15 de Julho de 2009 | 15:29
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Lobo Antunes: "Se você quer mesmo escrever, tem que escrever para ser o melhor" 
Por Ramon Mello e Bruno Dorigatti, de Paraty
- Foi engraçado?
- Foi ótimo!
- Só queria que fosse engraçado...
Enquanto nos preparávamos para a entrevista exclusiva - rápida, porém intensa - com António Lobo Antunes, ele nos questionava sobre a performance na coletiva de 40 minutos, que terminou com aplausos ao escritor português.
Nela, Lobo Antunes comentou sobre sua educação severa, normativa, do norte do Brasil, já que seu avô era de Belém do Pará, abordou, ainda que a contragosto, a terrível experiência na guerra (ele esteve como soldado por quatro anos em Angola, no final dos anos 1970), a trajetória como médico psiquiatra, antes de poder se dedicar exclusivamente à literatura. Mas, sobretudo, procurou relatar como encara seu ofício, segundo ele, algo tão ordinário como qualquer outro, apesar do glamour e charme que ostenta. Confira alguns trechos da coletiva:
"Não me interessa nada contar estórias. O livro é algo simbólico, sem significado definido. Não procuro escrever romances naturalistas, realistas. Me interessa colocar o mundo entre as capas."
"Conhecem aquele tenista Bjorn Borg? Ele falava que os outros jogavam tênis; ele jogava outra coisa. É isso. Outra coisa. Procuro reinventar a escrita."
"Não se pode fazer nenhuma transigência ao leitor. O livro deve ser lido com as chaves do próprio livro, do escritor, e não com as do leitor. O livro é um organismo, com características próprias. Se os livros fossem anônimos evitariam vários problemas, poupava-se muito trabalho."
"Os bons livros foram feitos pra mim, e não interessa quem os escreveu."
Autor de mais de 20 romances, entre eles Os cus de Judas (1979), Conhecimento do Inferno (1981), Explicação dos pássaros (1981), Eu hei de amar uma pedra (2004), Ontem não te vi em Babilônia (2006) e O meu nome é Legião (2007), que foram e estão sendo lançados pela Alfaguara/Objetiva no Brasil, Lobo Antunes recebeu o Prêmio Camões, o mais importante em língua portuguesa, em 2007. Ele serviu ao exército português em Angola e, junto com sua experiência como médico psiquiatra, essa vivência transparece em sua literatura, sobretudo em suas primeiras obras. A mais recente aqui lançada, O meu nome é legião, aborda os jovens marginais da periferia de Lisboa, filhos de imigrantes. Na entrevista exclusiva ao SaraivaConteúdo, afirmou:
"Não era tanto a imigração que interessava. Todo livro é sobretudo uma reflexão pessoal e profunda sobre a arte de escrever. Era como se a polícia do livro fosse o escritor e aquelas vozes daqueles meninos fosse o material, que escapa de todas as maneiras, estão sempre fugindo. E, ao mesmo tempo, é inestinguível o ser de ternura daqueles meninos. Simplesmente, eles nao tiveram outro meio de exprimir a não ser matando, foi assim que foram educados. Porque só conheciam o mundo da violência, em que até o amor é pedido com violência. Aquilo que nós estamos pedindo sempre é: “Gostem de mim, gostem de mim, goste de mim... Reparem em mim, estou vivo, estou aqui”. Porque nós damos muito pouca atenção uns aos outros, nao há tempo."