Por Bruno Dorigatti
Foto de divulgação> Michael Jackson, em DVD e livro Foi-se o rei do pop. Indiscutivelmente o maior ícone da música nas últimas três décadas do século XX, Michael Jackson deixa, além da legião de seguidores, seu nome na história do pop e centenas de episódios controversos, estranhos, bizarros e, por isso mesmo, propensos a especulações que tendem a crescer com o seu repentino, mas não inesperado, desaparecimento.
Na quinta 25 de junho de 2009, próximo ao meio-dia, uma ambulância esteve em sua casa para um chamado de emergência. Michael estava com parada cardíaca, sem respirar. Os paramédicos tentaram reanimá-lo por 40 minutos. Sem sucesso, o encaminharam para o hospital da Universidade da Califórnia (UCLA). Do coma para a confirmação da morte, passaram-se menos de duas horas.
Às 14h06, hora local, (18h06, no Brasil), sua morte foi confirmada. Quinze minutos antes, porém, os rumores já circulavam pelo Twitter, serviço de microblogging que vinha sendo tomado pela controversa situação no Irã após as eleições no país, foi dominado pelo astro, e chegou a sair do ar. O site de celebridades TMZ foi o primeiro a confirmar a morte. Entre os órgãos de imprensa, o primeiro a confirmar foi o
Los Angeles Times;
New York Times e CNN, assim como a imprensa brasileira, levaram mais de dez minutos para trazer a notícia de falecimento do astro.
> Ouça os clássicos de Michael Jackson
Aos 50 anos, Michael Jackson há um bom tempo já vinha sendo destaque na mídia mais pelas suas esquisitices do que pela sua competência como cantor e dançarino, que arrebatou o planeta praticamente desde o início de sua precoce carreira, ainda criança, aos 8 anos, com o Jackson 5, formado com seus irmãos, e capitaneado pelo pai. Contratados pela Motown, o Jackson 5 gravou 14 álbuns pela principal gravadora de soul music nos Estados Unidos, entre o final dos anos 1960 e começo dos 1970. Michael estreou na carreira solo quando ainda fazia parte do grupo, com Got To Be There (1972), mesmo ano em que saiu o disco de baladas Ben.
Nos anos seguintes, saíram
Music and Me (1973) e
Forever, Michael (1975), mas a guinada na carreira veio com
Off the Wall (1979), produzido por Quincy Jones, onde o cantor misturou à black music, a levada dançante do disco. Arrebatou público e crítica, alcançou o topo das paradas e 11 milhões de cópias vendidas. "Don't Stop 'Til You Get Enough", canção escrita e produzida por ele rendeu-lhe o primeiro Grammy. O disco seguinte, porém, seria o seu auge.
Thriller (1982) é um marco na história da indústria fonográfica, vendendo até hoje mais de 200 milhões, impulsionadas novamente com a edição especial comemorativa de 25 anos do disco, lançada em 2008. Além da faixa-título, com um espetacular videoclipe cheio de zumbis e seres assustadores, "Billie Jean" e "Beat It" também são desse disco. Para muitos, é o auge da carreira do cantor, que nunca voltaria a produzir canções com a intensidade e balanço da black music e apelo pop, unidos à genialidade de Quincy Jones. É neste momento que os sons produzidos, tocados e apresentados pelos negros vão conquistar seu devido espaço na esfera da indústria fonográfica. Tivemos antes James Brown e Stevie Wonder, mas esse espaço que Michael Jackson ocupou é que veio abrir as portas para o mais que devido reconhecimento aos papas e gênios do estilo musical que ainda hoje reverbera e influencia a música no planeta de maneira soberba.
Com a turnê de Thriller, Michael supera pela primeira vez o público dos shows de Elvis Presley, tornando-se o maior astro pop de todos os tempos. Engaja-se em campanhas humanitárias, participa da gravação de “We are the World”, junto com dezenas de outros músicos, em prol das crianças carentes na África, e adia no novo álbum por alguns anos.
Bad (1987), o sucessor de
Thriller, decepcionou por ser menos ousado e mais infeliz musicalmente, comparado com os dois trabalhos anteriores, mas os fãs já estavam conquistados e ele vendeu mais de 30 milhões de cópias e alçou cinco músicas ao topo da parada. O álbum, que já na capa trazia um Michael Jackson embranquecido, sem o poderoso black power dos tempos de Jackson 5, teve como hit a música-título, além de "I Just Can't Stop Loving You", "The Way You Make Me Feel", "Man in the Mirror" e "Dirty Diana".
Começa então o período de especulações sobre a vida pessoal do cantor, momento em que as excentricidades tomavam o espaço anteriormente destinado a sua carreira musical. Amplamente explorados pela mídia neste primeiro momento, mais tarde o próprio Michael contribuiria para aumentar os boatos e notícias desencontradas ao seu respeito. Ele teria tentando comprar os ossos e roupas de John Merrick, o Homem Elefante; teria uma parte do próprio nariz, retirada em cirurgia plástica, conservada em uma jarra dentro de casa; dormia em uma câmara hiperbárica para retardar o envelhecimento, tudo desmentido pelo cantor.
Com sua visível transformação física, as especulações sobre dezenas de cirurgias plásticas proliferavam, embora ele tenha confirmado apenas duas. Sobre a pele, cada vez mais branca, especialistas apontavam um suposto tratamento a base de hidroquinona, substância capaz de clarear a pele. Anos mais tarde, em 1993, no programa de Oprah Winfrey, ele afirmou sofrer de vitiligo, doença autoimune não contagiosa em que ocorre a perda da pigmentação.
Em 1991, lançou
Dangerous, que novamente ultrapassou a casa dos 30 milhões de discos vendidos, e cuja principal música, “Black or White”, abordava a questão da mudança de cor. Com o clipe e a turnê, bateu novos recordes, o primeiro estreando simultaneamente no mundo todo para 500 milhões de pessoas, e os shows, assistido por 3,5 milhões de pessoas em 69 países, e também transmitidos pela TV com audiência recorde.
A fase criativa e de genialidade parece ter terminado por aí. Em 1993, apareceriam as primeiras denúncias de abuso sexual de crianças, o estranho casamento com Lisa Presley, filho do Rei do Rock, Elvis, as internações por conta de problemas com analgésicos, novas acusações de pedofilia, o isolamento em Neverland, mansão-parque de diversões do cantor na Califórnia, de nome inspirado em Peter Pan, personagem que nunca se tornava adulto. Avaliado por médicos, o prognóstico avaliou-o com uma mente de garoto. Ele então foi absolvido das acusações de pedofilia (com exceção da primeira denúncia, que foi retirada depois de um acordo), mesmo tendo confirmado que assistia a filmes com crianças em sua cama.
> Leia o ensaio "O comedor de criancinhas", de Francisco Bosco, do livro Banalogias (Objetiva, 2007)Em 1995, lançou
HIStory: Past, Present and Future Book I, álbum duplo que reuniu sucessos remasterizados e músicas inéditas, entre elas “They don´t care about us”, cujo clipe foi gravado na favela carioca Dona Marta, depois de negociações com traficantes para filmar no morro, e no Pelourinho, em Salvador no ano seguinte. O astro já havia passado pelo país em 1993, onde se apresentou no Morumbi. E em 2001, sairia seu último disco Invincible, que vendeu “somente” 8 milhões de cópias por conta do racha com sua gravadora, Sony.
Desde 2007, pelo menos, Michael vinha trabalhando com Will.I.Am, do Black Eyed Peãs, em um trabalho novo. Naquela época, ele afirmou em entrevista a Rolling Stone brasileira que, até aquele momento existiam seis músicas prontas, entre elas um possível hit, “I’m still the king”. “É ouro!”, segundo Will.I.Am.
Em breve, elas devem aparecer. Por ora, vamos ter agüentar as especulações elevadas a enésima potência, sobre sua morte, sua possível doença, seus casos rumorosos. No próximo dia 13 de julho, ele voltaria a se apresentar no que seria sua última turnê, com 50 shows em Londres e mais de 750 mil ingressos vendidos. O estresse por conta dessa turnê de despedida pode ter contribuído. As injeções diárias de Demerol, um derivado da morfina também. A autópsia do corpo do cantor e dançarino que acontece nesta sexta-feira, 26 de julho, deve ajudar a esclarecer a causa mortis mais premente. Porém, o corpo do criador do moonwalk é um prato cheio para a ciência.
Os fãs, que esgotaram em menos de uma hora os bilhetes para o primeiro show, seguem inconsoláveis, fazendo vigílias por todo o planeta. No táxi, hoje pela manhã, ouvindo na CBN o comentário de Heródoto Barbeiro, Carlos Heitor Cony – para quem Michael foi o maior dançarino de todos os tempos, mais que Fred Aisteire e Gene Kelly – e Arthur Xexéo, o taxista comentou: “Mas esse viveu bem, aproveitou a vida, começou a cantar ainda criança”. No dentista, a doutora que não ligava muito pra o rei do pop, comentou: “Poxa, um menino ainda...”.
Gostem ou não dele, Michael Jackson abalou e transformou definitivamente a estrutura da indústria fonográfica e o mundo pop tal qual conhecíamos. Trouxe a black music para o centro do palco, deu à dança um papel que não tinha antes, produziu clipes como se fossem curtas-metragens. Influenciou praticamente todos que transitam pelo e bebem no groove, no soul, no disco. E vendeu. Vendeu muito, como nunca se havia vendido antes. Sem sombra de dúvidas, não haverá outro ídolo que se aproxime do que ele foi. E do que vai continuar sendo, mesmo com o seu precoce desaparecimento.
# Confira os clipes de Michael Jackson em seu canal exclusivo no YouTube> Don´t Stop ´Til You Get Enough
> Rock with you
> Thriller
> Thriller | Making of
> Billie Jean
> Beat it
> Bad
> Black or White
> Remember the Time
> They Don´t Care About Us> Michael Jackson na Saraiva.com.br
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