Por Ramon Mello e Bruno
Dorigatti
Fotos de Tomás Rangel
> Assista à entrevista exclusiva de Fábio Moon e Gabriel Bá ao SaraivaConteúdo
Os gêmeos Fábio Moon e
Gabriel Bá vêm merecidamente conquistando o reconhecimento pelo seu trabalho,
que, com alguns importantes prêmios, começam
a chamar a atenção do público que não é tão aficionado assim por
quadrinhos. Na batalha há mais de dez anos, os irmãos começaram com o fanzine 10 Pãezinhos, publicaram alguns livros
com as estórias que ali saíram pela Via Lettera. Desde então, participaram de
algumas antologias, lançaram alguns álbuns autorais, realizaram trabalhos sob
encomenda e adaptações. O alienista,
adaptação da clássica novela de Machado de Assis, ganhou o Prêmio Jabuti de “Melhor Livro Didático e Paradidático de Ensino
Fundamental ou Médio”, no ano passado, e também foi selecionado, junto com
outro álbum da dupla, Meu coração, não sei porquê, para a
lista do Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) 2009. Ainda em 2008, os
irmãos levaram alguns prêmios no Eisner Award – o principal no universo dos
quadrinhos, que homenageia o mestre Will Eisner, autor de Spirit, entre tantas outras estórias –, como Melhor Antologia (5), Melhor Série Limitada (para Gabriel
Bá, por The Umbrella Academy, junto
com Gerard Way) e Melhor Comic Digital (para Fábio Moon, pelo trabalho em Sugarshock, em parceria com Joss
Whedon).
Em
2009, além de colaborarem semanalmente com uma tira na Folha de S. Paulo aos sábados, chamada “Quase
nada” [abaixo], eles publicaram na Época São
Paulo a história “Procurando
São Paulo”, onde, em certa manhã, a cidade amanhecia livre de carros,
ônibus e motos. Atualmente, além dos trabalhos sob encomenda, a dupla está escrevendo uma
série, chamada Daytripper, ainda
inédita, que será publicada lá fora pela Vertigo. “A gente já tem umas 100 páginas desenhadas, estamos quase na
metade. É a primeira oportunidade que a gente teve de escrever uma história
longa, desenhar e publicar numa editora grande. Essa é chance que temos de
mostrar nosso trabalho de autor e não só contar as histórias de outras pessoas –
que são histórias que gostamos bastante, mas que são bem diferentes das
histórias que escrevemos”, eles nos contam nesta entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo. As histórias da dupla
abordam o dia-a-dia de pessoas normais, que amam, sofrem, choram e se alegram
com as pequenas coisas, são tocadas pelos pequenos gestos, um tanto diferente
das histórias de super-heróis, aventurescas ou fantasiosas que ainda imperam no
Estados Unidos.
Na
entrevista, realizada em Paraty, durante a última Flip, eles apontam algumas de
suas influências e falam das facilidades e dificuldades de fazer uma adaptação
e comentam sobre o trabalho duro e disciplinado que é fazer história em
quadrinhos. “Porque
os quadrinhos têm essa dicotomia de que você lê em 20 minutos um livro de 80
páginas. Esse livro de 80 páginas você vai ficar um ano fazendo. Essa diferença
entre ‘eu adoro quadrinhos, eu leio em 20 minutos, é super rápido, dinâmico e
divertido’ e o dia-a-dia de ficar trabalhando nas páginas, meses esperando
aquela história ficar pronta. É muito difícil de passar essa fase. O que nós
vemos é um monte de gente que quer fazer quadrinhos e desiste justamente quando
percebe que não é fácil, que não é sempre divertido. É superlegal criar, é
superlegal desenhar, mas tornar isso uma rotina e levar o trabalho até o fim é
desgastante como qualquer outro trabalho.”

Vocês ganharam o Prêmio Jabuti ao adaptar O
alienista, de Machado de Assis,
para os quadrinhos. Qual a importância dessas adaptações?
Fábio Moon - Eu acho que o legal ao fazer uma adaptação
literária é criar uma curiosidade nas pessoas, juntando duas formas diferentes.
Você pode criar interesse no leitor, de querer saber sobre o cara que faz os
quadrinhos, que fez aquela adaptação. E, se tudo der certo, também cria o interesse
do leitor correr atrás do autor original. É um bom jeito, um novo jeito de
introduzir histórias que as pessoas já contaram. Autores que as pessoas já
conhecem, passam a conhecer de novo com outro olhar, isso reacende essa
curiosidade do material original.
Como surgiu o convite para essa adaptação?
Gabriel Bá – A [editora] Ediouro estava querendo começar a
fazer essas adaptações e entrou em contato com a gente. Nós podíamos escolher
entre umas três ou quatro opções que eles tinham lá: Euclides da Cunha, eu
acho...
Fábio Moon – Tinha O
pagador de promessas [de Dias Gomes, que foi adaptado por Eloar
Guazzelli para a mesma coleção]. E tinha O
alienista, que era o que eles queriam adaptar de Machado de Assis.
Gostamos muito de Machado de Assis.
Gabriel Bá - A gente nunca tinha lido.
Fábio Moon – O
alienista a gente nunca tinha lido. A gente leu, gostou, viu que O alienista é um texto relativamente
curto, não é um livro gigante. Então, fazendo a adaptação ia nos possibilitar manter
quase tudo do texto original. Não ia ter que decepar o texto original, que é
bem bacana. Isso também nos motivou a fazer a adaptação. Era acrescentar uma
nova camada de significado, de interpretação, da nossa
visão de O alienista, do que
ficar mudando todo o original, para manter a sonoridade do texto de Machado de
Assis que a gente gosta bastante.
Qual a dificuldade de adaptar uma obra de outro autor?
Fábio Moon – O que facilita é ter a história já bem
fechada. O mais difícil é você conseguir contar a história, fechar a história,
e fechar contando tudo que você queria da idéia original...
Gabriel Bá – Numa história original você parte do zero.
Então, você tem uma idéia, tem que criar uma história inteira que conte essa
idéia e que seja interessante, cative o leitor. Se partir de uma obra pronta,
você já tem isso. A dificuldade, o desafio, é recontar essa história nos
quadrinhos, numa nova linguagem, aproveitando tudo que os quadrinhos podem ter.
Então, é olhar com outros olhos para essa história. Você não pode simplesmente
pegar e ler. Você não vai estar mais lendo O
alienista. Vai ter que olhar a história, entender mais a fundo o que
está sendo contado ali. O que é importante? Aonde a gente vai poder explorar
mais as imagens? Aonde a gente vai poder manter texto... Tem todo um trabalho
diferente, adaptando outra obra, do que criando a própria história original.
Vocês começaram publicando suas próprias histórias, em
fanzines. Como foi o processo para chegar às editoras? O reconhecimento surgiu
primeiro fora do Brasil?
Gabriel Bá – Não. Surgiu no Brasil primeiro. A gente fez
os fanzines, que tiveram uma certa repercussão. Entramos em contato com as
editoras depois de fazer uma série de fanzines. As editoras estavam
interessadas em publicar os fanzines, as histórias que eram mais longas.
Fábio Moon – Era uma época em que as editoras estavam voltando
a publicar histórias nacionais, e começando a ir para as livrarias. Isso foi no
início do ano 2000. E tiveram interesse de publicar o que fazíamos no fanzine,
coletado num álbum.
Gabriel Bá – Acho que desde o primeiro livro, O
girassol e a lua (Via Lettera), em 2000, e Meu
coração, não sei por quê (Via Lettera), em 2001, o reconhecimento do
trabalho aqui [no Brasil] começou a crescer...
Fábio Moon – Porque sempre produzimos coisas novas...
Gabriel Bá – Continuamos produzindo. Fazendo meio que um
livro por ano e participando de antologia com outros autores. E lá fora, o
reconhecimento só veio de dois anos pra cá. Ano passado, quando ganhamos o Eisner
[Awards, o mais prestigiado prêmio para HQ, que leva o nome do mestre Will Eisner], que foi o reconhecimento maior, deu uma repercussão grande aqui
também. Mas aqui já tínhamos um espaço, pelo menos no mundo dos quadrinhos a
gente tinha nosso espaço. Ganhar o prêmio lá fora serviu para fortalecer,
expandir para além do mundo de quem só lê quadrinhos.

Vocês estão produzindo algum trabalho para o mercado internacional?
Fábio Moon – Lá fora a gente faz alguns trabalhos. Mas o
que nos empolga mais que é nosso trabalho mais autoral. A gente está escrevendo
uma série, a gente escreve junto e eu estou desenhando, chama-se Daytripper. Não começou a sair ainda, a
gente já tem umas 100 páginas desenhadas, estamos quase na metade. É a primeira
oportunidade que a gente teve de escrever uma história longa, desenhar e
publicar numa editora grande, que é a Vertigo, a editora que publicava o Sandman.
Essa é chance que temos de mostrar nosso trabalho de autor e não só contar as
histórias de outras pessoas – que são histórias que gostamos bastante, mas que
são bem diferentes das histórias que escrevemos, são muito mais fantasiosas,
heróicas e “aventurescas”. Diferente das nossas histórias, que tem muito mais a
ver com a realidade brasileira, situações cotidianas, conflitos de relações.
Agora temos essa chance de fazer um livro, que é mais próximo ao que a gente
tem feito aqui no Brasil. É o que a gente tem trabalhado com afinco desde o
meio do ano passado.
No Brasil, a grande referência de história em quadrinhos, principalmente para
crianças, é a Turma
da Mônica, do Maurício de Souza. Quais quadrinhos vocês leram na
infância?
Gabriel Bá – A gente leu de tudo.
Fábio Moon - Quando a gente era criança, não havia critério,
lia o que caísse no nosso colo ou encontrássemos na banca. Lemos de tudo que
caiu na nossa frente, Mônica,Disney...
Na biblioteca da nossa escola tinha Príncipe
Valente, Henfil e o Fradim...
E tinha tiras das mais variadas: Garfield, Calvin, Os
sobrinhos do Capitão... Minha mãe gosta de quadrinhos, então sempre teve
quadrinhos em casa, mesmo na idade em que os moleques param de ler quadrinhos. Crescemos
e continuamos lendo quadrinhos porque ela comprava para ler. Lendo quadrinhos
de super-heróis...
Gabriel Bá – Lendo quadrinho europeu muito cedo. Aos 10
anos lendo Manara, Moebius...
O que mais?
Fábio Moon – Sei lá.
Gabriel Bá – Um pouco de tudo. Aos 12, descobrimos Will
Eisner. A gente sempre leu muito quadrinho, mesmo o que a gente não
entendia. Então, tudo isso foi acrescentando nessa vontade de fazer quadrinhos
e mostrando que podia ser um monte de coisas diferentes, não uma coisa só.
Há sempre um questionamento se os quadrinhos são ou não
literatura. O que vocês pensam sobre o assunto? Por que quadrinhos?
Fábio Moon – Eu acho que a nossa escolha por fazer
quadrinhos vem do que possibilita contar em quadrinhos. Adoramos escrever,
desenhar, história em quadrinhos, livro... A gente adora tudo. Mas fazer história
em quadrinhos existe uma síntese. Existe uma pontualidade de direcionar o
leitor para aquele sentimento, ou para aquela frase, ou para aquela situação,
no uso da palavra e da imagem, que não se consegue sozinho. Não se consegue
fazendo uma ilustração, não se consegue só escrevendo. Tem uma coisa de juntar
a palavra com a imagem, e a história funciona no meio disso, entre um quadro e
outro. Quando você faz uma boa história em quadrinhos o leitor esquece quantos
quadrinhos tem por página, qual foi a cena que você desenhou... Na cabeça dele,
depois, a história tem muito mais imagem do que você desenhou, a história
acontece entre um quadro e outro. E, para algumas pessoas, a imagem que elas
gostam mais na história a gente nem desenhou. Poder usar a imagem e a palavra
para poder contar a história é um negócio que só dá para fazer em quadrinhos.
Escrever uma história e ter uma cena que acontece toda em silêncio, só dá para
fazer em quadrinhos. Então, tem umas coisas que só conseguimos fazer em
quadrinhos. Esse apelo da forma de contar a história a gente só encontrou
fazendo história em quadrinhos.
Vocês não têm vontade de escrever só texto, literatura em prosa?
Gabriel Bá – Até temos vontade de tentar escrever alguma
coisa só em prosa.
Fábio Moon – Porque também tem coisas que funcionam
melhor.
Gabriel Bá – Tem tipo de narração...
Fábio Moon – Funciona melhor não, funciona diferente. Tem
um jeito de contar a história...
Gabriel Bá – Só nas palavras...
Fábio Moon – É, quando só usa as palavras. Você tem que
ficar seduzindo o leitor, com o jeito que você constrói a frase para ele
imaginar e mergulhar na história.
Gabriel Bá – Às vezes tentar colocar uma imagem no meio
fica redundante...
Fábio Moon – Distrai.
Gabriel Bá – Até pensamos em fazer algo só em texto. Tem
uma história que começamos a escrever há alguns anos, tentamos fazer uma
história em quadrinhos, mas ela funcionava quase que somente no texto. A imagem
virava uma distração. Talvez ela termine só em texto. Mas é como dissemos
antes, demora muito fazer uma história em quadrinhos. Ainda estamos lutando, na
guerrilha, para consolidar essa coisa. É importante manter a produção de
quadrinhos, ao invés... Ao invés de, sei lá, tentar outras coisas para angariar
vocabulário: escrever um livro, fazer um curta. Melhor é fortalecer: nós fazemos
histórias em quadrinhos, dá para contar qualquer história para qualquer
público, com uma qualidade excepcional. É produzir mais, mas isso demora.
Quando isso estiver consolidado talvez a gente se aventure, tente fazer outras
coisas.
Fábio Moon – Para não ficar com essa imagem de que fazemos
quadrinhos como trampolim para depois fazer alguma coisa séria. Para nós
quadrinhos é uma coisa muito séria.
Gabriel Bá – Hoje em dia têm muitas adaptações de cinema de
histórias em quadrinhos. Nós vamos para convenção em San Diego, e tem muita
gente que vem falar, perguntando se não queremos transformar o gibi num filme.
Diz que acha muito interessante... E nem leu. Eles querem mercado, acham que
estão te fazendo um superfavor transformando seu gibi num filme. Mas, para mim,
a história em quadrinhos é o auge daquela história que estou fazendo. O máximo
que posso conseguir, contando a história, vai ser com a história em quadrinhos.
Fazendo o filme não vai ser a mesma coisa, para mim não é um produto acima. “Ah,
vai virar um filme!? Uau!” Não, se virar, legal. Mas vai ser outra coisa. O
máximo que eu consigo chegar, que eu quero chegar, é fazer uma história em
quadrinhos. Ainda estamos lutando para que as pessoas entendam isso.

O fanzine 10
Pãezinhos fez 12 anos. Falem sobre esse projeto.
Fábio Moon – Quando fazíamos o fanzine tínhamos um contato
muito direto com o público, fazíamos o fanzine e saímos vendendo na faculdade,
para os amigos. E quando paramos de fazer o fanzine percebemos que tínhamos
desaparecido, praticamente. Íamos ficar trancados, desenhando no estúdio,
desaparecendo... Ninguém ia saber quando sairia o próximo livro. Era 2000/2001,
na época que o Neil
Gaiman estava começando o blog, para divulgar Deuses
americanos (Conrad). Ele criou o blog para divulgar, ficava falando que
chegou a prova... Então, percebemos que o blog, naquela época, ia ser um ótimo
jeito de continuar conversando com o leitor, um bate-papo. Criamos o site/blog
[que leva o nome do fanzine, 10 Pãezinhos] para continuar interagindo com o
leitor entre um trabalho e outro, para falar como era o dia-a-dia de produção
de quadrinhos: como a gente pensava nas histórias, onde faríamos o
lançamento... Até hoje a função, mais ou menos, é essa. Agora colocamos as tiras
que saem no jornal [“Quase
nada”, na Folha de S. Paulo]
no blog também. O foco do blog/site sempre foi mais atiçar a curiosidade sobre
o trabalho do que simplesmente mostrar o trabalho, dar de mão beijada para as
pessoas. Acreditamos que as pessoas têm de correr atrás do que elas querem. Se
elas querem os quadrinhos, a gente direciona, mas têm que ir até a livraria,
virar a página, essas coisas.
Recentemente, alguns livros foram “censurados” pelo governo
de São Paulo. O que vocês pensam sobre esse patrulhamento ideológico?
Fábio Moon – Acho que é uma questão de desinformação, o
caso do Dez
na área (Via Lettera, 2002), o livro de quadrinhos que foi distribuído
e recolhido. Quem selecionou não leu! Porque não é um livro para crianças.
História em quadrinhos não é só para crianças. Quem pegou, viu: “Quadrinhos?
Criança gosta de quadrinhos. Futebol? Criança gosta de futebol. Então, vou distribuir
para crianças!” Não leu, não abriu [o livro]. Falta de informação do material.
E o [José] Serra faz aquela declaração infeliz, dizendo que o desenho é de mau
gosto. Ele também não leu e coloca a culpa no gibi. Falta de informação! Eu li
uma reportagem que tinha uma declaração assim: “Não dá para censurar o livro
que vai para biblioteca da escola porque tem criança pequena”. É a mesma
biblioteca da escola que vai ser usada pelo aluno da 1ª série e da 8ª série.
Quem trabalha na biblioteca, os professores, têm que saber discernir para onde
eles vão direcionar o aluno. Porque o material tem que estar lá, para todas as
idades. Só tem que ter maturidade para dizer ao aluno o que ele vai poder
aproveitar. Não dá para fazer só material para crianças. E tem jeito, se for
bem trabalhado, para mostrar o material para crianças. Não tem problema. Nós
éramos crianças quando lemos Capitães
da areia [de Jorge Amado]. Ficou marcante a cena dos moleques
estuprando na praia. Só porque não tem desenho? Só o jeito de contar cria a
sedução na narrativa, não importa se você tem 14, 15, 30 anos. Existe um
preconceito do que se pode contar em quadrinhos e falta de informação para
direcionar aos alunos. Na literatura não tem tanto [preconceito]. Embora tenha
ocorrido com os poemas do Joca
[Reiners Terron] naquela coletânea [Poesia do Dia – Poetas de
hoje para leitores de agora (Ática),
que também foi indicada para uma faixa etária equivocada, e acabou por ser
recolhida. Leia
mais sobre o caso] É como achar que o Joca é a mesma coisa que a Ruth
Rocha. Colocam tudo no mesmo saco, nos quadrinhos eles fazem isso. Não é tudo
a mesma coisa. E não tem nada de errado fazer um quadrinho mais adulto, mais
duro. Só tem que saber que aquilo lá não é para uma criança de 8 anos...
O que é preciso para se tornar quadrinista?
Fábio Moon – Você precisa gostar muito de fazer quadrinhos
para fazer quadrinhos.
Gabriel Bá – É difícil.
Fábio Moon - Porque é difícil, a maior dificuldade de
fazer quadrinhos é atravessar a arrebentação de ser o fã para se tornar o
autor, o desenhista de quadrinhos. Porque os quadrinhos têm essa dicotomia de
que você lê em 20 minutos um livro de 80 páginas. Esse livro de 80 páginas você
vai ficar um ano fazendo. Essa diferença entre “eu adoro quadrinhos, eu leio em
20 minutos, é super rápido, dinâmico e divertido” e o dia-a-dia de ficar
trabalhando nas páginas, meses esperando aquela história ficar pronta. É muito
difícil de passar essa fase. O que nós vemos é um monte de gente que quer fazer
quadrinhos e desiste justamente quando percebe que não é fácil, que não é
sempre divertido. É superlegal criar, é superlegal desenhar, mas tornar isso
uma rotina e levar o trabalho até o fim é desgastante como qualquer outro
trabalho. É um trabalho sério que exige que você seja responsável, determinado
e empenhado. E, às vezes, as pessoas se desestimulam porque elas achavam que ia
ser mais fácil. Tem uma diversão, uma satisfação, quando se produz. Cada página
nova que você faz é uma vitória. Você viu e fala: “Uau!” É aquilo mesmo que
queria fazer. A história vai se construindo ao longo do tempo, você vê a coisa
nascendo... Mas é muito desgastante. Trabalhamos dez, doze horas por dia, todo o
dia, todo final de semana, todo feriado, há 10 anos. Então, tem gente que só
olha o resultado. Publica no exterior, ganha prêmio... Resultado, resultado e
resultado. É tudo resultado do trabalho. Tem que gostar muito para fazer
quadrinhos. Fazer sempre, fazer, fazer e errar. E errar é mostrar para outro,
porque o outro vai mostrar o que você não viu, o que não funcionou. É só assim
que se aprende, errando, errando, errando... E tentando de novo, fazendo mais.
Porque também as pessoas têm medo de errar, não mostram. O importante é
mostrar: fazer um fanzine e mostrar para os amigos, fazer uma tira e colocar no
blog, ir fazendo mostrar para pessoas e ter uma reação. É uma profissão muito
solitária, você fica lá sozinho com o seu trabalho. Você só vai saber se
funcionou se mostrar para alguém. Então, são as coisas que a gente fala para
quem está começando a fazer quadrinhos.
Quais são as maiores referências: europeus ou americanos? O
que vocês lêem hoje em dia?
Gabriel Bá – Estamos muito mais direcionados. Ficamos
sabendo de um quadrinho que dá mais vontade de ler e vamos atrás. Seguimos
muito mais um autor do que um título. Lemos muito quadrinho americano quando
estávamos crescendo porque havia mais acesso. Chegavam alguns Manaras, Moebius, Tintim, Corto
Maltese... Nos últimos anos tivemos acesso ao outros tipos de quadrinhos.
Hoje em dia tem uns autores europeus que fazem trabalhos mais sensíveis do que
os americanos. Tem um que chama Cyril Pedrosa,
acho que ele trabalha com animação... Ele fez um livro que chama Três
sombras, a história é muito sensível, muito legal. O que mais? Gipi, um italiano que
começou fazendo quadrinhos há uns oito anos, mas ele deve ter uns 50. Ele
começou muito tarde, fazia outra coisa. O quê?
Fábio Moon – Acho que ele era ilustrador editorial...
Gabriel Bá – Ele tem um desenho muito cinematográfico,
exagera muito nos ângulos e tudo, sempre ali meio fechado... Ele era arquiteto!
É muito bom, e umas histórias super legais, pessoais. A gente adora também o Michelangelo
Prado, espanhol, que também era arquiteto. Francês? Christopher Blanc, do Isaac, o pirata. Ele vem para o Brasil
em outubro. O que mais? A gente leu muito Asterix.
Quando você é criança você não presta atenção que os quadrinhos são feitos por
alguém. Hoje em dia é ao contrário, o que importa é quem faz o quadrinho, e não
o personagem. Descobrimos, indo a uma convenção nos EUA, que tem muito
quadrinho americano que se parece com quadrinho europeu, mas que não tem tanto
espaço de divulgação. Porque lá o que se divulga são os super-heróis. O tipo de
história que gostamos de contar, mais intimista, história fechada, tem muito
mais espaço no mercado europeu do que no mercado americano. Nós trabalhamos
muito em preto e branco e o mercado francês, franco-belga, são muito pintados.
Os europeus olham diferente para o material e para os artistas, enquanto nos
EUA eles vivem muito mais de produzir um gibi por mês. Nós temos aprendido essas diferenças...
> Assista à entrevista exclusiva de Fábio Moon e Gabriel Bá ao SaraivaConteúdo
> Confira o site/blog e o flickr dos
quadrinistas
> Leia um trecho da adaptação de O alienista (Agir, 2007)
>
Fábio Moon e Gabriel Ba na Saraiva.com.br