me sinta capaz de conseguir. Acho que
mesmo se a gente parasse e acontecesse uma tragédia, eu ia começar de novo, ou
música, ou alguma outra coisa, e ia conseguir tudo de novo.”
E aconteceu. Herbert se viu envolto em uma tragédia, perdeu
a mulher e teve que recomeçar praticamente tudo de novo, depois de passar 44 dias
internado, parte dele em coma. O cantor e compositor ficou paraplégico após
cair junto com Lucy, sua esposa e mãe de seus dois filhos, mas seu cérebro
preservou as funções essenciais,
como linguagem,
escrita, inteligência, atenção, criatividade, planejamento, cálculo, motivação
e iniciativa.
Mas
Herbert, mesmo que critique aquela postura juvenil, não pode ser acusado de
arrogante. Em outro momento, é ele também quem fala: “A minha autoconfiança é
zero. Eu não confio nada na minha capacidade de criador, não me vejo como um
artista, de maneira nenhuma. Não me acho uma pessoa particularmente
inteligente. A minha virtude é a capacidade de trabalho”.
Estas
e muitas outras facetas do vocalista e guitarrista que, junto com João Barone
(bateria) e Bi Ribeiro (baixo), criou Os Paralamas do Sucesso, uma das mais
importantes bandas do rock brasileiro dos anos 1980, são reveladas no novo
documentário de Roberto Berliner, Herbert de perto, que entra em
cartaz no país no próximo dia 9 de outubro.
Berliner,
diretor de outros dois documentários, A
pessoa é para o que nasce, sobre as três irmãs ceguinhas, cantadoras de
coco, e Pindorama – A verdadeira história
dos sete anões, a respeito do circo criado por uma família de anões, debruçou-se
desta vez sobre a trajetória de um grande amigo seu. A relação com Herbert e Os
Paralamas data dos primórdios do Circo Voador, mítica casa de shows no Rio de
Janeiro, que surgiu na praia do Arpoador, antes de se estabelecer embaixo dos
Arcos da Lapa, no início dos anos 1980. “A gente se encontrou lá
a primeira vez, eu filmava todas as bandas que tocavam lá. Conheci, mas a gente
nem se aproximou tanto”, conta Berliner em entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. Em 1986, o diretor
havia feito o clipe de “Délica”,
da cantora Dulce Quental. O trio gostou e o chamou para fazer o videoclipe de “Alagados”. Logo em
seguida, ele dirigiu o clipe de “A novidade”, e a partir
daí começou uma longa relação de amizade e trabalho, com o diretor registrando
praticamente tudo o que pôde relacionado à banda, uma das primeiras a misturar
ao rock n’ roll sonoridades caribenhas, como o reggae e o ska.
Estas centenas de horas de material bruto, de shows – como
a hoje clássica apresentação no Rock in Rio em 1985 –, ensaios e momentos
íntimos compõem a base para Herbert de perto,
que conta com entrevistas e depoimentos dos integrantes da banda, da família e
amigos, como Dado Villa-Lobos, além do próprio Herbert, hoje, falando, seja dos
momentos de sua vida, como destas imagens de arquivo, montadas e levadas para
ele assistir, como parte do processo do documentário. “O filme é essa relação
do Herbert de hoje com a história dele. Uma coisa pessoal, entre dois amigos. A
banda tem um papel fundamental nisso aí, e na música brasileira, mas talvez
seja um outro filme”, conta Berliner, para quem, no trabalho de Herbert, o lado
pessoal se sobressai. “É a música e a poesia, que são um pouco a vida dele. E
as músicas vão traduzindo isso, todas as fases pelas quais ele vai passando.
Assim como a minha relação com ele, o filme é um pouco essa mistura também, de como
a música ajudou muito o Herbert. Ele recomeça tudo através da poesia, das
palavras, das rimas, e a música, que não ficou abalada em nenhum momento”,
conta o diretor sobre o autor de músicas que compõem o imaginário dos jovens que
cresceram ao longo dos anos 1980, como "Óculos", "Meu erro", "Ska",
“Alagados”, “A novidade”, “Melo do marinheiro”, e “Lanterna dos afogados”.

Por conta dessa relação de 25 anos, Berliner teve muita
dificuldade para editar o material. “Estava falando de um amigo muito íntimo,
de uma história muito próxima. E tem momentos muito fortes, para além do
acidente. Isso foi muito difícil e acho que o Pedro Bronz [co-diretor e
montador do filme] teve um papel fundamental aí. Eu de perto e ele distanciado.
Essa equação foi fundamental, pois tinha momentos em que eu já estava perdido,
e o Pedro vinha com uma coisa mais racional. Foi difícil, mas foi bacana
também.”
Nesse filme, diferente dos outros dois, Berliner não foi
buscando uma história. Ele já a tinha, faltava-lhe o modo como iria contá-la. Nos
outros filmes, a forma e o conteúdo se misturavam mais. “Meus filmes são muito
assim, essa relação clara e direta com os personagens, sem muita censura. Nos anteriores,
tinha uma investigação, estava entrando num mundo que não era meu. Eu estava
ali em busca de conhecer como esses mundos transitavam dentro do nosso mundo. O
primeiro documentário, A
pessoa é para o que nasce, é sobre como aquelas três mulheres cegas se
juntam, sem educação, sem higiene, sem dinheiro, sem atenção, sem nada, e
conseguem fazer uma unidade, viver, conviver, de alguma maneira, sobreviver.
Isso que me interessava, como eram os papéis de cada uma.”
O segundo filme, Pindorama,
co-dirigido com Léo Crivellare e Lula Queiroga, investiga o circo criado por
uma família de anões. “Por acaso me deparei com esse circo, estava escrito ‘Pindorama,
o circo dos sete anões’. Caramba, é um circo, também é um mundo a parte. Ali,
eles é que mandam, têm pessoas trabalhando para eles. Então esse planeta vai
transitando pelo sertão, pelas cidades pequenas – quando eu os vi, eles estavam
no lixão – e vai aquele mundo igualzinho, os trailers sempre colocados da mesma
maneira. Ali dentro, eles são os chefes. Agora, quando eles saem, é um mundo
cruel, terra de gigantes, subir uma escada é difícil, fazer xixi no banheiro”,
recorda.
Nestes dois, a amizade que surgiu com os personagens foi uma
relação profunda em pouco tempo. Com Herbert, a relação é mais abrangente e
muito mais pessoal, muito mais íntima. Em comum, nos três filmes, personagens
que o diretor admira muito, e vem daí a motivação para realizá-los.
Sobre a recente produção documental brasileira, Berliner
cita o filme de Pedro Cezar sobre o poeta Manoel de Barros, Só depois por cento
é mentira, que estréia nos cinemas em novembro. “É um filme lindíssimo.
E aí? Como é que vamos convencer o público a ver o filme sobre o Manoel de
Barros? Pode acontecer, sei lá, o boca a boca vai fazer, mas vai ser uma
exceção. É um filmaço, quem for ver vai ver um puta personagem, um filme super
bem feito, mas tem vários filmes desses, que ninguém vê”, acredita ele.
Sobre por que, enfim, a música vai se tornando foco de mais
documentários, ele arrisca uma resposta. “A imagem está muito ligada à música,
então talvez isso seja um caminho mais fácil, mais óbvio, de filmar a música,
que está o tempo todo dentro das nossas imagens. E, depois, porque se aproxima
do público. São filmes que talvez sejam mais fáceis de vender, ou mais fáceis
de fazer, não sei”, afirma.
Apesar de filmes muito interessantes, com raríssimas
exceções eles têm público. “O [Eduardo] Coutinho tem um público fiel e, mesmo
assim, depois de anos e anos e anos. Ele virou uma marca de um cinema
interessante, instigante, novo, sempre novo. Mas documentário é lasca.”
Segundo ele, música é quase como futebol, as dois coisas que
o Brasil produz de melhor. “E tem a ver com essa coisa intuitiva. Fazer música
é que nem jogar futebol, o cara fica ali, chega um e outro, vai fazendo. E
futebol, em geral, é mal sucedido quando se pensa em filmes. No mundo, não tem
nenhuma ficção que eu tenha visto que trata de futebol e seja bom.
Documentário, certamente tem. Pelé eterno tinha tudo para ser um grande filme. Tem uma grande chance, que é fazer o Canal
100, estou lá conversando com o Alexandre Niemeyer. O Canal 100 tem imagens absurdas.
A idéia é produzir filmes a partir do acervo do programa”, finaliza, comentando
sobre o que pode vir a ser seu próximo projeto.
> Assista à
entrevista exclusiva de Roberto Berliner ao SaraivaConteúdo
> Veja o trailer de Herbert
de perto, além dos clipes de“Alagados”
e “A novidade”, ambos também dirigidos por Roberto Berliner
> Confira o site oficial d’ Os
Paralamas do Sucesso
>
Os Paralamas do Sucesso na Saraiva.com.br
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