Ruy Espinheira Filho   

Por Bruno Dorigatti
Foto de Tomás Rangel


> Assista à entrevista exclusiva de Ruy Espinheira Filho ao SaraivaConteúdo 

"Eu resisto à escrita. Escrever não é nenhum prazer, não. É uma coisa que incomoda muito, angustia." 
Como o próprio poeta afirma, pode parecer estranho um homem de letras, que vive delas e para elas, falar isso. Mas não foge à compreensão que a busca pela palavra exata, pelo tempo e pelo ponto final, sobretudo para quem se dedica a árdua travessia pela poesia, não é nada simples tampouco fácil, mas dolorosa.

Apesar da resistência, o baiano Ruy Espinheira Filho, nascido em Salvador em 1942, vem produzindo poesia, prosa, ensaios. Entre os primeiros, contam-se 13 livros dedicados aos versos, começando com Heléboro [presente em Poesia reunida e inéditos (Record, 1998)], em 1974, e chegando, até agora, em Sob o céu de Samarcanda, lançado em 2009 pela Bertrand Brasil. Sua filiação passa por Drummond e, como ele, Ruy investe no poder restaurador da palavra, como afirmou Miguel Sanches Neto. Para outro poeta, Alexei Bueno, "Ruy conseguiu a façanha de fluir com a mais absoluta naturalidade da grande corrente da nossa poesia modernista sem incorrer em nenhum de seus maneirismos, onde se banharam tantos de sua geração".

Ruy publicou o primeiro livro, Heléboro, em 1974, aos 31 anos, a mesma idade que Manuel Bandeira e Monteiro Lobato publicaram os seus, "uma boa idade para se estrear", afirma nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. "Primeiro livro é uma experiência muito particular. Tive uma sorte de não ter condições de publicar antes, e fazer como Vinicius de Moraes, cujos primeiros poemas foram praticamente todos rejeitados. Esse livro meu, não rejeitei nada até hoje."

Heléboro abre com "Os objetos":

Os objetos permanecem claros.
Habita a moldura 
uma mulher de faces cor-de-rosa.

Sobre a mesa de mármore 
um cavaleiro de porcelana 
saúda as visitas.

A caneta ainda escreve 
com a mesma tinta 
de um azul levemente melancólico.

Na gaveta, 
dormindo sob cartas e poemas, 
o revólver aguarda.


Um breve, porém denso poema. E algo raro, já que Ruy toma gosta por poemas mais longos, divididos intrincados. Além da poesia, ele se dedica aos ensaios - já escreveu três livros sobre três modernistas que muito admira, entre tantos: Jorge de Lima, Mario de Andrade e Manuel Bandeira. "Estes são trabalhos intelectuais. Literatura é um trabalho além do intelectual. É um trabalho passional, emocional, de sensibilidade", afirma.

Sobre a sua produção, ele afirma não planejar nada. "Não sei se vou escrever um romance, um conto, um poema. Escrevo o que vem. E não tem jeito.Eu não mudo, escrevo com aquilo que sou, minha personalidade, memória, emoções."
Mas o que há de novo então em Sob o céu de Samarcanda? "O livro. Mas os sentimentos são os mesmos", responde. Ruy não vê graça no concretismo e no construtivismo: "Isso não tem nada a ver com arte. Não são criações, são constructos artificiais e intelectuais. Você compreende, mas não sente o poema".

Parafraseando uma conhecida blague de Ferreira Gullar - "Não quero ter razão, quero ser feliz" -, talvez sem conhecê-la, Ruy afirma: "Não quero ter razão, quero fazer arte. Não quero defender nem justificar o que faço. Isso é papel do leitor, do crítico. Obra de arte é aquilo que você cria e joga no tempo".

"Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor", acredita.

Sobre as leituras de hoje, ele só se dedica àquilo que já conhece e gosta. Apenas relê, e o tempo vivido lhe proporciona essa opção sem culpas. "Só leio hoje autores que me agradam. E já tenho idade suficiente para ter direito a esse egoísmo lírico", diz o fã ardoroso de Olavo Bilac, Castro Alves, Álvaro de Azevedo, além do modernismo, onde tinha "muita gente boa".

Para Ruy, fazer poemas é fugir da racionalidade explícita a que somos submetidos diariamente. "Quando você cria, está num mundo onde não racionaliza. Talvez por isso você se expresse através da literatura". Um alento em um mundo instrumentalizado e regrado em que vivemos.


> Leia alguns poemas de Ruy Espinheira Filho

> Assista à entrevista exclusiva com Ruy Espinheira Filho ao SaraivaConteúdo





  • Léa Madureira Gurgel Lima 05 de Março de 2010 | 20:12
    Oi, Ruy! Gostei muito da entrevista e comungo com o que diz. Não se escreve alegrinho, saindo a passeio com as idéias. Quando publiquei meu primeiro livro de poemas usei a expressão: foi como parir um elefante! Sempre carrego a angústia da próxima página. Mas vale a pena. Parabéns ! Visito "Sob o Céu de Samarcanda" entre sonetos, relembranças dos amigos, antigos poetas e tantos passeios que nos prendem, ao prazer da boa poesia. Grande abraço, Léa Lima

  • Gilka Bandeira 03 de Março de 2010 | 23:36
    Como os que me antecederam já dissseram, foi um excelente entrevista e também muito bem apresentada. É para ser guardada e revisitada.

  • Georgio Rios 28 de Fevereiro de 2010 | 18:15
    Uma bela entrevsita, sinto que a tua poesia, como toda poesia de qualidade, não se prende aos ismos mas, partindo da árdua peleja do fazer poetico traça as sendas necessárias para que o alumbramento da poesia, possa parecer leve ao leitor.Um livro a fazer-se entre as mãos de leitor.Parabéns ao Ruy.

  • Rafael Rodrigues 28 de Fevereiro de 2010 | 13:10
    Excelente entrevista, excelente matéria. E que foto linda, essa. Parabéns aos Tomás Rangel pela "pintura". Em breve estarei com "Samarcanda" em mãos :)

  • H Marques-Samyn 28 de Fevereiro de 2010 | 12:01
    Brilhante entrevista com um dos nossos maiores poetas. O Ruy é um dos poucos que permanecerão.

  • Sonia Coutinho 27 de Fevereiro de 2010 | 16:33
    Amigo Ruy, está ótima sua entrevista. Parabéns por ela e parabéns por mais esse livro com sua excelente poesia. Uma obra que vai crescendo e ninguém pode mais ignorar. Além disso, Ruy, você é uma grande pessoa e um ótimo papo. A chama da criação poética junto com uma insuperável simpatia! Ruy, a gente se vê em breve, espero, num café na Barra. Sonia Coutinho

  • Secchin 27 de Fevereiro de 2010 | 13:49
    Excelente matéria, que faz jus à qualidade da poesia de Ruy.

  • Ruy Espinheira Filho 27 de Fevereiro de 2010 | 11:51
    Oi, pessoal, ficou muito bom, inclusive com aquela verdadeira antologia poética que foi inserida. Abraços gerais, Ruy.

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