Yoani Sánchez, DESENCUBA    

Texto e foto de Marcio Debellian
 
> Assista à entrevista exclusiva de Yoani Sánchez ao SaraivaConteúdo: Parte 1 e Parte 2


Há muito tempo vinha me prometendo visitar Cuba. Queria conhecer a ilha antes da morte de Fidel Castro, e das inevitáveis (espero!) mudanças que virão junto com este dia. Viajar para Cuba soava como a vontade de encarar uma contradição pessoal: de um lado, a simpatia histórica que tenho pelo país, uma certa visão romântica da idéia de revolução. Do outro, a minha completa intolerância a qualquer tipo de regime totalitário, anti-democrático, que não respeita a liberdade de expressão. 

Para viver este dilema em sua plenitude, decidi que deveria aproveitar meus dias em Cuba para tentar entrevistar a blogueira Yoani Sánchez, que desde 2007 mantém o blog Generacion Y e atrai milhões de visitantes no mundo inteiro, com suas “histórias, perguntas, crônicas, desejos, frustrações de uma Cuba real, que não aparece nos meios oficiais de comunicação, controlados pelo governo”. 

Yoani foi eleita pela revista Time uma das cem personalidades mais influentes do mundo no ano de 2008, e teve o seu trabalho reconhecido até mesmo pelo presidente norte-americano Barack Obama que, no final de 2009, topou responder por e-mail sete perguntas enviadas por ela.  Em sua casa, Yoani mantém uma Academia de Blogs, dedicada a formar outros periodistas, com aulas que vão desde noções básicas das ferramentas virtuais, até fotografia e tratamento de imagens, ética e técnicas de redação. Os cursos são gratuitos e os professores, voluntários. 

Entrei em contato com Jaime Pinsky, da Editora Contexto, que publicou no ano passado o livro de Yoani, De Cuba, com carinho, no Brasil, e ele me passou o número do seu telefone em Havana. Depois de muitas tentativas, consegui completar a ligação. Conversamos brevemente e agendamos um encontro numa tarde, no Parque Central, em Havana Velha, embaixo da estátua de José Martí, poeta e filósofo que criou o Partido Revolucionário Cubano (PRC). 

Cerca de 40 minutos após o horário combinado, quando já estava quase descrente do encontro, Yoani chegou acompanhada de sua irmã. Fomos a um café localizado numa sobreloja discreta no antigo prédio da Bacardi, confiscado após a revolução. 

Havia chegado a Cuba três dias antes do nosso encontro. Naquele ponto, minhas ilusões românticas sobre o país já haviam se dissolvido. A minha primeira pergunta foi: “Como vocês resistem a este regime por mais de cinco décadas?”. Yoani foi certeira: “Quem não resistiu, foi embora do país, e quem ficou tem esta aparência de apatia que você descreveu”. 

O povo cubano parece anestesiado, sem brilho no olhar, triste. Miséria não há, mas a pobreza está em toda a parte. As filas e a aparência dos mercados de racionamento são constrangedoras. Os carros antigos deixaram de ser charmosos e hoje circulam precariamente, exalando um forte cheiro de gasolina com querosene, que me fez pensar que bastaria riscar um fósforo para tudo explodir. Os edifícios e as casas carecem de conservação. O transporte público é ineficiente e à noite se vê muita gente pedindo caronas nas ruas escuras de Havana. O turista é visto como uma fonte de renda ambulante, e precisa driblar pequenos golpes ao longo do dia. Com salários mensais em torno de 35 dólares, ou o equivalente a 15 mojitos nos bares de Havana, fica difícil os turistas serem olhados de outra maneira. E a tudo isso, dá-se o nome de “ditadura do proletariado”,  termo que tinha ficado adormecido na minha memória, e que foi usado por um taxista que tentou me descrever o regime em Cuba. 


Procurei não antecipar outras questões para não tirar o frescor da filmagem da entrevista, que Yoani preferiu deixar para o dia seguinte, na casa dela, onde ocorreria um encontro da Academia de Blogs. As instruções para chegar até lá foram minuciosas: “Meu marido irá buscá-lo na estação de trem e indicará qual é o prédio. Não suba de elevador até o andar da minha casa, salte alguns andares antes e vá de escada. A minha porta tem uma bandeira de Cuba com um @ e os dizeres ‘Internet para todos’”. 

O cuidado procede. Yoani já foi seqüestrada e espancada, e diz-se constantemente vigiada por membros do Ministério do Interior. Em seu livro e no blog, publicou fotos dos homens que permanecem de plantão na entrada do edifício. A esta altura, eu tinha receio de que o nosso encontro do dia anterior tivesse sido registrado, e que estes agentes do governo começassem a querer investigar a razão da minha presença na casa dela. 

Quando chegamos – eu e meu amigo Rodrigo Bittencourt, cineasta e escritor, que viajou comigo e se prontificou a fazer as imagens da entrevista –, Yoani estava ensinando aos alunos como criar categorias e tags nos blogs. Havia cerca de 30 pessoas em sua casa. Diante de uma tela na parede da sala e com algo que parecia uma antena de TV apontando a cada detalhe da projeção, Yoani explicava pausadamente e tirava dúvidas do grupo, que reunia pessoas entre 16 e 54 anos. No intervalo entre uma aula e outra, Yoani foi para a cozinha e preparou salsichas para todo o grupo. Um grande saco de bolachas de água e sal também ficou disponível para os alunos. Ao final da aula, um mutirão cuidou da louça e da rearrumação da casa. 

Alguns membros da academia preferem o anonimato e não assinam seus blogs. É o caso do fotógrafo que mantém o Fotos de Cuba Hoy e traz registros como a missa pela morte de Orlando Zapata, além de fotos da internação do jornalista Guillermo Fariñas, que também encontra-se em greve de fome e sede. Já Regina Coyula, que foi funcionária do Ministério do Interior durante 20 anos e mantém o blog La Mala Letra, faz questão de dar o nome e publicar a sua foto. Perguntada sobre como foi a formatação de seu site, ela disse: “Só vi a cara do meu blog duas vezes. Uso uma ferramenta do Wordpress, que publica automaticamente a partir dos e-mails que envio”. Além disso, os blogueiros cubanos encontraram uma rede de solidariedade virtual que os ajudam a publicar, a partir de e-mails, textos ditados ao telefone, e ainda traduzem os posts para outros idiomas. O blog de Yoani está disponível em 15 línguas, por conta deste trabalho voluntário. 

Os cubanos “comuns” não têm acesso à internet, “mas são especialistas em buscar tudo o que está proibido”, e fazem estes textos circular pela ilha através de CDs gravados e pendrives que passam de mão em mão. Alguns blogs até pedem a doação de CDs virgens para ajudar na divulgação das notícias. 

Yoani, que começou seu blog acessando a internet em hotéis, disfarçada de turista, agora está postando também no twitter [@yoanisanchez], usando uma ferramenta que converte em tweet a mensagem texto enviada através do seu celular. “Se o blog Generación Y me permitiu colocar as minhas opiniões no espaço cibernético, a minha conta no Twitter me brindou com a imediatez”, comemorou num tweet do dia 05 de março.

A entrevista durou cerca de 25 minutos. Na despedida, Yoani me pediu cuidado ao deixar o país com a câmera e a fita. Na saída do prédio, lá estavam dois homens que pareciam os vigias de plantão. Apertamos o passo em busca de um táxi. Sorte nossa que a apatia parece ter chegado também aos governistas. Depois de alguns metros, eles desistiram de nos seguir. 

Voltei de Cuba pouco antes da morte de Orlando Zapata, que estava preso por delito de opinião, e da visita de Lula à ilha em meados de fevereiro. Dois atos extremamente simbólicos: o primeiro, deixou-se morrer por uma greve de fome. Escolheu a não-ação extrema como forma de ação. A apatia máxima como forma de protesto. Foi vítima da constatação de que não adiantava mais agir. Morrer foi o seu protesto. 

Já o presidente Lula, que em sua trajetória lutou contra a ditadura militar, e tratou de indenizar os presos políticos durante o seu governo – sem contar que agora tenta eleger como sua sucessora uma ex-presa política – calou-se diante da morte de Zapata. Posou sorridente ao lado de Fidel, que depois de velho abandonou o uniforme verde-oliva e se veste com casacos de marcas “capitalistas” como Nike e Adidas, que não são comercializadas na ilha. 

Circula na mesma internet que hoje abre a principal janela de liberdade dos 51 anos do regime de Fidel, um vídeo com uma entrevista gravada em 1959, em que o líder cubano recém-empossado profere as seguintes palavras: “Este é um lugar democrático. Não há razão de proibição de qualquer natureza. Liberdade de expressão é o princípio para qualquer democracia. O que se vê aqui é o absoluto clima de liberdade de opinião e direitos humanos.” 

Quando o assunto é Cuba, a contradição é o regime.


> Confira o blog de Yoani Sánchez, Generación Y

> Yoani Sánchez na Saraiva.com.br


> Assista à entrevista exclusiva de Yoani Sánchez ao SaraivaConteúdo



  • Aline 06 de Abril de 2010 | 10:22
    É uma lástima esta entrevista. Não acredito que coloquem Yoani em destaque. Sou brasileira e cursei medicina em Cuba. Já que no Brasil somente os ricos possuem esta oportunidade a ilha socialista me cedeu uma bolsa integral conjuntamente com mais 59 brasileiros (anuais) com uma única condição: que quando retornasse tentasse dedicar um pouco do meu tempo para cuidar da saúde dos mais pobres. Vivi lá durante 6 anos e sei o quanto difícil é ser um cubano que sofre as duras privações impostas pelo bloqueio, mas também percebi que se amanhã o bloqueio caisse Cuba seria o mais belo e poderoso país do mundo... nem preciso justificar porque os EE.UU continuam com seu bloqueio. Por outro lado, vocês sabem que existe nos Estados Unidos uma lei denominada "Lei de ajuste cubano" que cede ao cubano que pisar em solo estadunidense moradia e encaminhamento ao trabalho? Se existe uma "Lei de ajuste brasileiro" só haveriam naufrágos brasileiros tentando irem até Miami a nado! (Risos).

  • Felipe 05 de Abril de 2010 | 14:03
    Se o jornalista é completamente intolerante "a qualquer tipo de regime totalitário, anti-democrático, que não respeita a liberdade de expressão" deveria ser contra o regime autoritário das tais "democracias" liberais como a dos Estados Unidos da América e do Brasil, onde apenas os mais ricos podem controlar os meios de comunicação e por isso direcionar seus conceitos e moralismos para definir as "eleições" que iniciam e se encerram em apenas UM VOTO. Por que o jornalista não é contra o fechamento quase diário de milhares de rádios comunitárias que rompem com o monopólio da Globo e do SBT? Por que o jornalista não é intolerante com o descumprimento das principais emissoras de TV e de rádio do contrato de concessão pública?

  • Felipe 05 de Abril de 2010 | 14:03
    Se o jornalista é completamente intolerante "a qualquer tipo de regime totalitário, anti-democrático, que não respeita a liberdade de expressão" deveria ser contra o regime autoritário das tais "democracias" liberais como a dos Estados Unidos da América e do Brasil, onde apenas os mais ricos podem controlar os meios de comunicação e por isso direcionar seus conceitos e moralismos para definir as "eleições" que iniciam e se encerram em apenas UM VOTO. Por que o jornalista não é contra o fechamento quase diário de milhares de rádios comunitárias que rompem com o monopólio da Globo e do SBT? Por que o jornalista não é intolerante com o descumprimento das principais emissoras de TV e de rádio do contrato de concessão pública?

  • Túlio 05 de Abril de 2010 | 13:52
    O jarnalista se equivoca aos montes. Primeiro o conceito de "totalitarismo" é completamente repudiado pelas cientistas sociais progressistas pois como é sabido Hannah Arendt o popularizou através de sua fundação patrocinada pela CIA (não é teoria da conspiração) para difamar os governos de esquerda. Em segundo os poucos recursos materiais de Cuba não é culpa do governo e sim do BLOQUEIO COMERCIAL imposto à Cuba pelo (agora sim) GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA. Pergunto: Por que Yoani não é contra o Bloqueio estadunidense? Por que ela não condena o fato de existirem presos políticos estadunidenses ou então a prisão dos cinco herórios cubanos que estão presos nos EUA por tentarem impedir o terrorismo internacional? Por que ela não condena a exploração capitalista que impede que milhões de pessoas possam ter acesso a comida (e muito menos internet)? A cada dia tocamos as evidências na lata do lixo e cedemos lugar ao irracionalismo completo.

  • Raul 05 de Abril de 2010 | 13:03
    Estranho. Porque Yoani não comenta as verbas que ela recebe da máfia composta de cubanos exilados em Miami? A velha máfia que explorava e vendia Cuba como um gigante bordel de prostituição e drogadição aos Estados Unidos. A liberdade que a menina defende é a liberdade de explorar o povo para a acumulação do capital em algumas poucas mãos. Porque ela não defende os presos políticos mantidos pelos EUA como Leonard Peltier ou o negro Mumia Abu-Jamal, preso por atividades políticas, vítima clara de racismo e que foi condenado injustamente à morte. E os mais de 200 prisioneiros políticos dos EUA que estão a mais de uma década presos sem direito de defesa? Parece estranho esta moça não comentar nada sobre isso.

  • Anderson 05 de Abril de 2010 | 11:45
    A trilha sonora da entrevista é um grito contra as ditaduras civil-militares que foram implantadas na América Latina pelas democracias liberais dos Estados Unidos e da Europa como a Suiça (onde Yoani morou dois anos). Essas mesmas "democracias", modelos de imperialismo e de exploração do trabalho são os modelos que Yoani defende. Cuba segue caminho distinto. Cuba segue o rumo onde todos tenham acesso à educação, saúde e trabalho. Em Cuba não precisa se ser filiado ao Partido Comunista Cubano para se canditatar, mas sabem porque ela não se candidata? Porque ela não receberia quase nenhum voto. Porque em Cuba, a maioria da população, é revolucionária. Apenas alguns vendidos por alguns restos do capitalismo é que se denominam "dissidentes".

  • Felipe 05 de Abril de 2010 | 10:19
    Aqui na "democracia" brasileira todas pessoas tem acesso à internet, trabalho, moradia, educação e principalmente todos podem falar o que quiserem e a Globo não monopoliza os meios de comunicação. E nos EUA também é uma maravilha, pois quem quiser se canditada para presidente da república pois as eleições não são manipuladas pelos democratas/republicanos que amam a paz entre as nações, não intervindo nos assuntos de nenhum pais. Em Cuba, diferentemente do Brasil e dos EUA, os mendigos se acumulam pelas ruas, ninguém tem trabalho e todos morrem de fome e desnutrição. Façam-me o favor: Só falta esta senhora querer que se restitua o governo de Batista na ilha de Cuba e gritar: "viva o colonialismo e a economia de saque".

  • Carlos Alberto Diniz 04 de Abril de 2010 | 19:35
    O reporter brasileiro e a "dissidente" cubana parecem não entender nada. À cubana convido-a a participar da democracia capitalista brasileira onde milhões de pessoas penam todos os dias para arrumar um emprego. Aliás, ela poderia vir morar aqui no Brasil e se tiver mais de 50 anos de idade perguntaria a ela como arrumar emprego na "bela" democracia capitalista brasileira, ah!! nortemaricana também. Talvez ela devesse morar nas comunidades negras do Mississipi, Geórgia ou, talvez, Tennessee. E quanto aos brasileiros, quem sabe se eles tivessem maior preocupação com nós, os brasileiros, talvez pudéssemos mudar mais e mais nosso País. Um cidadão consciente, não importa a nacionalidade, jamais se presta a servir de intermediário de governos genocidas e antipopulares como é o dos EE.UU, invasor do Iraque e, antes, de Granada, Vietnã, Coreia, etc... Senhora Yoani, a História nunca caminha para trás! Esqueceu-se da Cuba de antes de 1959? Estaria a Senhora saudosa de Batista? A palavra é sua!

  • Lucio Silva 19 de Março de 2010 | 21:42
    Uma entrevista bela, magnífica e muito triste ao mesmo tempo. A realidade do povo cubano é uma vergonha para toda a humanidade. E ainda temos que ver nosso presidente, que se acha 'o cara, fechando os olhos para ela, referendando todos os absurdos cometidos atualmente pelos irmãos ditadores e totalitários. Viva Cuba? De jeito nenhum! Prefiro ficar com Nélson Rodrigues e dizer: Viva a rua do Ouvidor!!

  • gabriel 15 de Março de 2010 | 22:32
    Impressionante a inteligencia e a personalidade da Yoani. Mostra que Cuba não tem presente mas tem futuro!

  • Branca Lee 15 de Março de 2010 | 17:04
    10 anos antes da "Revolução" Cubana, George Orwell publicou um livro imaginando como seria o mundo totalmente comandado por regimes totalitários pseudo-sociais. Apatia, pobreza, controle, tristeza, resignação: "Big Brother is watching you". Assistir à Yoani nesta entrevista foi como ver as palavras do livro ganhando vida. Uma pena, pois este 1984 acontece ainda em 2010 - e é real, muito real. Parabéns pela entrevista brilhante, pelo excelente texto de abertura e muitos vivas à Yoani.

  • thiare Maia 15 de Março de 2010 | 12:35
    Parabéns Marcio e Saraiva Conteúdo!!!!! Muito importante para o mundo e para os jovens essa entrevista. Valeu o risco e o espírito de guerrilha...

  • ilma 15 de Março de 2010 | 09:42
    Emocinante! Meu coração desparou diversas vezes. Trilha sonora linda! Final impactante... a força destrutiva do poder... sonhos que mobilizaram uma geração, ideais, compromissos transformaram se em opressão quase centenária, e pior, ainda encontra respaldo entre nossos aloprados. Imperdível.

  • Aline 14 de Março de 2010 | 20:02
    Bravo! rs. Excelente entrevista! Fico imaginando o risco de perder este material. Surreal a situação de Cuba. Deu vontade de conhecer também, de ver como as pessoas vivem com tanta repressão. O obituário de Fidel já está pronto há tempos..

  •