22 de Julho de 2009 | 20:32|
 

Ollivier Pourriol e a filosofia no cinema   

Professor de filosofia, romancista e ensaísta, Ollivier Pourriol promove aulas em um cinema de Paris onde relaciona filosofia e cinema. Com o sucesso das aulas, Pourriol publicou o livro Cinefilô: as mais belas questões da filosofia no cinema (Zahar, 2009) onde aborda a obra de René Descartes e Baruch Spinoza, filósofos do século XVII, e as relaciona com filmes como X-Men, Forrest Gump e Matrix. 

> Leia um trecho de Cinefilô

Nesta entrevista Pourriol fala um pouco mais sobre o curso e o livro que deu origem.


A IDÉIA

POURRIOL. Eu buscava sair da maneira tradicional de ensinar filosofia, e eu passei pelo cinema utilizando extratos de filmes, fazendo, para os meus cursos, apresentações dentro do cinema com filmes. De maneira a transformar o cinema em objeto de pesquisa filosófica, mais do que fazer um curso magistral habitual, porque as duas coisas que gosto mais são mesmo a filosofia e a literatura, e com o cinema tornam-se três. Eu me perguntava se há ligação entre as coisas que amo, e também vontade de saber se há ligação entre a abstração filosófica e a maneira como montamos as imagens, como enquadramos, como filmamos; o que é a idéia do cinema?, é isso que me interessa; o que o olho do espírito tem a ver com o olho da câmera, e como isso se conecta. 

Eu explorei isso com dois grandes filósofos difíceis do século XVII; peguei Descartes e Spinoza. Com os dois utilizamos a metáfora do olho, da luz da razão, a intuição etc. E eu me perguntei se era possível compreender alguma coisa no cinema, mesmo se o cinema não existisse. Eu apresento associações entre textos e filmes de onde se desenharia o cinema. É um laboratório aberto, as pessoas podem propor, intervir, não há classificação entre eles, filme “cabeça”, grandes filmes comerciais..., não há a hierarquia acadêmica; é um lugar de prazer, de troca, de reflexão. As primeiras idéias que temos, verdadeiramente mesmo, na história do desenvolvimento de uma criança, é o cinema, a televisão..., são, atualmente, as imagens; e as imagens montadas, as imagens que contam uma história, que são primeiras. Deduzi então, bem... a filosofia, no fundo, agora vem em segundo... 


CULTURA DA IMAGEM

POURRIOL. Estamos em uma cultura essencialmente de imagem, o livro é alguma coisa que resiste, é preciso ajudá-lo, e a imagem, no limite, tentaria escapar do livro. Eu me perguntei então porque não, talvez, ao invés de dizer sempre que o livro é uma resistência contra as imagens, perguntar como podemos modificar esse curso das imagens, e as fazer retornar para o livro. Quando as pessoas saem das minhas conferências, onde há projeção de filmes, elas têm vontade de ver o filme, de descobri-lo, com um olhar que coloca questões, que não é pacífico, é um olhar ativo do espectador, e, ao mesmo tempo, têm vontade de descobrir os textos que pareciam difíceis, antigos, talvez mortos, que são reativados pelo fato de poderem ajudar a pensar um objeto moderno. Para explicar o “Método”, cartesiano, existem “quatro preceitos”; então me perguntei se esses “quatro preceitos” para bem pensar, não poderiam ser os quatro preceitos para bem agir em um filme de ação. Então eu peguei uma cena de Colateral, de Michael Mann, onde vemos Tom Cruise como um matador de aluguel, muito metódico, e me perguntei se talvez ele não estivesse utilizando as técnicas que correspondem ao Método de Descartes. Por exemplo, Descartes diz que para garantir que não esquecemos de nada, quando pensamos temos que fazer um inventário, uma enumeração; e então me perguntei se para o olho da câmera, um inventário, uma enumeração, não poderia ser uma panorâmica, por exemplo, onde a câmera gira em seu eixo, uma varredura de 180, 360 graus. Poderia ser igualmente um plano-seqüência, onde tentamos nada esquecer, mostrar tudo. Então, nós nos fazíamos questões como estas.


O LIVRO

POURRIOL. O livro é diferente das conferências, é um aprofundamento, como fui eu que fiz, tento imprimir um ritmo. Coloco uma cena... na cena eu a descrevo, evidentemente, ponho os diálogos, de modo a tentar guardar esse prazer, de poder deixar preso esse momento em que o espectador torna-se ativo pensando alguma coisa, com um tom muito familiar, com ambição de deixar quase oral, nós fomos suficientemente longe; sei que se eu tivesse feito um trabalho universitário, não teria descoberto coisas tão interessantes sobre Descartes e Spinoza porque o trabalho estaria muito formal; e, por outro lado, a grande liberdade que me dá esse método é que eu posso ir muito mais longe, porque eu não tenho que prestar contas. Então, o resultado, para mim... estou contente, sair um pouco das algemas da pesquisa universitária e fazer uma pesquisa viva, pública, com pessoas que não são especialistas, e que têm questões que... interessam, sem dúvida, que merecem um entendimento, um aprofundamento. 


CINEASTA

POURRIOL. E eu fiz curtas-metragens, assinei longas-metragens, cenários, e, se tudo der certo, vou rodar um filme em francês e espanhol. Uma história que se passa na Costa Rica, em 1948. Sim, eu tenho um grande desejo pelo cinema, é isso também que me excita... Há os textos filosóficos de Descartes, de Spinoza, mas a gente diz, a gente compreende, podemos compreender, mas uma vez que tenhamos compreendido o que fazemos, onde está a vida.



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